O Centro Esperança de Deus não pode morrer

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       A última vez que vi Padre Leeb foi no lançamento do livro A Força da Fé – Pe. Leeb: uma vida que faz história, de autoria da professora Geovana Lima, creio que em fevereiro de 2011.
       Num canto da sala, contemplativo, ele observava os quadros na parede de vultos da vida sergipana. Cumprimentamo-nos e pedi-lhe também o autógrafo. Na dedicatória, ele e Geovana expressaram o sentimento contido: “Para Lúcio, amigo querido e parceiro de eventos, um testemunho de solidariedade humana”. Voltei no tempo e recordei os bons momentos em que repartimos sonhos e realizações.
       Passei a acompanhar a obra do Pe. Leeb a partir de 1988, onze anos após sua chegada de barco a Porto do Mato, numa região denominada Porto da Nangola, trazido do Rio de Janeiro por uma filha da terra sergipana, Joana Batista Costa. Quando eles chegaram à região, a miséria era extrema. Não existia acesso terrestre, os nativos viviam do pescado, as doenças grassavam, a mortalidade infantil beirava a níveis absurdos: de cada quatro crianças que nascia três morriam antes de completar um ano de vida.
        Com a força inabalável da fé e a vontade de cuidar do sofrido povo do local, ele edificou uma obra portentosa. Com a “cruz da reconciliação”, um símbolo esculpido em madeira afirmando a presença do cristianismo, deu início a uma nova era na raquítica paisagem do sul sergipano. Fundou o Centro Esperança de Deus, um complexo que passou a abrigar o povo da região, abrigando-o em múltiplas tarefas profissionalizantes, culturais e cristãs, com respeito absoluto às tradições locais. Oficinas, escolas, posto de saúde, pousada, foram edificadas e prosperaram ao longo dos anos, transformando o local numa pequena cidade, com quadra de esportes, restaurante, campo de futebol, entre outras.  
        Após 30 anos de dedicação plena e exclusiva à obra que edificou, mudando as condições de vida da população, na semeadura do bem comum, no resgate da dignidade e da autoestima, Pe. Leeb despediu-se de seu povo para o merecido descanso, feliz pelo cumprimento de sua missão.  
        A Diocese de Estância, que herdou o centro  completamente pronto, aparelhado, funcionando em sua plenitude,  tinha a obrigação de preservar esse patrimônio do povo de Sergipe. Mas não foi o que aconteceu. Após seu afastamento  da obra,   em 01 de janeiro de 2009, a comunidade passou a amargar  o fel do abandono,  do descaso e  do descompromisso.
      Hoje, quem adentra o Centro sente a grande diferença do que ele era antes e do que é hoje , principalmente em termos de liderança espiritual, de  manutenção das instalações físicas da obra, de desenvolvimento de  projetos para a comunidade e de vida partilhada. A desmontagem do centro se evidencia claramente pelas pessoas que vão ao local. Foram vendidos o  ônibus,  a ambulância, o automóvel, os equipamentos da marcenaria e da oficina mecânica, o forno da padaria ( que havia sido doada pela Siemens)  substituindo o forno de lenha.
      Mas o desmonte não é só dos utensílios e equipamentos. A história também está sendo apagada, com a destruição do Museu e o desaparecimento de outros materiais relevantes que o Pe. Leeb obteve através de doações. Segundo informações que chegaram ao meu conhecimento, nada menos que 54 instrumentos musicais da Banda Marcial da Escola, angariados junto ao povo da Áustria sumiram e, pasmem, até o ostensório de ouro que ele deixou para o trabalho religioso da comunidade, na solenidade de transferência do Centro, teve rumo incerto.
      No cemitério, no altar principal, Pe. Leeb construiu a sepultura de Joana, co-fundadora do Centro  e outro mausoléu em que ele afirmava para todos  que, no futuro, seus restos mortais  lá repousariam. Esse mausoléu hoje está ocupado com outro corpo, em total desrespeito  ao desejo e memória do  fundador.
     Outro grande prejuízo também foi na área educacional, com a descaracterização  do trabalho em sua fundamentação educacional holística e  perda da identidade e qualidade de ensino, resultando em  desinteresse e evasão escolar  por parte dos alunos, conforme pude perceber. A nomenclatura  da escola “Luz e Vida” sumiu do mapa. Triste realidade quando se sabe que o termo possui um valor inestimável para o padre e para a comunidade local por ser um símbolo da  missão social e pastoral que ele semeou  e ergueu,  tanto  em solo brasileiro como em vários outros continentes.
      Os eventos culturais que testemunhei ao longo dos anos naquela paragem ( tais como a apresentação da Orquestra de Acordeão da Alemanha), os religiosos, como a Semana Santa  ( Ceia do Senhor, Paixão de Cristo, Domingo de  Ressurreição), os festejos do Natal e de outras datas comemorativas, que contavam com a participação da comunidade e  marcavam o sentido do sagrado,  deixaram de existir. O povo vive da lembrança do que viveu no passado.
      O Centro Esperança de Deus clama, antes que seja tarde demais, por medidas urgentes de revitalização e correção dos desvios, uma obra erguida, substancialmente,  com o apoio e solidariedade de instituições e  colaboradores do Brasil e principalmente de outros países, notadamente da Áustria e da Alemanha, que periodicamente organizavam delegações para vir conhecer a apreciar o trabalho  missionário e realizador do Padre Leeb.
    Nesse sentido, é fundamental que as instituições e suas autoridades constituídas ,  incluindo aí o Ministério Público Estadual, acordem para o problema e adotem as providências cabíveis, em respeito ao povo de Sergipe e à obra transformadora do Padre Hubert Leeb.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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