Bolsonaristas: uni-vos!

Bolsonaristas: uni-vos!

 

Tomo emprestada, sem constrangimento e sem remorso, a célebre convocação lançada por Karl Marx e Friedrich Engels nas páginas do Manifesto Comunista de 1848:

“Trabalhadores do mundo, uni-vos!”

Mudam-se os tempos, mudam-se as circunstâncias, mudam-se os destinatários.

As palavras, porém, sobrevivem aos seus autores.

Quando a imaginação não alcança melhor engenho, a humanidade costuma reciclar velhas fórmulas. Afinal, os ventos da História raramente inventam; preferem reaproveitar. Mudam apenas de direção.

Alguém, em galhofa, escreveu certa vez:

“Na natureza nada se cria; tudo se copia.”

A pilhéria caricaturava Lavoisier e sua Lei da Conservação da Massa. O gracejo talvez seja cientificamente falso, mas historicamente verdadeiro. Poucas coisas são tão recicladas quanto os slogans, os ressentimentos e as ilusões políticas.

O próprio Lavoisier aprendeu, à custa da cabeça, que nem toda verdade científica resiste às paixões ideológicas.

Em maio de 1794, durante os delírios sanguinários do Terror Revolucionário, o fundador da química moderna subiu ao cadafalso. Não lhe valeram os serviços prestados à ciência. Não lhe valeram os livros. Não lhe valeram os laboratórios.

Contra ele bastou a sentença atribuída ao fanatismo revolucionário:

“La République n’a besoin ni de savants ni de chimistes.”

A República não necessita nem de sábios nem de químicos.

As revoluções costumam começar prometendo liberdade e terminar distribuindo silêncio.

Por isso a frase atravessou os séculos.

E por isso também permanece atual o velho lamento de Cícero:

“O tempora! O mores!”

Ó tempos! Ó costumes!

Toda época imagina ser original. Nenhuma o é.

Mudam os figurinos; permanecem os vícios.

Também permanece atual outra advertência, esta atribuída a Pompeu Magno:

“Navigare necesse est; vivere non est necesse.”

Navegar é necessário; viver não é necessário.

A frase atravessou Roma, atravessou Portugal, encontrou Fernando Pessoa e chegou até nós, com uma versão mais instigante: “Navegar é preciso, viver não é preciso”

Preciso de precisão e não de necessidade, pois navegar exige rumo, bússola e coragem!

Viver, ao contrário, é navegar em meio às incertezas. Uma coisa que exige bravura, e não a tepidez de até quem sabe; “deixar a vida nos levar”

E nesse contexto desafiador poucas coisas são hoje mais incertas que a política brasileira.

O vento não sopra onde quer?

E se há momentos em que convém segui-lo, há momentos em que se faz necessário enfrentá-lo.

É precisamente neste ponto que me ocorre dirigir um chamado aos bolsonaristas.

Não porque estejamos sendo vencidos.

Mas porque talvez estejamos começando a compreender que a oposição sistemática, por si só, não basta.

Durante anos, bastou-lhes denunciar os erros do PT.

Agora isso já não é suficiente. Ou já o é?

Toda força política madura precisa oferecer mais que indignação. Precisa oferecer horizonte. E o PT não enseja esperança.

Não é possível ignorar certos sinais dos tempos!

A recente passagem de Lula por Lagarto, em Sergipe, produziu uma imagem politicamente eloquente.

Não pelas vaias.

As vaias, afinal, sempre existiram.

Existiam contra João Alves, levando-me a escrever um texto, “Puxão de Orelhas”, reprovando o apupo puxado por Lula, por Deda, Martha Súplica et caterva, com Deda, sempre eloquente em boas amígdalas: “Quem diz o que quer, ouve o que não quer!”

Existiram também contra Deda. 

Lembro-as, sobremodo quando moribundo, no hospital se ultimando, ouvia o reverbero dos professores, sempre grevistas em passeata: “Pague o piso, pague o piso, pague o piso!

Quando o piso que requerem tanto vem sendo imerecido.

Existiam vaias contra Fernando Henrique.

Existiam também contra Lula.

Existirão contra quem vier depois, sem conseguir pagar o piso requerido, mas sempre oferecido, como panaceia da boa administração pública.

A vaia é apenas o aplauso dos descontentes.

Sua importância costuma ser proporcional à escassez de argumentos de quem a pratica.

O que realmente chamou atenção em Lagarto e em Laranjeiras foi outra coisa.

Foi o auditório.

Foi o entusiasmo.

Foi a mobilização.

Ou, mais precisamente, a falta deles.

Não é que Lula tenha deixado de possuir apoio popular.

Seria absurdo afirmar isso.

Continua sendo um dos políticos mais influentes da história brasileira.

Mas há uma diferença entre possuir apoio e inspirar entusiasmo.

Uma diferença que começa a tornar-se perceptível.

Os velhos comícios multitudinários parecem cada vez mais pertencentes ao álbum de fotografias da República.

A mística permanece.

A multidão diminui.

E não deixa de haver certa ironia nisso.

Lagarto, afinal, sempre figurou entre os municípios mais generosos ao lulismo.

Se até ali se percebem sinais de fadiga, talvez o fenômeno mereça alguma atenção.

Naturalmente, os fiéis dirão que tudo continua igual.

Os adversários dirão que tudo está acabado.

Ambos provavelmente exageram.

A política raramente se move pelos extremos imaginados por seus militantes.

Todavia, há algo que parece evidente.

Enquanto o governo insiste em mobilizar fantasmas do passado — golpistas, fascistas, inimigos permanentes da democracia — o país real continua preocupado com questões menos metafísicas e mais concretas.

Segurança.

Inflação.

Emprego.

Crescimento.

Renda.

E a eterna distância entre Brasília e a vida comum.

Os governos costumam cair quando passam a falar de si mesmos em vez de falar dos problemas da população.

Talvez resida aí o maior perigo para Lula.

Não a oposição.

Mas o desgaste.

Não os adversários.

Mas o tempo.

O mesmo tempo que derrubou impérios, revoluções, oligarquias e salvadores da pátria.

O mesmo tempo que transformou São Petersburgo em Leningrado, depois novamente em São Petersburgo.

O mesmo tempo que retirou o nome de Salazar de uma ponte portuguesa e o substituiu pela data da Revolução dos Cravos.

O mesmo tempo que faz heróis virarem vilões e vilões virarem heróis.

A História possui um senso de humor particularmente cruel.

Uns constroem.

Outros inauguram.

Uns realizam.

Outros rebatizam.

Uns deixam obras.

Outros deixam discursos.

E outros fazem barulhentas greves e assembleias, cada qual com sua vocação.

Por isso convém prudência diante das canonizações prematuras.

João Alves não foi o demônio descrito por seus adversários.

Marcelo Deda tampouco foi o semideus descrito por alguns de seus admiradores.

Ambos foram homens de seu tempo.

Com virtudes.

Com defeitos.

Com obras.

Com limitações.

Como todos nós.

Mas as gerações posteriores, incapazes de produzir gigantes, costumam sobreviver disputando a herança dos que já morreram.

Eis uma tragédia recorrente da política.

A dos herdeiros sem legado próprio.

Enquanto isso, o Brasil segue descendo a ladeira dos velhos problemas nacionais, agora acompanhado por uma polarização que transforma qualquer divergência em batalha moral.

Nesse contexto, talvez caiba repetir, adaptando Marx contra Marx, uma convocação menos revolucionária e mais pragmática:

Bolsonaristas, uni-vos.

Uni-vos não para vaiar.

Uni-vos não para idolatrar.

Uni-vos não para repetir palavras de ordem.

Uni-vos para construir algo capaz de sobreviver ao próprio Mito em que se tornou Jair Messias Bolsonaro.

Porque movimentos que dependem exclusivamente de um homem morrem com ele.

Movimentos que se transformam em ideias podem atravessar gerações.

E a História, essa velha senhora irônica, costuma ser implacável com aqueles que não aprendem essa lição.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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