TORNE-SE O MELHOR NO QUE FOR MELHOR PARA VOCÊ

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“A espécie de felicidade de que preciso não é fazer o que quero, mas não fazer o que não quero”.

Jean Jacques Rousseau:

Hoje escrevo para responder a alguns questionamentos feitos por um jovem acadêmico de direito, num breve diálogo que tivemos. Depois de pacientemente escutá-lo, por algum tempo, pedi para que lesse esta coluna, pois nela eu tentaria dizer algo sobre o assunto e, mesmo dentro das minhas limitações, quem sabe, deixaria algumas respostas, que talvez, pudessem interessar.

Durante o nosso curto período de conversa, pude observar a sua grande preocupação com o futuro, sobretudo, com a expectativa de ser operador do direito. Na verdade, ele demonstrou estar extremamente pessimista com o que o aguardava. Chegou mesmo a afirmar que pensava muito em mudar de curso, fazer outra coisa. Não especificou.

Não me contive e perguntei.
– Por quê?  Embora estivesse muito claro, mesmo assim, eu queria escutá-lo um pouco mais e isso somente seria possível se o fizesse, também, falar mais.  Ele acrescentou e respondeu, perguntando:

– Você já percebeu a quantidade de cursos de direito existentes na nossa cidade?  Hoje temos uma faculdade em cada esquina, “jogando”, a cada semestre, um número muito grande de advogados no mercado da advocacia. Atualmente qualquer um pode fazer um curso de direito, imagine a qualidade desses profissionais?

Fiquei espantado com a maneira daquele jovem pensar. Ele deveria se preocupar com sua efetiva qualificação, o nível da faculdade onde estudava, em ser o melhor entre todos e não se mostrar inconformado pelo que está acontecendo no meio e que, na verdade, nem é com ele, o que nem de longe poderia afetá-lo. O mundo é de todos. Basta que cada um vá sempre em frente e colha a sua parte.

Normalmente, estes rasgos de inconformismos se adéquam mais aos velhos – como eu, por exemplo – que, às vezes, sessentões, mas ainda “aborrecentes”, cultuam um saudosismo meio “masoquista” e acreditam, talvez por inveja do presente, ter vivido no melhor dos tempos.

Bem, sabemos também que esta história é antiga e que, cá para nós, o melhor tempo é o agora. Porém ele só será o melhor se o tivermos construído, exatamente naquele saudoso e eternizado tempo que passou.

Até por isso, fico entristecido por perceber que, lamentavelmente, certos jovens sonham esse tipo derrotista de sonhar. O que dirão para seus filhos quando acordarem? Já pensou o quão penoso será, lá na frente, nos seus presentes, a falta de um passado para elogiar?

Sobre a sua má vontade com o curso que está fazendo, creio que suas ponderações sobre a existência de uma avalanche de bacharéis inflacionando o mercado, excessivo quantidade de faculdades e a baixa qualidade do que pensa ser produzido nestas escolas,  –  serviram de apanágio para encobrir outros motivos condutores dessa maneira de se comportar. Certamente, o seu desencanto tem outras origens, pois as justificativas apresentadas não se sustentam por si mesmas para fazê-lo pensar de tal forma e a decidir, efetivamente, por outro caminho.

Com tais alegativas você busca, consciente ou inconscientemente, algo para justificar uma decisão, talvez já tomada. Só que esta justificativa você quer fazer a si próprio e busca, nos outros, um apoio. Desculpe, mas o meu aval você não terá. E não o terá porque um amigo não deve ajudar o outro a errar. Bem como porque a sua teoria está totalmente equivocada, se sua pretensão em mudar de curso estiver assentada nos argumentos por você apresentados.

Vejamos caso a caso:

Pelo que escutei, cheguei à seguinte conclusão: você afirma que:

1-  Existe uma grande quantidade de cursos de direito;
2-  Em toda esquina há uma faculdade;
3 – Todos os semestres são “jogados” – termo literal seu – no mercado uma grande quantidade de bacharéis;
4 – A qualidade dos profissionais, por causa dos motivos, por você apontados, só poderá ser muito baixa.

Amigo, que bom que existam tantos cursos e tantas faculdades. Não há nenhuma dúvida de que, quanto mais, melhor, pois é pela quantidade que se equilibra a demanda.

Gostaria de afirmar para o futuro colega, com toda a convicção e conhecimento de causa, que ruim mesmo é a falta: falta de escolas, de professores, de conteúdos, de livros, de bibliotecas e de educação… A falta é que faz falta e não a abundância. Que venham mais escolas, mais faculdades, mais cursos, mais bibliotecas…, é disso que a nossa nação está carente.

Ah! E a qualidade? Onde fica? Devo dizer que a busca é pela preparação, pois acredito que, somente com a quantidade, se faz possível a seletividade. O que nos leva a crer também que, quanto mais advogados houver, torna-se mais fácil escolher.

É tudo uma questão de demanda. Penso também e, sobretudo, que a solução dessa demanda está na iniciativa privada, pois, lamentavelmente, acabaram com o ensino público, e o pouco que restou, com raríssimas exceções, é incipiente e insuficiente para cumprir o papel a que se destina, com as escolas caindo aos pedaços, os professores ganhando misérias, uma estrutura destruída e mal gestada. Descasos que promovem a insegurança, a violências e o desestímulos para as classes docentes, discentes e a sociedade como um todo, pois é na família e na escola que mais se aprende, – ou deveria se aprender. Mas na iniciativa privada, quando o empresário, abre um curso, o faz para ganhar dinheiro, no que estão absolutamente corretos porque estão a desenvolver uma atividade comercial, e as atividades comerciais, todas elas têm como finalidade principal render dividendos. Porém, por isso mesmo, são regiamente fiscalizadas pelo Estado, pela sociedade e pelos consumidores, logo, se quiserem ganhar dinheiro têm que se amoldar a um sistema, ser os melhores em quantidade, qualidade e, sobretudo em preço, resultando, assim, em muita preocupação com a qualidade, senão o cliente cai fora e vai para o concorrente. Esta é a lei de mercado: “faça bem feito, com preço compatível, que você sempre terá cliente”. Os empresários se quiserem se manter no mercado, devem ficar sempre muito bem antenados, sob pena de, em pouco tempo, terem de ceder o seu lugar a outro, amargando sua exclusão, para não dizer ruína.

O mercado sim é muito seletivo e, somente os bons permanecem.

“Somente os bons permanecem”. Esta afirmativa serve também para advertir ao nobre futuro advogado que a fórmula, não tão secreta, dos grandes profissionais é esta: foco, boa vontade, atitude, humildade e honestidade com a profissão abraçada.

Eu contesto a afirmativa de que o problema com o aprendizado é somente por que uma escola é melhor ou pior do que a outra. Não é. O fato de uma escola ruim contribuir com o insucesso de um aluno pode até ser verdadeiro, mas não é tudo. Como estudante e professor, posso assegurar que a grande diferença quem faz é o aluno. Ouso até afirmar, com uma boa margem de segurança, que, nestes casos, não existem escolas ruins e sim alunos ruins. Sei, também, que tais alunos têm vários motivos para serem bons ou ruins como são. Aí, é outra história.

Prezado amigo, diante destas, certamente, não tão acertadas colocações, devo-lhe afirmar que qualquer que seja a profissão por você eleita, num futuro, próximo, haverá problemas, porém devo lembrar que você, como bom profissional que pretende ser, não deve, nem de longe, se preocupar com isso. Os fenômenos quantidade, qualidade e preço serão sempre determinantes. Faça o melhor possível, faça a sua parte e deixe a pré-ocupação com estas coisas para os outros. Eles que tentem dirimir essas questiúnculas, pois você deverá está acima delas porque você deverá fazer o que ama e sempre amar o que faz (não ligue para a redundância).

Agora, se de fato você já está decidido mudar, mude. Escolha exatamente aquilo que lhe permita sentir-se realizado, mais lhe agrada ou, com convicção, gostaria de fazer, pois, como disse Jean Jacques Rousseau:

“A espécie de felicidade de que preciso não é fazer o que quero, mas não fazer o que não quero”.

Realmente, deve ser muito duro fazer aquilo de que não gostamos. Porém, embora eu concorde plenamente com o que ele pronunciou, devo acrescentar que esta história de gostar ou não é relativa. Às vezes, você nem gosta de fazer uma coisa, porém, quando ela se faz útil e fácil de executar, a pessoa verifica que se enganou. O bicho não era tão feio como me pintaram. Você pode passar a amar uma coisa que, antes de conhecer, você abominava.

Essa assertiva me faz lembrar o que infelizmente já presenciei. Pessoas birrentas que, antes de experimentarem, julgam e declaram, sem o conhecimento da experimentação, que não aceitam, pois não gostam.
Lembramos aqui das crianças, dos adolescentes e jovens, bem como dos sessentões aborrecentes. Exemplos:

Um xenófobo:

– Viste o filme tal?
– É enlatado dos imperialistas ianques americanos?
– É sim, mas é muito bom.
– Não vi, não gostei, não quero ver e tenho raiva de quem viu.

Um marido com raiva da esposa:

– Pai, vem almoçar, a comida está tão boa.
– Foi sua mãe quem fez?
– Foi.
– Não quero, não comi e já não gostei.

Um revoltado sem causa:

– Viste a nova lei sobre tal matéria?
– É do governo?
– É claro, todas as leis emanam do legislativo ou do executivo.
– Eu não vi e não acato.
– Mas ela vai beneficiá-lo, homem!
– Abro mão desse benefício. Vem deste governo corrupto? Não quero.

Para finalizar, deixo uma opinião abalizada sobre o assunto na ideia do grande filosofo Friedrich Nietzsche:
“Aquele que faz o que gosta, não trabalha, brinca”.
No que um dos maiores palestrantes brasileiro, o psicólogo Waldez  Ludwig, aproveita para muito bem ilustrar e afirma:  “realmente, quem faz o que gosta não trabalha, brinca. Vocês já viram como se comportam os artistas que amam o que fazem. Já viu algum praticando algum tipo de hobby? Alguém conheceu ou conhece o hobby da Dercy Gonçalves? Do Paulo Autran?  Do Raul Cortêz? Que mesmo durante as seções de quimioterapia, saía do hospital para o palco. Como faz também Chico Anísio. Eles pouco tiram férias, não têm hobby, porque o que fazem dá prazer.

Dito isso, se você exerce uma atividade que, de fato, gosta. Se você acredita com toda a sua emoção e com toda a sua razão que aquilo é realmente o que você quer. Se você ama aquela atividade. Amigo, vá fundo, você é muito jovem, ainda há muito tempo para errar, aprender e acertar vá em frente, mude tudo, torne-se o melhor no que for melhor para você.  Seja feliz, pois, quem faz o que ama, não trabalha. Brinca.  E a vida, prezado amigo, se ainda não é, deveria ser, uma eterna brincadeira.

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