A respeito da entrevista de Flávio.

Na semana que passou, a Rede Globo de Televisão promoveu entrevistas com os “principais” candidatos à Presidência da República.

Digo “principais” porque, dos treze candidatos registrados na Justiça Eleitoral, foram convidados apenas seis: Romeu Zema (Novo), na segunda-feira, 24 de agosto; Ronaldo Caiado (PSD), na terça-feira, 25; Renan Santos (Missão), na quarta-feira, 26; Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na quinta-feira, 27; Flávio Bolsonaro (PL), na sexta-feira, 28; e Augusto Cury (Avante), no sábado, 29.

Ficaram de fora Pablo Marçal (PRTB), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Samara (UP), Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata).

Preliminarmente, devo confessar uma consistente aversão minha ao conteúdo editorial político da Rede Globo de Televisão.

Não a considero isenta.

Acho-a excessivamente tendenciosa.

Quem quiser que diga o contrário. Afinal, pertenço à minúscula minoria que já não lhe frequenta a programação.

Se isenção significa ausência de viés, tentativa de apresentar os fatos sem tomar partido nem favorecer grupos ou pontos de vista; se pressupõe objetividade para relatar quem fez o quê, quando, onde, como e por quê, com base em dados reais e checados; e se exige, sobretudo em temas polêmicos, que diferentes lados possam ser ouvidos, a Globo, a meu juízo, carrega em sua história opções editoriais, erros e omissões suficientes para que eu lhe negue esse pretendido certificado de imparcialidade.

E, nesse continuado desabusar da paciência alheia, vale lembrar a máxima tradicionalmente atribuída a Abraham Lincoln:

“Pode-se enganar todas as pessoas por algum tempo, e algumas pessoas durante todo o tempo; mas não se pode enganar todo o mundo por todo o tempo.”

Um desengano crescente que o Zé Povinho há muito traduz, sem pedir licença, num grito de rua:

“O povo não é bobo! Abaixo a Rede Globo!”

Explicitadas, portanto, as minhas desconfianças — para que ninguém me acuse de esconder o jogo —, não me interessei em assistir integralmente às entrevistas dos presidenciáveis. Delas tomei conhecimento pelos muitos cortes disponíveis na internet, sobretudo no YouTube, essa plataforma libertária que tantos sonham amordaçar.

A julgar pelo que assisti e pelo que depois se debateu, os grandes vitoriosos talvez tenham sido os próprios entrevistadores, César Tralli e Renata Vasconcellos.

Não porque tenham vencido os entrevistados, mas porque conseguiram, em vários momentos, transformar entrevista em contraditório, conversa em refrega e pergunta em estocada.

Quanto aos candidatos, não me parece que algum deles tenha saído mortalmente ferido.

Nesse contexto, talvez tenha pontuado melhor Flávio Bolsonaro.

E aí começa o meu problema com Flávio.

Ele apareceu bonzinho, terno, acolhedor, quase macio demais. Parecia cuidadosamente envelopado pelo marketing para exibir justamente aquilo que o diferenciasse de seu pai, o Capitão Jair Messias Bolsonaro.

Eis precisamente o que me desagradou.

Porque o que o marqueteiro parece querer retirar do filho é justamente aquilo que, para mim, constitui uma das melhores lembranças políticas do pai: a disposição para o enfrentamento, sem excesso de mesuras, salamaleques ou rapapés.

Se é o marqueteiro quem vence a contenda, desconfio desses sabões de alcatrão embrulhados como se fossem Lux, a famosa marca que, nos anos 1930, anunciava que “9 entre 10 estrelas de cinema usam Lux”.

Flávio estava Lux demais para o meu gosto.

Ao vê-lo tão macio, solidarizando-se com Renata Vasconcellos — “tão ofendidinha, ó coitadinha!” —, fiquei com a imagem de um cordeirinho excessivamente cândido diante de uma serpente que não comparecera ali para distribuir afagos.

Porque Tralli e Renata, a meu sentir, estavam menos interessados em deixar os candidatos saírem lestos e fagueiros do programa do que em submetê-los a um verdadeiro contraditório.

Ou aquilo não era também um embate?

Uma espécie de duelo televisivo em que a Globo parecia querer menos entrevistar e mais testar, apertar, contraditar e, sendo possível, desmascarar?

À parte tudo isso, porém, Flávio saiu-se bem.

E talvez exatamente por aquilo que inicialmente me irritou.

Posou de anódino — palavra apropriada para aquilo que não fere, não incomoda e tampouco parece oferecer perigo. Faltou-lhe, no meu gosto, algum sal, talvez pimenta, certamente mais fel.

Lembrei-me até da advertência do Apocalipse contra os mornos: antes quente ou frio, porque a mornidão é coisa de ser vomitada.

E mornura em excesso, ainda que cuidadosamente fabricada pelo marketing, pode terminar rimando com indolência, frouxidão e falta de fibra.

Do que vi, portanto, revoltou-me inicialmente a postura excessivamente macia de Flávio.

Faltou-lhe, no meu sentir, defender com muito maior veemência a inocência de seu pai e contestar aquilo que ele e a defesa de Jair Bolsonaro consideram uma condenação injusta, inclusive quanto à competência do foro, à apreciação das provas e às garantias processuais invocadas pela defesa.

Faltou-lhe a repulsa que, para quem enxerga nessa condenação uma injustiça, o caso requer.

Faltou-lhe bater na mesa.

Faltou-lhe, talvez, um “J’Accuse!”.

Um daqueles sonoros protestos, à maneira de Émile Zola, ainda que isso lhe custasse o programa, a entrevista e, quem sabe, algumas manchetes escandalizadas no dia seguinte.

Porque, para aqueles que, como eu, enxergam na condenação de Jair Bolsonaro uma grave injustiça, o episódio começa a adquirir contornos de um Dreyfus tropical: uma ferida política e judicial que, longe de cicatrizar, continua dividindo o país.

Uma nódoa da qual, a meu juízo, a Rede Globo tampouco pode lavar as mãos.

E talvez por isso eu esperasse de Flávio a denúncia.

O murro na mesa.

A indignação.

O filho defendendo o pai.

Nada disso veio.

Vieram a lhanura, a mesura e aquela desconcertante mansidão com que Flávio enfrentou as estocadas dos entrevistadores, deixando-os gastar, quase inutilmente, a própria peçonha.

E foi então que comecei a desconfiar de mim mesmo.

Porque talvez eu estivesse querendo assistir à entrevista de Jair Bolsonaro quando quem estava sentado diante de Tralli e Renata era Flávio.

Talvez eu estivesse exigindo do filho a mesma espada do pai quando a estratégia eleitoral recomendava exatamente o contrário: bainha, sorriso e sangue-frio.

E se foi assim, preciso contrariar minha própria irritação inicial.

Flávio não foi frouxo.

Pode ter sido prudente.

Não se acovardou.

Pode simplesmente ter recusado a provocação.

Não perdeu o combate por não ter desembainhado a espada.

Talvez tenha percebido que, naquela arena, o verdadeiro perigo estava justamente em brandi-la.

Afinal, numa entrevista em que uma frase atravessada pode valer mais que vinte respostas sensatas, oferecer ao adversário o escândalo que ele eventualmente espera pode ser menos coragem que imprudência.

Foi então que o sabão de alcatrão começou, aos meus olhos, a parecer um pouco menos Lux.

A candura talvez fosse cálculo.

A mansidão, estratégia.

E aquilo que durante a entrevista me pareceu excesso de marketing pode ter sido, afinal, domínio de si.

Nesse contexto, Flávio Bolsonaro foi sábio.

E eis que termino este artigo obrigado a contestar o articulista que o começou.

Eu queria o Flávio de espada em punho.

Talvez tenha sido melhor vê-lo guardá-la.

Porque, afinal, adianta, na nossa democracia, falar demais e restar cassado?

Sem poder votar no Jair, vamos de Flávio!

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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