Especial Folclore: A riqueza dos grupos de Sergipe

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São Gonçalo é um dos muitos grupos de Laranjeiras
Dança, música, literatura, comida, roupas, artesanato. Será que tudo isso tem a ver com o folclore? Tem sim, já que o termo, tão proclamado durante este mês, nasceu da junção de duas palavras em inglês: folk (povo) mais lore (conhecimento). Para homenagear apenas uma das manifestações folclóricas, os inúmeros grupos espalhados por Sergipe, o Portal InfoNet preparou uma série, que começa hoje e termina sábado, dia 27.

 

São Gonçalo, Reisado, Bacamarteiro, Samba de Pareia. O que são? Como nasceram? O que festejam? Será que estes e outros grupos podem ser considerados a manifestação folclórica mais marcante de Sergipe? Quem responde é a antropóloga e professora aposentada da Universidade Federal de Sergipe, Beatriz Góis Dantas.

 

“Somos, muitas vezes, levados a ver o folclore como as danças e os folguedos. Mas o folclore é algo muito mais abrangente às concepções de mundo, formas de artesanato, de trabalho, de confecção de instrumentos, de linguagem. Porém, as danças e os folguedos têm mais visibilidade. Talvez por terem a indumentária, a coreografia, a música. Reúnem uma série de elementos. E nesse ponto Sergipe é rico”, opina Beatriz.

 

Antes de falar como surgiram ou da importância dos mesmos, é bom explicar que os grupos podem ser divididos em folclóricos e pára-folclóricos. A diretora de Cultura da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo da cidade de Laranjeiras, Isaura Oliveira, explica que os grupos folclóricos nasceram espontaneamente, com a colonização de cidades, e foram se perpetuando ao longo dos anos.

 

“Os pára-folclóricos são criados por instituições ou pessoas para retomar grupos antigos que foram desativados”, acrescenta. E neste contexto se enquadram os grupos mirins e de idosos. Também há uma grande diferença entre danças e folguedos. De acordo com a professora, historiadora e atual coordenadora do Centro de Criatividade, Aglaé Fontes, “alguns folguedos vieram de autos ou representações que, surgidas da Idade Média, foram se transformando com o tempo”.

 

Aglaé Fontes diferencia folguedos de danças
Em seu livro “Danças e Folguedos”, lançado em 2003, Aglaé esclarece que os folguedos, geralmente, têm personagens definidos, trajes apropriados, cantos e instrumentos, como o Reisado, o São Gonçalo e a Chegança. Já os cantos e danças também vieram de rituais que se constituem formas de representações teatrais, mas, às vezes, foram perdendo o contexto dramático, a exemplo do Samba de Coco e Batucadas.

 

HERANÇA – Não importa se é uma dança ou um folguedo. O fato é que os dois tipos de manifestações folclóricas apresentam aspectos medievais trazidos pelos portugueses, lembram rituais africanos ou ainda preservam algumas tradições indígenas. O aspecto religioso é outra característica bastante forte nos grupos.

 

A missa das Taieiras, em Laranjeiras, está ligada à Festa de Reis, que acontece em janeiro em louvor à Nossa do Rosário e São Benedito. Nesse grupo, a influência negra direciona a forma de louvar, dançar e festejar. No Guerreiro, apesar da forte presença portuguesa, percebe-se o batuque indígena e a figura do índio Peri.

 

Reisado faz parte do ciclo natalino
O Reisado, folguedo de influência portuguesa, está ligado ao Ciclo Natalino. Na Chegança, cristãos e mouros se enfrentam, numa “guerra” feita de cantos e embaixadas, na qual os mouros são vencidos e a fé cristã é exaltada.

 

“As danças do nosso folclore, sejam elas simples ou folguedos, apresentam uma integração tão grande que podemos até identificar uma ou mais influências que se cruzaram, ganhando uma nova forma”, ressalta Aglaé Fontes.

 

Nas danças de influência africana a presença das palmas, sapateados, batuques e requebros são evidentes. Quando a influência é indígena, são comuns a formação em círculos, as palmas, o canto nasalado e a melodia repetitiva.

 

A DATA – A palavra folclore foi criada por William John Thoms (1803-1885), um pesquisador da cultura européia que em 22 de agosto de 1846 publicou um artigo intitulado “Folk-lore”. No Brasil, com a reforma ortográfica de 1934, foi eliminada a letra k e a palavra perdeu também o hífen. Só em 1965, através de um decreto federal, o Brasil passou a comemorar o Dia do Folclore.

 

Por Janaina Cruz

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