Uma Aracaju por trás da publicidade e dos postais

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Às vésperas do aniversário de Aracaju não poderia deixar de fazer referência na coluna desta semana à cidade que me acolheu. Sou apenas mais um baiano recebido de forma calorosa por uma gente trabalhadora, de sorriso sincero e com muita vontade de viver.

Mas não vou aqui rasgar elogios à cidade nem ao povo de Aracaju. Isso os órgãos públicos e empresas já se ocupam em fazer durante esses dias. Quero falar de uma Aracaju que, muitas vezes, não é vista na televisão. Uma Aracaju distinta da estampada nos cartões postais. Uma Aracaju que também existe, que é real.

Quero falar da Aracaju musical. Da Aracaju que não aproveita a sua diversidade e efervescência de músicos e bandas locais. Da Aracaju que esquece Plástico Lunar, Forró de Mala e Cuia, Naurêa, Deilson Pessoa, Ato Libertário, Elvis Boamorte e tantos outros trabalhadores culturais da terra. Da Aracaju que ainda prefere importar os velhos grupos de axé da Bahia. Da Aracaju que despreza os seus artistas e opta realizar sua festa oficial de aniversário com bandas de outras cidades.

Quero falar da Aracaju audiovisual. Da Aracaju que não valoriza “Do outro lado do rio”, “Xandrilá”, “Aracaju em Movimento”, “Mais um Dia”. Da Aracaju que não apóia a sua produção e realização audiovisual independente. Da Aracaju que não investe no potencial do Núcleo de Produção Digital. Da Aracaju que não tem uma sala pública de exibição e vive refém das salas de cinema do Cinemark.

Quero falar da Aracaju festiva. Da Aracaju que abandona e, aos poucos, faz desaparecer as suas festas tradicionais de rua, principalmente no carnaval. Da Aracaju que investe rios de dinheiro numa festa privada, como o Pré-Caju, que reflete a desigualdade social – deixando pobres de um lado e ricos de outro – e enche os bolsos de empresários.

Quero falar da Aracaju ambiental. Da Aracaju que vai destruindo suas áreas verdes para construção de prédios cada vez mais altos. Da Aracaju que, da forma como encaminha o seu Plano Diretor, põe em risco manguezais e outras áreas ambientais em nome do benefício das construtoras.

Quero falar da Aracaju urbana. Da Aracaju que, de um lado, tem inúmeros apartamentos ociosos, favorecendo a especulação imobiliária e, de outro lado, nega o direito fundamental à moradia a cidadãos do Coqueiral, Santa Maria, Olaria, Pantanal e tantas outras comunidades e bairros.

Quero falar do trânsito de Aracaju. Do trânsito que espreme os poucos ônibus que circulam. Do trânsito que, a cada dia, está repleto de carros com apenas uma pessoa dentro. Do trânsito que alimenta e reflete a cultura da impaciência dos condutores.

Quero falar do transporte público de Aracaju. Do transporte caro, precário. Do transporte que não garante os direitos básicos do cidadão, mas que serve apenas para aumentar o lucro dos empresários.

Quero falar da educação pública de Aracaju. Da educação pública em que os professores e as professoras não são valorizados. Da educação pública que, recentemente, teve a gestão democrática extinta. Da educação pública que não paga sequer o piso salarial dos seus educadores.

Quero falar da acessibilidade de Aracaju. Da acessibilidade que não é garantida nos principais prédios públicos. Da acessibilidade que é negada diariamente às pessoas com deficiência física, nos ônibus, praças, semáforos e principais avenidas.

Quero falar das mulheres de Aracaju. Das mulheres que têm os seus direitos negados no mundo do trabalho. Das mulheres que são violentadas física e psicologicamente por maridos e patrões. Das mulheres que são assediadas nas ruas e nos seus empregos.

Quero falar dos negros de Aracaju. Dos negros que são praticamente invisíveis. Dos negros, como Leidison Reis dos Santos, que, apenas pela cor da pele, são facilmente identificados como bandidos e, assim, assassinados.

Quero falar dos homossexuais de Aracaju. Dos homossexuais que são vítimas diárias de ofensas, agressões e espancamentos. Dos gays e lésbicas que são mortos apenas por amar pessoas do mesmo sexo. Dos travestis e transexuais que são assassinados.

Quero falar das crianças de Aracaju. Das crianças que estão nos sinais, nas feiras, nos ônibus. Das crianças que, ao trabalhar, têm sua infância roubada e ficam suscetíveis a terem outros direitos violados.

Quero falar dos jovens de Aracaju. Dos jovens que carecem de políticas que estimulem e valorizem suas capacidades criativas e suas inteligências. Dos jovens que são criminalizados pela Polícia Militar e pelos meios de comunicação.

Enfim, na passagem de 158 anos da capital sergipana, mais que comemorar ou dar parabéns, quero falar da Aracaju que não está na publicidade oficial da Prefeitura. Quero falar da Aracaju que só tem qualidade de vida para alguns, para poucos.

Mas sei que nessa Aracaju vive um povo consciente, trabalhador, lutador e que, em pouco tempo, dará respostas para transformar essa Aracaju que temos.

Vejo isso em cada mobilização do Movimento Não Pago. Ouço isso nas batidas e canções dos artistas e músicos que quebraram o silêncio e resolveram mandar o recado no “Manifesta – A arte abraça Aracaju”. Percebo isso nos produtores e realizadores que afirmam que “Existe Cinema em Sergipe” e, por isso, querem transformar o NPD. Presencio isso na organização e motivação dos jovens do hip hop, do skate, do grafite e das artes de rua. Isso está vivo na turma que organiza as bicicletadas.  É isso o que motiva grupos e entidades de direitos das mulheres, negros e homossexuais.

NOTA

Setransp foge. SMTT não faz o seu papel. E a tarifa ainda pode aumentar

Não fosse a participação do Movimento Não Pago, a sessão especial sobre o transporte púbico na Câmara de Vereadores teria sido vergonhosa. Os empresários não apareceram, não quiseram debater, demonstrando, mais uma vez, que não têm qualquer preocupação com os usuários do transporte público.

Por sua vez, o superintendente da SMTT, Nelson Felipe, fez um discurso que mais parecia preparado pelo Setransp, já que focou na apresentação dos itens e cálculos que determinam o valor da tarifa de ônibus. Uma explanação meramente técnica. Uma apresentação que não abordou o papel de fiscalização que o órgão público deve cumprir. Quando questionado sobre o investimento e a eficácia das fiscalizações, o superintendente da SMTT, por mais de uma vez, jogou toda a culpa na gestão municipal anterior.

Se o economista e representante do Movimento Não Pago, Demétrio Varjão, não tivesse exposto as irregularidades verificadas na planilha de custos do Setransp e denunciado os principais problemas do transporte público, vereadores e cidadãos que acompanharam a sessão especial, certamente, sairiam da Câmara sem qualquer informação nova.

Afinal, a sessão foi convocada, por requerimento do vereador Iran Barbosa (PT), para que diferentes visões sobre o valor da tarifa e sobre a qualidade do serviço fossem apresentadas, de forma que os parlamentares ampliassem suas informações sobre o transporte antes de definir suas posições sobre um possível reajuste da passagem de ônibus.

Ainda assim, depois do Setransp correr do debate público e da SMTT não falar sobre o papel que lhe cabe, jornais dos dias seguintes estampavam que a tarifa de ônibus pode, de fato, aumentar. Caso isso aconteça, será uma vergonha para a Prefeitura Municipal de Aracaju e um desrespeito aos cidadãos aracajuanos e aos espaços democráticos de debate.

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