Debate sem contendores.

Em tese, debater é confrontar.

Ou, pelo menos, assim deveria ser.

Um debate presidencial sem os principais presidenciáveis é igual a um duelo em que os melhores contendores mandam avisar que irão faltar.

Foi mais ou menos o que a Rede Bandeirantes ofereceu ao Brasil no último domingo.

Lula não foi, preferiu dar entrevista no mesmo horário à Rede Record. Flávio Bolsonaro fez outra coisa melhor, e Romeu Zema, por sua vez, preferiu cuidar de outros quefazeres.

Restaram Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, e os por demais desconhecidos, Renan Santos e Augusto Cury.

Nada contra os três. Caiado, sobretudo, é político experiente, homem suficientemente rodado para não precisar de apresentação.

O problema é outro.

Um debate presidencial, pensam seus organizadores, existe para permitir ao eleitor comparar aqueles que efetivamente disputam a Presidência.

Quando os candidatos que concentram a preferência do eleitorado desaparecem do palco, sobra uma curiosa representação teatral: discutem principalmente aqueles que precisam convencer o público de que também fazem parte da peça.

E aí surge o fenômeno dos franco-atiradores.

Quem tem pouco voto tem igualmente pouco voto a perder.

Pode arriscar mais. Pode exagerar mais. Pode transformar pergunta em provocação, argumento em desaforo e a televisão vira fábrica de pequenos vídeos destinados às redes sociais.

O objetivo deixa de ser necessariamente convencer o eleitor de que se está preparado para governar o Brasil.

Basta conseguir quinze segundos suficientemente espalhafatosos para sobreviver até a manhã seguinte no Instagram, no TikTok e nos grupos de WhatsApp.

Foi nesse sentido que apareceram até fraldas no cenário.

Insinuar que há candidatos que precisam usar fraldas, um menosprezo a quem delas necessita.

A política brasileira, que já conheceu comícios, manifestos, cartas aos brasileiros e grandes debates, descobriu agora a despolitização do fraldário.

Será que estamos avançando, enquanto piada nova?

Se não é injusto colocar toda a culpa nos que compareceram, fazê-los presentes e a todos igualando-os, cortejou-se a democracia, mas enxotou os ausentes., sem falar que não foram convidados outros sete candidatos, e nem mencionados foram.

Ensejou-se assim, convidando alguns e deixando outros de fora, sem no todo bem explicar a razão e o porquê, ter a Bandeirantes cortejado a democracia, quando ao fazê-lo, o fez democraticamente também, só  razão à comodidade dos que faltaram.

E não serem execrados por isso, mesmo que lhe fossem exibidos absorventes por cueiros.

Porque os grandes candidatos descobriram uma extraordinária vantagem na democracia televisiva contemporânea: se comparecem ao debate, podem perder; se não comparecem, deixam que os adversários menores briguem entre si e ainda permanecem no centro das conversas.

Viram uma espécie de onipresença pela ausência.

Lula da Silva e Flávio Bolsonaro conseguiram a façanha de protagonizar uma altercação sem precisar bater boca, e Zema nem por isso, conseguiu crescer e aparecer!

Os faltosos, Lula e Flávio, foram atacados, lembrados, invocados e responsabilizados. Seus nomes permaneceram sobre a mesa em cadeiras vazias, enquanto seus corpos prudentemente permaneciam longe dela.

E talvez esteja aí o verdadeiro problema.

O debate eleitoral deveria ser um dos poucos momentos da campanha em que o candidato perde o controle absoluto sobre o ambiente. Não escolhe todas as perguntas, não conhece antecipadamente todas as respostas convenientes e encontra diante de si seu contendor, alguém mais interessado em destruí-lo do que propriamente revelar suas contradições programáticas.

É precisamente por isso que o debate vira mais um espetáculo televisivo, que propriamente algo de real utilidade ao eleitor, virando uma contenda assaz perigosa aos candidatos mais posicionados na disputa.

Se os favoritos descobrem que podem simplesmente não comparecer, e se as emissoras, apesar disso, mantêm o espetáculo com quem estiver disponível, cria-se uma situação chata, quase um engodo, para a audiência que resta frustrada.

Os grandes preservam-se. Não é um direito deles!?

Os pequenos exibem-se. Temos, enquanto audiência, a obrigação de assisti-los?

Os nanicos acham que sim. Não são todos eles candidatos?

E o eleitor quando não se diverte, chega a se irritar com tudo isso e até mudar de canal.

Não creio que a solução seja excluir os candidatos de menor expressão, como a Band que excluiu meia dúzia.

Uma democracia não deve estabelecer uma aristocracia eleitoral, via pesquisas prévias, antes de o povo votar.

Mas também não se pode fingir que um encontro entre candidatos que, somados, representam parcela reduzida das intenções de voto possui eleitoralmente o mesmo significado de um confronto entre aqueles que verdadeiramente polarizam a escolha popular.

Uma coisa é assegurar voz às minorias.

Outra é organizar um combate de Hamlet sem Hamlet e anunciar que o espetáculo permanece o mesmo porque Rosencrantz e Guildenstern compareceram pontualmente.

Alguém conhece as falas de Rosencrantz e Guildenstern?

Talvez seja hora de as emissoras repensarem o velho modelo dos debates presidenciais.

Porque debate sem os principais contendores corre o risco de transformar-se não em confronto de projetos para o Brasil, mas em oportunidade para candidatos pouco conhecidos produzirem notoriedade, enquanto os favoritos assistem de longe à algazarra. E nós não podemos gritar no poleiro da galera, como se fazia, no Circo armado na Esplanada do Morro do Bonfim do meu tempo de criança: – “Quero meu dinheiro!”

E assim chegamos à curiosa modernidade eleitoral brasileira: os que mais precisam explicar como governariam não comparecem; os que têm remotíssimas possibilidades de governar esclarecem tudo; sobretudo aquilo que não queremos saber

E nós, eleitores, terminamos a noite sabendo muito mais sobre quem dificilmente será presidente e quase nada de novo sobre quem provavelmente poderá sê-lo.

Se o debate da Band foi insosso, poderia ter sido bem pior, afinal só foram convidados seis candidatos, embora sejam treze os inscritos na justiça eleitoral

Para quem não sabe são estes os principais candidatos a Presidente e Vice apresentados por seus Partidos.

1.Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – Tenta a reeleição pela Federação Brasil da Esperança, com Geraldo Alckmin (PSB) como vice.

2.Flávio Bolsonaro (PL) – Senador pelo Rio de Janeiro, com Alfredo Gaspar como vice.

 

3.Romeu Zema (Novo) –Ex-Governador de Minas Gerais, com Eduardo Girão como vice.

 

4.Ronaldo Caiado (PSD) – Ex-Governador de Goiás com Gilberto Cassab como Vice.

5.Renan Santos (Missão) – Com Coronel Medina como vice.

 

6.Augusto Cury (Avante) – Escritor e psiquiatra, com Júlio Delgado como vice.

 

7.Pablo Marçal (PRTB) Cassado ao que parece.

 

  1. Barão (DC) – Com alguém como Vice

 

9.Edmilson Costa (PCB) – Com alguém como Vice

 

10.Hertz Dias (PSTU) – Com alguém como Vice

 

11.Rui Costa Pimenta (PCO) – Com Antônio Carlos como vice.

 

12.Samara Martins (UP) – Com Raquel Brício como vice.

 

13.Wilson Grassi (Democrata) – Veterinário, com Sued Haidar como vice.

Se os treze candidatos comparecessem ao debate da Band; eu, com certeza, desligaria a TV mais cedo.

Que não me execrem por isso!

Os meus candidatos; eu já os tenho!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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