Rota do Cangaço: Turismo entre Sergipe e Alagoas

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Rio São Francisco, lazer e história pelas trilhas do Cangaço na divisa entre Sergipe e Alagoas

O Nordeste brasileiro tem uma intrínseca ligação com a história do Cangaço, não somente por ter sido em suas terras que Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), sua Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita) e integrantes do movimento nasceram, mas por ser no Nordeste toda a constituição de um legado. Em Sergipe hoje vive sua única filha, Expedita Ferreira, netos e bisnetos.

Quando 28 de julho chega, a família Ferreira, simpatizantes do movimento do Cangaço, pesquisadores de todo o país, estudantes e a comunidade do Baixo São Francisco e Alto Sertão convergem como num ritual para o Monumento Natural da Grota do Angico com o intuito de lembrar os anos de morte do Rei do Cangaço e nove integrantes, ceifados em uma emboscada na Fazenda Angico, então pertencente ao município de Porto da Folha e hoje território de Poço Redondo (SE). Em 2020 a morte de Lampião completará 82 anos, mas por conta da pandemia não houve a tradicional Missa do Cangaço presencialmente, mas transmitida do Museu da Gente Sergipana, em Aracaju (SE).

Se houvesse, a sanfona ecoaria no ritmo do xaxado como um ritual de dança da chuva. Os bacamarteiros lembrariam os tantos tiros dados nas terras áridas do Nordeste, e a chuva quiçá se fizesse presente, cairia como se fosse em agradecimento de luta. A liturgia católica cantarolaria louvores e o cordel seria o hino da hora.

Lampião vive na devoção do sertanejo, nas cores da moda dos grandes centros, nas histórias de pesquisadores e estudantes e nos seus seguidores por todo o Brasil e mundo. Um dos mais pesquisados e biografados brasileiro hoje é um mito.

Por conta da data, o Tô no Mundo traz neste post um roteiro e dicas para se conhecer locais que têm tudo a ver com o movimento do Cangaço entre os estados de Sergipe e Alagoas. Planeje sua viagem e a região lhe aguardará com todos os protocolos de segurança.

Cangaço Eco Parque no município de Poço Redondo (SE)

 

Entremontes, Piranhas e Delmiro Gouveia (AL), Canindé do São Francisco e Poço Redondo (SE) formam um conjunto de atrações que permitem intitulá-los carinhosamente de Rota Turística do Cangaço. O conjunto regional de cenário de novela é real e fica entre os estados de Sergipe e Alagoas.

Não é por acaso que a região chama atenção por suas belas paisagens naturais, aconchegante contato com a natureza e profissionalização do turismo, impulsionando cada vez mais o acesso aos atrativos do Baixo São Francisco. A região onde a união entre o rio São Francisco e as belezas do bioma de caatinga historiaram um dos maiores movimentos do Nordeste brasileiro: o Cangaço.

Partindo de Maceió ou de Aracaju, capitais mais próximas, a dica é resguardar, no mínimo, três dias para conhecer a região. E olhe lá! Três dias com um roteiro bem definido.

1º dia – Cânion do São Francisco

Cânion do São Francisco é uma das atrações mais visitadas do roteiro

O ponto de partida poderá ter como base as cidades de Piranhas (AL) ou Canindé do São Francisco (SE), ambas com maior infraestrutura hoteleira e de equipamentos turísticos. Há também alguns empreendimentos em curso em Delmiro Gouveia (AL).

Partindo de Aracaju (SE), Canindé do São Francisco fica 197km da capital. O primeiro dia lhe reserva um belo passeio pelo Cânion do São Francisco, formado por paredões que chegam a uma profundidade de mais de 150m.

Um dos momentos que chamam atenção no passeio dos cânions

O atracadouro avança pelas águas represadas da Hidrelétrica de Xingó e é por lá que se começa a aventura. Os turistas ficam deslumbrados com o primeiro contato com paredões, margeando as águas ora azuladas, ora esverdeadas. Tão logo passam os primeiros momentos, tem-se a visão do Lago do Justino, uma imensa represa entre formações rochosas. Avistam-se pedras esculpidas pelo tempo e logo-logo são nomeadas como Pedra do Gavião, Pedra do Japonês, até mesmo Morro dos Macacos.

Chega-se à Curva do Rio e o guia avisa que dali até a primeira usina de Paulo Afonso seria pouco mais de 45km, num percurso de 2h30, mas não é preciso seguir tanto. Ali mesmo, bem pertinho, fica o Paraíso do Talhado.

Cânion do São Francisco
Cânion do São Francisco

De um lado do paraíso, o município de Delmiro Gouveia; do outro, Olho D’Água, ambos em Alagoas. Pertinho dali o Vale do Mestre, local que pode ser feito também através de trilhas.

Embalados pelo som do mais autêntico nordestinês de Luiz Gonzaga, a embarcação aporta no píer, garantindo um bom banho. No retorno, a dica do primeiro dia é curtir o pôr do sol de um dos mirantes da região, a exemplo da vista do restaurante Caboclo D’Água ou das proximidades da pousada Mirante do Talhado, ambos distantes um do outro e em solo alagoano. O primeiro tem uma vista inigualável da represa da hidrelétrica de Xingó, o segundo, vê-se o percurso do rio de cima. A unanimidade é o fabuloso espetáculo do Astro Rei. Há também outros mirantes, como o do restaurante Flor de Cacto’s.

2º dia – Piranhas e histórias do Cangaço

O segundo dia lhe reserva conhecer uma das cidades mais encantadoras do Baixo São Francisco. Piranhas é um misto de cenário de novela, história do cangaço e lendas são-franciscanas.

Casas multicoloridas que mais parecem um cenário de filme em Piranhas (AL)

Visite a estação ferroviária construída em 1881, e que é uma réplica de uma estação inglesa, hoje abrigando o Museu do Cangaço. A sua frente fica a torre do relógio. O turista vai observar que passear pela cidade já é uma boa diversão.

Um ponto que não deve ser desprezado é o Mirante Secular, no restaurante Flor de Cacto’s. Caso não queira subir os mais de 300 degraus, o acesso pode ser feito de carro por uma pequena estrada de piçarra, à direita, antes da entrada da cidade. Saborear do pitu – maior símbolo da culinária do Baixo São Francisco hoje quase que em extinção – faz parte do roteiro. É hora de se banhar nas águas doces do rio. Piranhas possui uma extensa “prainha”, com bares à beira-rio, nada de sofisticado, mas vale à pena. Caso tenha sorte, conhecerá a famosa canoa de tolda do São Francisco, uma delas sempre fica aportada no leito do rio.

Ofício das renda nas casas de Entremontes (AL)

O barqueiro lhe aguarda para fazer um icônico passeio pelo rio até a cidadezinha de Entremontes (AL). As casinhas do povoado perfiladas e multicores, a igrejinha ao centro e muitas, mais muitas ribeirinhas sentadas à porta das casas ostentam o ofício de suas mãos manterem as tradições das avós: confeccionarem uma das mais bonitas rendas do interior de Alagoas: o redendê e o ponto de cruz.

Na porta das casas o ofício de cruzar a linha no pano é passado de geração em geração. Elas participam de uma associação de rendeiras e as rendas de Entremontes ganham o mundo. Nas próprias casas a sala é transformada em loja e os visitantes conhecem a diversidade das costuras, além de ver de perto como se fabricam. A volta é feita sobre as águas claras do Velho Chico quando se avista a cidade de Piranhas, ao longe.

Antiga Estação de Ferroviária hoje Museu do Cangaço
Centro de Piranhas

À noite, Piranhas tem um animado centrinho embalado por forró. Vale a pena conhecer um pouco também da vida do boêmio Altemar Dutra, que morou na cidade por algum tempo e que nomeia a cachaçaria mais disputada na noite de Piranhas.

3º dia – Monumento Natural Grota do Angico – trilha e Velho Chico

Eco Parque do Cangaço

O terceiro dia resguardará sombra e água fresca com muita história de Lampião e Maria Bonita, em visita a Grota do Angico e ao Eco Parque do Cangaço.

Caso esteja hospedado em Piranhas, vá até o local por barco que partem do atracadouro da cidade. Caso esteja em Canindé do São Francisco, a dica é partir pela Rota do Sertão e ir até a sede do Monumento Natural Grota do Angico.

Grota do Angico e túmulos de Lampião, Maria Bonita e cangaceiros

Unir a diversidade do bioma de Caatinga com um refrescante banho no rio São Francisco é uma aventura que cada vez mais atrai turistas, ávidos por trilharem os caminhos do cangaço no sertão de Sergipe. São mais de 2.400 hectares de bioma protegido, com boa infraestrutura turística, em meio a cactáceos, pequenos arbustos, flor de mandacaru, répteis e muita história para contar. E de presente, a natureza foi generosa refrescando o final da trilha com o caudaloso banho de rio no Velho Chico, no Eco Parque do Cangaço, uma propriedade particular que alia atendimento, sombra e água fresca à beira do Velho Chico.

Como chegar

Canindé do São Francisco fica distante de Aracaju 203km e há duas maneiras de chegar até lá: pelo acesso da cidade de Itabaiana ou por Nossa Senhora das Dores. As rodovias estão recuperadas e há boa sinalização. Por Itabaiana, segue-se pela BR 235 até o sentido Ribeirópolis/ Nossa Senhora da Glória. De Glória percorre-se a SE 206, passa-se por Monte Alegre de Sergipe e Poço Redondo até chegar a Canindé.

Por Nossa Senhora das Dores o sentido é pela BR 101/ Norte até chegar ao acesso da Vale. Segue-se pela denominada Rota do Sertão até Nossa Senhora da Glória. Não tem errada. Há também transportes alternativos partindo do centro da cidade de Aracaju ou da rodoviária Gov. José Rolemberg Leite.

Piranhas fica a 12km de Canindé. Chegando na cidade sergipana, pega-se a SE 208, atravessa a ponte da CHESF e chega a Alagoas. A estrada é sinalizada e se percorre somente 12 km até Piranhas. Antes da entrada da cidade histórica existe a entrada que dá acesso ao Mirante Secular.
Entremontes a dica é partir da cidade de Piranhas (AL). O transporte mais utilizado é sem pestanejar o fluvial, realizado em canoas e lanchas do tipo gaiolas ou mesmo os catamarãs. A beira-rio os “lancheiros” negociam os passeios que podem ser integrado com outros pontos da Rota do Cangaço. O rodoviário também pode ser feito por estrada não pavimentada, o que não é tão interessante para quem vai a passeio.

Eco Parque do Cangaço – Partindo de Aracaju (SE), pode-se ir pela BR 235, sentido Itabaiana/ Nossa Senhora da Glória/ Canindé (Rota do Sertão). Depois de Itabaiana, segue-se pela SE 414, SE 212, e por último SE 208. Chegando na cidade de Poço Redondo, percorre-se um pouco mais no sentido Canindé do São Francisco e verá do lado direito placas indicando a estrada de piçarra que levará ao Centro de Convivência do Monumento Natural da Grota do Angico ou ao Eco Parque do Cangaço. São 13km de estrada de piçarra.

Um outro modal para se chegar ao Eco Parque é o fluvial, partindo de embarcações da cidade de Piranhas. É bem mais prático e rápido.

Dicas de viagem

  • Para chegar ao restaurante Caboclo D´Água o visitante terá que passar por uma guarita que dá acesso a represa de Xingó, na portaria da usina que acessa a rodovia entre Canindé e Piranhas.
  • Caso queira, também poderá agendar a trilha da Grota do Angico a partir do Monumento Natural através dos telefones dos técnicos da área ambiental. Consulte dicas clicando aqui.
  • Na região também há locais de trilhas ecológicas e monumentos com formações rupestres e pequenas cachoeiras. A Fazenda Mundo Novo é uma delas.
  • feira livre de Canindé do São Francisco, aos sábados, também não deve ser desprezada. É um bom atrativo para quem gosta de cultura popular, personagens locais e viver o cotidiano da região.
  • Caso vá até o Eco Parque do Cangaço por conta própria, paga-se um valor pela entrada no estabelecimento. Também poderá ser agendada a visita através do telefone (79) 9 9869-6428.

Gastroterapia

Pitú

O pitu, o surubim ou piaba seca são algumas das iguarias bastantes apreciadas na culinária são-franciscana. O pitu é um camarão graúdo servido ensopado ou ao refogado. Em determinadas regiões e períodos do ano, a pesca é proibida. O surubim, peixe apreciado no coco ou assado em filé também pode ser degustado. Mas quem combinada com uma bebida geladinha à beira-rio é a piabinha bem crocante, servida como tira-gosto ou entradinha.

Linguiça de bode do Flor de Cacto’s
Piabinha crocante: iguaria são-franciscana

Nos restaurantes e bares à beira do Velho Chico a pedida é consultar o cardápio e não titubear se tiver algum desses atrativos gastronômicos. Vale a pena degusta-los. A carne de sol e de bode também são bem característicos desse pedacinho do Nordeste.

Fotos: Silvio Oliveira
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