Comunidade de Coroca (PA): tartaruga e trançados do tucumanzeiro

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Tranquilidade à beira do Arapiuns

Quando a chalana aporta em terra firme, Seu Orimar Pereira, um ribeirinho de sorriso largo, logo se encarrega de dar às boas-vindas. Convida a adentrar na atmosfera da comunidade de Coroca, vilarejo de pouco mais de 70 habitantes localizado na margem esquerda do rio Arapiuns. A comunidade tem visto o dia a dia se transformar desde meados de 2000, quando se iniciou os primeiros passos para hoje ser reconhecida como uma das principais localidades de turismo de base comunitária ou de turismo de visitação do Baixo Tapajós.
Esse reconhecimento não é por acaso. Avistagem de tartarugas, trilha em meio à floresta para ver o meliponário (criação de abelha e produção de mel), os famosos artesanatos da palha do tucumanzeiro são as principais atrações. Tudo isso desenhado por uma floresta propícia ao contato com árvores nativas e cânticos de pássaros. O passeio fica completo com o gostinho do pirarucu assado com farofa paraense e uma descansada no redário da comunidade. Quer mais? Que tal banhar-se nas águas mornas da Ponta Grande, uma ilhota que aparece na vazante do rio Arapiuns? O tom de despedida do dia é posto pelo Rei Sol, num ritmo bem “no stress”.

O primeiro show da natureza do roteiro partindo de Santarém é o encontro do rio Tapajós com o Amazonas em que as águas não se misturam. A chalana chega perto da linha divisória, oportunizando ao condutor da embarcação, Gledson Oliveira, a explicação de que a causa dessa divisão está ligada a diferença de densidade, velocidade e temperatura das águas dos dois rios.

A embarcação desliza, ora pelas águas esverdeadas do Tapajós, ora mais amarronzada do Amazonas, até chegar ao rio Arapiuns, considerado um dos mais bonitos da região. O mundão de água se faz presente até o horizonte se perder de vista. De longe, o primeiro ponto que atrai o olhar é a Ponta do Icuxi. Desta vez o roteiro não permitiu desembarcar na ilhota, mas percebi que a beleza do local é só um cartão de visita do que ainda está por vir.

A dica é esquecer o relógio e deixar o tempo passar ao modo amazônico. A atmosfera ribeirinha toma conta e vejo que as 3h de viagem soam como se fosse um desejo de que o dia não acabe. Passei por um outro lugar cheio de beleza, desta vez, a Ponta do Toronó.

Mudança da cor da água e terra firme no desembarque na comunidade, uma agradável surpresa

Depois de mais uma hora dali, a chalana aporta em terra firme. Percebe-se a tranquilidade e a paz do vilarejo logo que se tem os pés fincandos na areia clara da praia. Seu Orimar Pereira nos recebe e convida a adentrar na atmosfera da gente ribeirinha do Arapiuns. Do lado direito, ver-se o redário e espreguiçadeiras ao logo da entrada. Jardins bem cuidados e de forma sustentável dão um colorido especial. Barracões com tetos de palhas traçadas ao estilo amazônico completam o centro social da comunidade em conjunto com o restaurante comunitário. O tempo parece passar rápido demais, tamanha a vontade de desbravar cada vez mais aquele pedacinho do Norte.

A dica é esquecer as horas e entrar no clima amazônico


Pelas trilhas da economia sustentável

Criação de abelha Jandaíra produz mel que abastece a região

A primeira trilha me levou a conhecer um dos projetos empreendidos pela comunidade e que tem o apoio do Programa de Assentamento Agroextrativista Gleba Lago Grande desde 2006: o meliponário com abelhas da espécie Jandaira, conhecidas por coletarem o néctar das árvores mais altas como a Copaíba e Andiroba e produzirem um mel de gosto suave.

A poucos metros dali fica o Lago Coroca, onde um mirante flutuante aguarda os turistas para seguir até o meio. O lago parece não ser tão habitado, mas quando Seu Orimar joga um tipo de alimento, faz surgir centenas de tartarugas da Amazônia (Podocnemis expansa) criadas em cativeiros desde 1999, a fim de que a comunidade deixasse práticas degradantes ao meio ambiente e passasse a cultivar atividades mais sustentáveis, como a engorda de peixes tambaquis e das próprias tartarugas.

De início, pensou-se que tanto os peixes quanto os quelônios seriam criados para degustação no próprio restaurante. Porém, percebeu-se que a visitação de turistas para avistagem das tartarugas agregou valor ao roteiro. Hoje consomem-se somente os tambaquis. Sorte nossa porque avistar as tartarugas é uma experiência bem interessante.

Tartarugas chegam perto dos visitantes
Centenas delas chegam perto do flutuante

Conta Seu Orimar que foram soltos no lago cerca de 3.500 animais e por conta de uma cheia ocorrida na localidade, a maioria das tartarugas terminou retornando ao habitat natural.

Hoje são cerca de 500 tartarugas, com previsão de duplicar a quantidade até o final do ano, tamanho a quantidade de filhotes que tem nascido. Por lei, 10% dos animais que nascem são devolvidos ao habitat, ou seja, é uma forma de povoar e ao mesmo tempo turistar de forma sustentável. A comunidade também está comprometida com o reflorestamento e as plantações consorciadas, uma forma de se plantar no sistema mais possível do natural, utilizando as denominadas coberturas florestais em andares (árvores menores abaixo, médias e em tamanho mais altos acima)

Os trançados do Arapiuns

Coroca Traçados do Arapiuns
Cestarias são um dos traçados mais apreciados

Antes de apreciar um bom prato local, das mãos habilidosas de 20 ribeirinhas da Coroca a palha do tucumanzeiro ganha formas em cestas, descansos de pratos, luminárias, objetos de cozinhas, mandalas, bolsas, porta-copos, entre outros. A Galeria Aripó – Trançados do Arapiuns é um dos locais mais visitados da comunidade por serem expostos ali as famosas cestarias paraenses com o traçado cheio de simbologias indígenas e sofisticados grafismos.

Os ribeirinhos colhem a palha da palmeira de forma sustentável em áreas definidas por alternâncias de manejo. Ao colhê-la, são retirados os espinhos e a palha é exposta ao sol para secar. Depois do processo, entra em cena a ancestralidade, possivelmente dos índios Arapiuuns, para ganhar formas em trançados.

Orimar explica os corantes utilizados na palha do tucumã
Orimar explica os corantes utilizados na palha do tucumã

É interessante notar a sabedoria milenar no tingimento da palha, processo que utiliza corantes naturais coletados na própria floresta: a capiranga dá tonalidades escuras; o crajirú e urucum, as tonalidades avermelhadas e alaranjadas; o jenipapo produz a cor esverdeada; o açafrão, amarelada, e a esverdeada, consegue-se através da junção do açafrão com jenipapo.

Além de reunir os artesãos da Coroca, a Associação Trançados do Arapiuns também agrega moradores de Nova Pedreira, Vista Alegre, mas também há representações dos trançados em Vila Brasil, Vila São Miguel, Tucumã, Vila Goreth e Nova Sociedade.

E não é somente na galeria que os trançados são comercializados. Dona Elenira, moradora da Vila São Miguel, herdou o arte do ofício passado de geração pela avó dela. Todos os dias, ela rema o barco cheio de brasilidade e expõe suas criações nas ilhotas do Arapiuns. Órfão de pai e mãe, a tia perdeu a visão, ela teve que aprender o trançado para sustentar a família e quem ganha também? Nós com a arte impecável da fibra transformada em peças únicas.

Dona Elenita e sua brasilidade é gente do Baixo Tapajós
Dona Elenira e sua brasilidade é gente do Baixo Tapajós

O passeio se completa com um banho nas águas mornas da Ponta Grande do Arapiuns, umas das ilhotas mais procuradas por sua extensão, bucolismo e beleza. Que tal continuar sem pensar nas horas? Bom mesmo é se o tempo desse uma pausa, mas como não é possível, a embarcação zarpa e o fim do dia se completa com a energia do pôr do sol sobe o Tapajós.

Ponta Grande do Arapiuns
Ponta Grande do Arapiuns
Águas mornas e claras da Ponta Grande é um convide ao banho
Águas mornas e claras da Ponta Grande é um convite ao relaxamento

Na Bagagem

O topônimo Coroca vem de um pássaro conhecido na região, o Anu-Coroca. Há também uma outra informação mais popular de que Coroca era o apelido do primeiro morador da comunidade.

Como chegar? As embarcações saem de Santarém e de Alter do Chão. Há desde pequenas lanchas de até 10 pessoas, até chalanas que comportam até 40 pessoas. Em Santarém, os passeios podem ser adquiridos no Terminal Turístico, na avenida Tapajós, orla da cidade. Em Alter, consulte a Associação de Turismo Fluvial (Atufa). São cerca de 4h de Santarém, e 3h30 de Alter.

Jardins bem cuidado e sustentáveis
Jardins bem cuidado e sustentáveis próximos do restaurante comunitário

Quanto custa e qual a duração do passeio? Custa, em média, R$ 260 por pessoa incluindo a trilha e o almoço na comunidade, geralmente servido dois tipos de peixe da região ou galinhada, acompanhada de arroz e salada, além de um suco. Dura no total das 9h às 19h, já que o sol se põe por volta das 18h45 na temporada do verão amazônico. O almoço custa R$ 30. A trilha com condutor local para ver as tartarugas, o meliponário e a galeria custa R$ 20.

Qual a melhor época para ir? O Pará é considerado o Estado brasileiro de maior concentração de praias fluviais do mundo. As temperaturas costumam ser altas durante todo o ano e faz calor. Quanto a melhor época, as ilhotas estão à vista no período de final de julho a dezembro, considerado o verão amazônico.

Pôr do Sol no Arapiuns
Pôr do sol se despende do dia com gostinho de querer voltar

Há possibilidade de se hospedar na localidade? Há duas pousadas e o denominado restaurante redário, além de duas famílias que recebem visitantes nas próprias casas. O valor da hospedagem nas pousadas gira, em média, R$ 280 e R$ 170, para duas pessoas, e R$ 60 no redário com café da manhã. Veja mais onde se hospedar no blog Pé na Estrada do jornalista Altier Molin.

Gastroterapia

Surubim e pirarucu fritos rivalizam com um ensopado de galinha de capoeira, ambos criados na comunidade. O peixe ganha uma fina camada crocante e sai acompanhado de arroz, macarrão bem ao estilo caseiro. A galinha não fica para traz e tentar tomar o protagonismo. Confesso que vence o pirarucu com um gosto suave e poucas espinhas.

*Dúvidas do roteiro enviar mensagem, entra no Instagram @silviotonomundo

Fotos: Silvio Oliveira

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