VIVA A PRINCESA INFÂNCIA

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Tenho a impressão que a princesa Infância bebeu do elixir da juventude ou, seguindo a lógica de Peter Pan, um dos seus preferidos ídolos, se recusa a ficar adulta. Por mais que o corpo apresente sinais de que fora dominado pela majestade Velhice, permanece ela inalterada e jovial na Terra do Nunca, também conhecida como Reino da Memória. Parece até que a sapeca Infante já sabe, como dizem os sábios e adivinhos, que voltará reinar na Memória nos últimos anos de sua história, adocicando a dor que será causada por não mais fisicamente existir.

 

Não se pense que ela fica quietinha e aconchegada em algum lugar do Reino, esperando o dia em que de novo assumirá o controle do pedaço. Ao contrário, a todo tempo ela faz questão de demonstrar que o seu afastamento é apenas uma parada para curtir os prazeres da vida. E para demonstrar que não está brincando quando o assunto é curtição,  adora fazer rápidas incursões no império do poderoso rei Adulto, levando alegria ao seu semblante sisudo.

 

É só observar como ela desfila faceira na passarela da vida, serelepe, sem se importar com os olhares repressores dos escribas, sacerdotes, burocratas e cortesãs que gravitam em torno do palácio do Rei. O que é típico de toda criança, pois comandar, trabalhar, reciclar, organizar, gerir e produzir são algumas das palavras em que se recusa a pronunciar, muito menos estudar e aprender. É a Curumim quem nos motiva, mesmo quando vigiados pelos rígidos padrões fixados pelo rei Adulto, a mandar às favas todos os gestos solenes exigidos por suas normas e decretos protocolares.

 

Por isso, rebeldemente, nos sentimos autorizados a abraçar ruidosamente um velho amigo que o tempo reaproximou, pouco importando se o local do reencontro exige silêncio ou tratamento cerimonioso. Mesmo quando a cautela requer atenção redobrada, ela não nos permite esconder o olhar carinhoso para a primeira-amada que já não é a nossa acompanhada. Também é a principal responsável pelos nossos gostos, marejando os nossos olhos e encharcando a nossa boca de saudade e prazer sempre que um cheiro ou alguma situação é relembrado.

 

E olhe que são exóticas e infinitas às vezes em que a Infância conspira para mostrar que está viva e que quer, em conseqüência, que também estejamos vivos. Só para plantar um registro deste devaneio, quando eu como batata-doce lembro do nascimento de meu irmão Carlinhos. Não pelo formato do gostoso tubérculo nordestino, mas tão-somente porque, no importante dia em que ele veio ao mundo, estando quase sozinho em casa, curei a minha fome de criança comendo, pela primeira vez, a famosa “batata que faz o doce mais doce por ser o doce da batata-doce”. 

 

Não poderia se realmente diferente, pois no tempo em que reinou a princesinha  Infância as rivalidades duravam a eternidade de um dormir-e-acordar, mesmo porque as rixas e as agressões políticas eram coisas do Mundo dos Adultos, que não valia a pena antecipar. Sequer importava os nomes de família, o que fazia todos se sentirem iguais, mesmo porque todos são e devem ser absolutamente iguais. Pepeta, Bedel, Pebinha, Lú, Boris, Zé de Paul, Cabo Zé, Aprígio Fú, Birrião, Garranchinho, Judete, Caldinho, Fofinho, Furiba, Caçapava, Sivuca, Cafu, Zana, Samarone, dentre outros, eram os únicos títulos nobiliários usados para fixar a correta linguagem do bom relacionamento.

 

Certamente é por obra dela que em alguns momentos de nossa vida, mesmo quando na plenitude do reinado do soberano Adulto, temos a sensação de que o tempo de criança não passou. Este fenômeno encantador ocorre, por exemplo, quando reunimos nossos amigos e familiares em festa, fazendo com que as lembranças do passado se torne tão presente que parecem revividas integralmente.   Foi o que fizemos na semana que passou, quando parte considerável da minha família (Britto) elegeu a Infância como rainha de uma grande festa de confraternização.

 

O sanduíche de “sulame” de Baixinho e o sorvete-com-doce-de-leite-e-farinha-“láctea” de Seu Nelson foram novamente degustados, na mesma velocidade com que voltamos a disputar emocionantes campeonatos de botão ou pião. Fotografias antigas revigoraram nossos corpos, como se fossem modernas cirurgias plásticas. Novos parentes foram apresentados, fazendo com que percebêssemos que continuaremos vivos para todo o sempre.

 

O mês dezembro, certamente provocado pelo fato de agasalhar o Natal,  muito se aproxima do tempo em que a sapeca Infância encantou as nossas vidas. Não sem razão que está repleto de presentes, confraternizações, atos de solidariedade e revelações de amigos não tão secretos. E se assim é, vamos curtir o Natal que se aproxima, fazendo com que volte a reinar a nossa querida e pura Infância, principalmente ampliando o nosso leque de solidariedade.

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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