Sabedoria de árvore

Sabedoria de árvore é saber outonar. Disse um certo Carlos, que as amendoeiras sabem outonar como nenhuma outra árvore. Planta tem tempo certo para tudo e cada coisa, tem calendário próprio, irrefreável. Planta me ensinou a ter paciência, tempo de espera: orquídea tem flor uma vez por ano. Cuida, cuida o ano todo, para ter florada na primavera. Esperar novembro pro ar da cidade ficar prenhe da doçura dos cajus que nascem no meio da rua.

Plantar é espera, é matar ansiedade, é tempo de lenta caminhada: esperar semente morrer, brotar, crescer, arvorescer e frutificar. Não se apressa planta e não se espera o que ela não pode dar, porque de bananeira, nunca vem caju. Aguardada sabedoria de não forçar a natureza. Planta prende raiz na terra e se lança pro alto: para cima e avante, vai-se. O solo não é prisão, é força de crescer para ter folhas livres balançando no alto, curvando no vento. Planta é puro ensinamento pra quem observa sem pressa.

Pressa. Esses dias, apressei. Queria comer abacate em meados de novembro. Aqui em casa, com frequência, compramos frutas direto do produtor, um nosso amigo, camponês e artista (mas essa já é outra história). “Serginho, quero abacates!!”, imperativa, querendo já o abacateiro inteiro só pra mim. Ele explicou com tranquilidade e falta de pressa, abacates só pro final de dezembro. Guardei a vontade no estômago e maldisse o vagar do abacateiro. Fui lá no sítio semana passada e ele, como que para provar a verdade de suas palavras, me apontou o abacateiro cheio de filhotinhos de abacate, crescendo calmamente para o final do mês.

Ato contínuo, lembrei do xamã Eduardo Viveiros de Castro tuintando outro dia “Compre qualquer fruta em qualquer mês, qualquer lugar. Não terá nenhum gosto. Mas come-se a ideia, goza-se o poder de compra. Onimpotência”. Me senti a própria (on)impotente: querendo abacates em novembro. Até se pode achar abacates nesta época, é certo, mas com certeza, não serão os abacates do sítio de Serginho, porque ele, camponês sábio, sabe esperar o tempo das plantas.

Fiquei constrangida da minha contradição. Vida e meia falando disso e daquilo, agrotóxico e transgênico, e esperando abacates em novembro. Planta tem tempo e calendário, indústria de alimentos tem pressa e Progresso. Planta hectares e hectares de uma mesma planta, vem bicho e come – porque já não tem quem coma o bicho, porque tudo virou hectares e hectares de uma mesma planta. Modifica a semente, recria a memória da planta, desfaz o calendário ancestral criado depois de milênios de evolução. Muda a programação de cada um das células, para o mal e para o mal (não há bem nessa equação). Criam sementes que nem sementes podem ser chamadas. Já nascem mortas, germinam e não geram descendência, são mutantes de laboratório, agindo de alguma maneira nos nossos corpos doentes.

E para matar os bichos que matam as plantas: veneno. Litros e litros e litros de veneno. E para ter abacates em novembro, litros e litros e litros de adubos sintéticos, pós mágicos e que tais. Nosso alimento: sementes de laboratório, venenos e adubos de petróleo. Tudo isso desaguando nas veias abertas da Terra inteira. Sangue que corre para o mar. Morre peixe, morre rio, morre terra, morre camponesa e camponês. Morre tudo, mas não morrem as plantas lustrosas que dão manga e caju em junho.

“Goza-se o poder da compra”. Eu posso comprar minhas graviolas em julho, se me apraz comê-las em julho. Mas que prazer há em comer graviolas sem gosto de graviola? Todas as frutas brilhando o ano inteiro as gôndolas de supermercado. Sabe, acaso, qual o mês em que nascem as seriguelas? Todos temos tanta pressa nesses tempos pós-modernos, que inventaram apressar também a paciência das plantas. E agora, Carlos? Amendoeira já não sabe outonar. Calendário de planta se perdeu.

Progresso é uma semente terminator regada com roundup. (Eu ainda tenho ansiedade de abacate batidinho com cacau e mel, mas é ansiedade de dezembro chegar logo no final. Sem pressa, seguindo o calendário ancestral das plantas, aprendendo paciência.)

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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