O SILÊNCIO PROLIXO

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Não esqueço o dia em que, pela primeira vez,  assisti a uma sessão parlamentar. O palco de minha estréia no espaço reservado ao observatório político fora a Câmara Municipal de Propriá, quando ainda um guri de doze anos de idade. A visita fazia parte de um projeto que a minha escola da época, o Educandário Nossa Senhora de Auxiliadora, incluíra na sua programação escolar, visando nos mostrar a função do legislativo municipal.

 

Propriá respirava o ar quente e agitado da política eleitoral, embora a propaganda partidária fosse controlada pela mão de ferro de uma absurda Ditadura Militar, deixando marcas dolorosas em nossa História. Ainda mais na contestadora terra ribeirinha, berço ativo da resistência ao arrogante autoritarismo que oprimia os brasileiros, fazendo-os famintos de liberdade, solidariedade e igualdade, todos alimentos obrigatórios no banquete democrático. Não podia existir, portanto, momento melhor do que este para freqüentar a chamada Casa do Povo, pois nos faria entrar em um dos caldeirões prediletos do debate eleitoral.

 

E realmente eu estava certo em minhas expectativas, pois presenciei um caloroso debate político, embora, pela idade que tinha, não compreendesse inteiramente o que diziam. Dentre os assuntos debatidos um ficou em minha memória, talvez porque não guardasse relação com a agitada discussão política que lhe antecedera ou ainda pela exagerada postura religiosa do vereador que introduzira o debate. Além do mais, tinha um certo conteúdo cômico, pois a proposta do citado vereador, não recordo o nome, era a de se construir uma gruta na praça que abrigava Santa Luzia, “para que ela não ficasse com inveja de Nossa Senhora de Lourdes, que era proprietária de uma grutinha particular que a protegia do sol e da chuva”.

 

Entretanto, quando retornamos para a escola, constatei que não fora o episódio do pecado da santa aquele que atraíra a atenção da turma, não se convertendo, portanto, no principal assunto debatido na nossa sala de aula. O que mais cativou meus colegas fora o silêncio sepulcral de um determinado vereador, o único que permanecera  calado em todos os debates, a exemplo do que fizera, soubemos depois,  em toda sua vida de parlamentar. O nosso espanto fora provocado pela constatação de que o mudo vereador já ocupava a vaga pois vários mandatos, figurando sempre entre os mais votados.

 

Hoje sei que também é assim nos vários parlamentos espalhados pelo mundo, qualquer que seja a sua instância ou nível de conscientização do eleitorado. Eles sempre abrigam em seus quadros, simultaneamente, representantes capazes, eloqüentes, cômicos, trágicos, populistas, sérios, corruptos, enganadores ou simplesmente calados, Há também espaços para aqueles que conhecem e praticam a arte da dissimulação ou virtualidade, ou melhor escrevendo, aqueles que nada fazem ou propõem, mas conseguem passar a imagem de que são atuantes, competentes e preocupados com o bem estar de seus representados.

 

Infelizmente estas espécies não são raras no mundo da política,  certamente confiando no fato de que o eleitorado não costuma exigir que os políticos eleitos prestam contas dos mandatos e trabalhos prestados. Sequer acompanha a atuação  de cada parlamentar, o que permite que vários deles neguem fatos que conscientemente praticaram ou assuma benefícios que nunca fizeram. Esta tática foi praticada e posteriormente desmascarada, por exemplo, pelo empresário paulista Guilherme Afif Domingos nas eleições presidenciais que concorrera, quando dizia que, se eleito, concederia os direitos que votara de forma contrária quando deputado constituinte.

 

Estamos, agora, em plena campanha para renovação ou manutenção dos vereadores que integram as várias Câmaras Municipais do Brasil, em que a liberdade de divulgação e o direito de obter informações sobre a vida dos candidatos fazem parte do diálogo democrático. Não temos, portanto, a desculpa de que vivemos sob a égide de uma Ditadura Militar para que possamos escolher corretamente o nosso vereador, mesmo porque é o eleitor o responsável primeiro pelo destino de sua cidade. E quando o eleitor fala eleitoralmente errado, permitindo que seja eleita a voz do nada-faz-ou-“tudo”-faz-para-si, quem  se cala é a sua cidade, que, por quatro anos,  permanece em um redundante silêncio prolixo.

 

* Cezar Britto, é advogado e Secretário-Geral da OAB

cezarbritto@infonet.com.br

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