“Tres amarillitos em pleno océano azul”

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Resolvi me dar um presente nos meus sessenta anos completados no último dia dezessete. Não o quis comemorar com festas. Preferi viajar para a Argentina, aproveitando a valorização do Real. Assim, fui passá-lo em Bariloche, sem poder esquiar, porque nas vésperas da viagem, quando tudo já estava reservado e pago, um acidente doméstico me quebrou o dedo mínimo da mão direita. Mas, mesmo sem poder esquiar, fui ver a neve, curtir o frio, comer javali e cordeiro patagônico, tudo aquilo que achei de direito no meu aniversário de sessentão.

Antes, porém, de chegar a Bariloche, pernoitei em Buenos Aires no Hotel Broadway, na Avenida Corrientes, quase em frente ao famoso Obelisco da Avenida 9 de Julho, local por demais fotografado e visitado por aqueles que se dirigem à capital portenha.

Por atrasos de vôo, chegamos ao aeroporto de Ezeiza no final da tarde do domingo 15 de Julho, justamente no dia da partida final da Copa América entre o Brasil e a Argentina. E o centro de Buenos Aires estava pintado de azul e branco para o jogo.

Como estávamos com fome e queríamos algo rápido que nos permitisse jantar ligeiro e ficar distante da torcida durante o jogo, dirigimo-nos, Junior, Tereza e eu, para a Pizzaria Rey, já velha conhecida de outras viagens, e porque ali trabalha um garçom de nome Fernando que já me atendeu de outras vezes.

A pizzaria estava cheia de torcedores barulhentos; velhos e crianças, homens e mulheres, pintados de azul e branco, em roupas, chapéus e caras pintadas; tudo aquilo que temíamos encontrar. Não havia uma mesa vazia, exceto uma que ficava debaixo de um televisor, justamente porque dali não se podia ver o jogo.

Pedi uma pizza para os dois, e um bife de chorizzo com uma garrafa de Stella Artois, aquela cerveja que por aqui não existe, e é uma garrafona de um litro. Ao pedirmos a “cerveza”, Tereza disse ao garçom Fernando que era para comemorarmos a vitória do Brasil. Fernando, ou não entendeu, ou fez que não ouviu, mas demonstrou um misto de espanto, descrença e até um certo temor.

Na verdade o medo era nosso, afinal éramos “tres amarillitos en pleno océano azul”, isto é: três amarelinhos em pleno oceano azul. E três amarelinhos que não podiam confessar sua preferência, com receio de hostilidades ou vaias. Afinal, é muita ousadia três brasileiros se infiltrarem em plena torcida da Argentina, num local onde até a Televisão estava fazendo flashes ao vivo da euforia do ambiente.

Felizmente o nosso jantar estava já no fim quando as duas seleções entraram em campo. Foi um grito geral; “Ar-ren-ti-na! Ar-ren-ti-na! Ar-ren-ti-na!” E cantavam; “ámos ganar, Argentina!” Devo dizer também que após cada grito de Argentina, eu esboçava um Brasil, como aqueles ouvidos na Globo, num eco tímido só ouvido por nós três.

E isto nos ensejava medo de represálias, daí não pensar assistir ali ao jogo. De modo que vimos apenas o cantar dos hinos. O deles com muito fervor cívico, e o nosso com muito grito de Argentina, que nos soava “Arrentina.”

O que é preciso destacar é que o nosso hino nacional, por ser longo, cansa qualquer vaia. E, se os gritos de “Arrentina” sufocaram os primeiros acordes, quando chegou à segunda estrofe do “Pátria amada, idolatrada. Salve! Salve!” a vaia parou, e daí para frente o silêncio se fez. E eu comentei para os meus: – Este povo está com medo!

E não deu outra, como todo mundo sabe; o Brasil foi campeão de novo.

Mas, como já falei, saímos da pizzaria com a partida em 0x0. Paguei a despesa, baratíssima é bom dizer, por comparação com os nossos preços; uma pizza enorme que sobrou duas fatias, um bife de chorizzo com papas fritas, dois litros de cerveja, refrigerantes, tudo por $48,50 Pesos. É bom lembrar que na nossa moeda esta despesa não atingiria R$35,00. É bom lembrar também que o salário mínimo da Argentina está em $1.040,00 Pesos, ou seja, R$742,86. Como isto acontece não o sei. Não é à toa que o Presidente Kirchner vai eleger sua esposa Cristina como sua sucessora.

Mas, deixemos Cristina e voltemos à nossa vitória contra a Argentina.

No retorno da Pizzaria Rey, ao atravessarmos a Avenida 9 de Julho junto ao Obelisco, comprei um chapéu azul e branco, do modelo bobo de corte francês para Junior. Acredito que nesta hora o Brasil já devia estar ganhando. Pelo menos foi essa a notícia que recebi do funcionário do Broadway que já estava meio tristonho, quando ali chegamos.

O restante todo mundo já conhece; o Brasil venceu de 3×0, humilhando a Argentina, inclusive com gol contra de Ayala.

No outro dia a crônica portenha, mas precisamente o jornal Olé estampava em fotos garrafais o dístico sepulcral: Q.E.P.D. (Que descansa na paz de Deus), junto de uma foto em que aparecem Ayala, El Pato, Heinze e Zanetti sofrendo.

O articulista Marcelo Guerrero, de Maracaibo externava sua decepção: “Ao contrário de ocasiões anteriores, a Argentina não mostrou segurança de manejo: um pouco pelo vento (?), outro pela própria imprecisão e bastante pela precisão do rival. O time de Basile não se assemelhou com o das cinco partidas anteriores. Subestimou o Brasil? Não, a história o desaconselha e vários de nosso plantel a conhecem. (grifo nosso). Pesou a marca de favorito? Talvez. Faltou experiência? Com exceção de Messi e Tevez, eles são todos grandes, inclusive estão acostumados a estas situações. Há jogadores que baixam seu rendimento nestas instâncias? Sim, sobram antecedentes. Nós viemos com as pretensões do máximo e partimos com uma medalha que nada nos agrada mostrar.”

E assim foi muito bom curtir a vitória brasileira na Argentina.

 

E mais; a todos que me perguntavam o que acontecera com a minha mão enfaixada eu

respondia: – Foi treinando para fazer gol na Argentina!

 

 

 

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