Homem Desnorteado

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            Na estrada de tempos em tempos, o homem desnorteado passeia. Seus olhos virtuais virtualizam sua efêmera realidade; sua boca cibernética restringe seu linguajar; seu corpo plástico resiste, até certo ponto, ao sol escaldante das novas auroras, que os galos já não cantam, e os pássaros, em cantos sufocados pela euforia do dia-a-dia, teimam em anunciar, com suas gargantas roucas, revestidas de cinza.
           Mal nasce o sol e já expira. O dia celeremente se dissolve no ocaso e a noite fria se cria.

           Cria-se também a cada passada do tempo uma noite nas micro-mega-máquinas de pensamentos humanos. E os tempos se fazem na noite das idéias audaciosas, que transformam os homens em bichos vulneráveis aos novos intentos daquelas poderosas máquinas. Inventos que brotam das flores maquinizadas e eufóricas, que tomam o espaço, este já tão restrito aos homens, que se amontoam.

           Eis que o homem continua o passeio, e faminto se alimenta dos pensamentos que transformara, em tempos não tão remotos, no sal do caos cotidiano e, agora, sedento, embebeda-se com um líquido destilado dos tempos pretéritos e arrota novas idéias, que vapora num ar rarefeito repleto de agonias.

           Ao passar por um vilarejo, de casas de taipa, o homem vislumbra a humanidade, que se prostra dolente nos umbrais das humildes janelas e grita, um grito de dor e loucura. Casas-cárcere de humanidade enferma, contaminadas pelo vírus da Violência, que assola os tempos num surto epidêmico. Vírus que ao serem hospedados por bactérias insanas fazem com que os tempos se descontrolem e marchem céleres a um confronto cruento com a humanidade entretida.

          O homem assombrado imagina, na sua comodidade contemporânea…

          A humanidade ao ser violentada geme e verte lágrimas de sangue. E anêmica, ainda encontra forças para metamorfosear-se, rapidamente, assim como metamorfoseiam os homens, que a constituem, feito borboletas.

          Agora, homem e humanidade transfigurados caminham para onde não se sabe, todavia caminham, na esperança de um dia chegarem a algum lugar seguro.

                                                         Gustavo Aragão Cardoso

    

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