Pré-Caju 2015: das mentiras e das oportunidades

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Um fato noticiado na última semana mostra como, repetida à exaustão e sem espaço para o contraditório, uma mentira vira verdade. Me refiro à não-realização do Pré-Caju em 2015 e a mentira que se tentou vender sobre os motivos da suspensão do evento.

Não foram poucas as vezes que Fabiano Oliveira, da Associação Sergipana de Blocos e Trios (ASBT), foi a público alegar dificuldades financeiras para realizar a festa. Não foram poucos os meios de comunicação, especialmente os que estão sob o controle de conhecidas famílias, que tentaram atribuir ao Governo do Estado a responsabilidade pelo cancelamento da edição de 2015 do evento. E não foram poucos os políticos locais que, pegando carona numa forjada "comoção popular", usaram o fato para criticar a postura do governador Jackson Barreto, culpando-lhe por supostos prejuízos que a economia do estado terá sem o Pré-Caju.

Todos os discursos bastante articulados, com um único objetivo: tentar enganar a população, escondendo as verdadeiras motivações que impedem a realização do Pré-Caju no próximo ano. Em consulta a sites de notícias e de eventos de Salvador, cidade que exporta a maior parte das bandas que se apresenta no Pré-Caju, é possível verificar como a mentira ecoa. Por lá, se fala até em "crise da axé music, por falta de investimentos e patrocínios".

Mas como mentira tem limites, contra a vontade de Fabiano Oliveira, de parte expressiva da imprensa local e de alguns políticos sergipanos, a verdade dos fatos veio à tona: a ASBT não realizará o evento por estar impedida por uma decisão judicial que, com base em relatórios da Controladoria Geral da União e do Tribunal de Contas da União, revela indícios de irregularidades da ASBT na execução de convênios firmados com órgãos públicos.

O que parece novidade não deveria ser. Em 13 de maio deste ano, o jornalista Rian Santos, em artigo publicado na Revista Rever, noticiou que o TCU condenou a ASBT a devolver algo em torno de R$ 4 milhões aos cofres públicos. Nesse mesmo texto, escrito há mais de seis meses, Rian alertava sobre o que estamos vendo, ouvindo e lendo agora. Disse o jornalista: "a ausência de qualquer menção ao episódio [condenação da ASBT pelo TCU] nos principais veículos de comunicação da capital sergipana, contudo, dá relevo aos critérios de noticiabilidade empregados pela meia dúzia que detém o controle dos jornais impressos, além das concessões de rádio e televisão que servem aos sergipanos. Informação é poder. Notícia é mercadoria. Função social? Ninguém sabe. Ninguém viu".

Aproveitando que estamos no mês da cultura (o Dia Nacional foi celebrado em 5 de novembro) e já que despertou tanta atenção de segmentos da imprensa sergipana e tanta comoção de políticos locais, a suspensão do Pré-Caju pode ser uma excelente oportunidade para a discussão sobre uma série de outros temas que envolvem a cultura de Sergipe: implantação do Sistema Estadual de Cultura, políticas de valorização à diversidade cultural do estado, visibilidade das manifestações culturais de Sergipe, sustentabilidade das cadeias produtivas culturais, fomento à produção cultural pela juventude das periferias e da zona rural, etc.

O curto tempo dirá se a oportunidade foi aproveitada ou se o tema "cultura" voltará a ter prioridade na agenda pública apenas para sabermos se em 2016 haverá ou não Pré-Caju.

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