Um Comício, Um Sapato

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Ou de como o autor tem saudades dos comícios de antigamente, quando era fácil perder um pisante Não é saudosismo besta, não, mas uma das coisas que mais sinto saudades numa campanha político é o comício. Talvez porque, quando me despertei para a vida – e para o jornalismo, em paralelo – não era tempo de política se não tivesse comício. Era o tempo de comícios gigantes, daqueles de botar transporte gratuito para o povão dos bairros descer para o centro de cidade e acompanhar a manifestação. Fim de campanha que se prezasse tinha que ter um comício monstro no centro da cidade. Mesmo que o candidato não valesse grande coisa em termos de votos, o comício tinha que ser na cidade. Lembro-me de comícios memoráveis assistidos na praça Fausto Cardoso, na época o ponto de convergência de toda e qualquer manifestação artística, cultural e – porque não dizê-lo? – política. Interessante era o modelo seguido. Lançamento de candidato ou convenções partidárias tinham que ser realizadas ou no Cinema Rio Branco ou no vetusto Instituto Histórico, sob o olhar crítico do sempre lembrado Epiphânio Dória. Leandro Maciel, Luiz Garcia, Seixas Dória – os governadores eleitos antes do golpe militar de 1964 – passaram pelo crivo do povo na rua, descendo para a cidade, sob o batucar dos tamancos ou a ginga das morenas de bairros distantes, em longas (até depois do joelho) saias rodadas. Não tinha essa história de falar rapidinho, como hoje, coisa de dois ou três minutos. Orador bem sabia prender a platéia, falando horas seguidas. Macedo (o líder do PTB,Francisco de Araújo Macedo) falava pelos cotovelos, mas numa oratória fluente e carregada de emoção. Macedo intitulava-se o líder dos operários, porque o PTB era o partido de Getúlio, “o pai dos pobres”. Não raro Macedo entrava em rota de colisão com personalidades da terra – e a todos eles respondia no comício. Que começava cedo, por volta das 7 horas da noite, e ia até depois das 22 horas. O comício que certamente mais me marcou foi o do candidato da UDN à Presidência da República. Jânio já havia feito um nome como governador de São Paulo e ao adotar uma vassoura como um símbolo de sua campanha, pôs num canto do ringue o candidato da situação (leia-se Juscelino Kubitschek), o Marechal Henrique Teixeira Lott, que, como militar, adotou a espada como símbolo. Nada mais anti-povo do que esta simbologia – afinal, nos anos JK o País vivia aos sobressaltos com as tentativas de golpe organizada pelos próprios militares. Logo no início da campanha, os caciques da UDN escolheram como vice de Jânio um político nordestino – nada menos que o sergipano Leandro Maciel – justamente para atrair os votos da região. Não era bem isso o que Jânio queria – e tanto fez que logo, logo descartou-se deste candidato incômodo. Por isso, e por causa de outras trapalhadas de Jânio, o comício de sua candidatura a Presidência foi aguardado com ansiedade, até impaciência. O comício começou cedo, aí por volta das 16 horas. Duas horas depois, a praça estava apinhada. Não cabia mais ninguém. Não havia lugar sequer para mais uma alma. Tinha gente do alto de prédios – eram poucos à época –, pendurados nas árvores, agarrado em qualquer coisa que desse sustentação. Fui ao comício acompanhando a molecada da rua. Não que, já àquela época, o discurso difuso de Jânio me atraísse – o que gostava nele, em verdade, era aquela figura que parecia um palhaço. Magro e alto, bigodudo, de cabelos caindo pelos ombros, a sua figura me lembrava uma vassoura com uma peruca. Jânio era Jânio, de fato e só ao pisar no palanque já deixou a multidão ao delírio. Quando começou a falar a praça inteira prostou-se em silêncio. O sotaque de paulista de interior parecia encantar a platéia de sergipanos. Falou por meia hora. Disse muita coisa, falou mal do seu opositor, dos usineiros de açúcar, das pressões internacionais sobre as nossas riquezas, mas em nenhum momento tocou no “affair” Leandro Maciel – que, por sinal, estava no palanque. As palmas, os gritos de “muito bem” ao final do discurso, foram apoteóticos. Mal Jânio ameaçou descer do palanque e uma multidão correu ao seu encontro para carrega-lo nos ombros. Foi aí que eu me dei mal. Postado bem a frente do palanque, já longe dos companheiros de rua, levei um baita empurrão de alguém afoito em chegar logo aonde estava Jânio. No que sofri o empurrão, um outro alguém pisou no meu pé, e, sem querer, claro, “segurou” meu sapato. O empurrão conduziu-me para trás – e, quando dei por mim, estava bem distante do palanque – e sem um pé do sapato. Não adiantava procurar o sapato que faltava. Não ia encontrar de jeito nenhum. Só havia uma saída, e foi a que segui: voltei para casa, “mancando” por falta de um pé de sapato. Dei um jeito de entrar em casa sem ninguém ver. Tirei o outro pé do sapato e o escondi. No outro dia, foi cedo para o colégio, o Tobias Barreto, ali na rua Pacatuba. Passei pela Fausto Cardoso com atenção redobrada. Agachei diante do palanque para ver se, lá no fundo, não estaria o bendito sapato. Não estava. Havia uma sujeira enorme na Fausto Cardoso, principalmente de cédulas eleitorais (naquela época, cada candidato era votado através de cédulas individuais).Mas tinha também muita camisa rasgada, muita sombrinha e guarda-chuva largado pelo chão. Nunca encontrei o sapato. Também nunca contei a minha mãe o que aconteceu com ele. Lembro-me dela, coitado, procurando pelo “sapato quase novo” que desapareceu de casa. Pois é, já não se fazem comícios para se perder sapatos, não é mesmo… Por Ivan Valença ivan@infonet.com.br.

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