Marika Gidali, fundadora do Ballet Stagium, fala ao Portal Infonet

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Marika Gidali, diretora artística e fundadora do Ballet Stagium
Na noite de ontem, 10, o Ballet Stagium e o Quinteto Violado apresentaram o espetáculo comemorativo dos 35 anos de existência dos dois grupos. ‘Mané Gostoso’ traz a cultura popular nordestina, representada pelas canções de Luiz Gonzaga, numa leitura singular feita pelos dois grupos, que desde a década de 70 fazem história na cultura brasileira. O Portal Infonet entrevistou Marika Gidali, diretora artística e fundadora do Ballet Stagium, que falou sobre o espetáculo, o grupo e o futuro da dança no Brasil.

Portal Infonet – Como surgiu a idéia de unificar a comemoração dos 35 anos dos dois grupos?

Marika Gidali – Essa é uma idéia que surgiu na década de 80. A gente se encontrou e percebeu uma coisa muito parecida de ‘filosofia’. Os dois tem o mesmo tempo de estrada e uma cultura de resistência, vinda do tempo da ditadura. Eles têm a música popular sendo passada para o erudito, e nós também temos um resgate da cultura regional, principalmente a nordestina. Houve uma primeira tentativa de juntar os dois na década de 80, que não deu certo por vários motivos. E deu certo agora. Estava na hora, afinal tudo tem sua hora certa.

Infonet – Qual a principal diferença do espetáculo “Mané Gostoso” para os outros espetáculos do Stagium?

MG  – O Stagium é um processo de evolução. Nenhum espetáculo tem a ver com o outro. Cada obra é uma obra que vai te empurrando para a evolução. Esse espetáculo tem música ao vivo e a inspiração é a filosofia que a gente procura desenvolver numa coerência e dignidade enorme. A próxima a gente não sabe qual vai ser. Mas forçosamente, tudo que estamos fazendo agora vai nos empurrar para o próximo trabalho.

Infonet – Qual a linha desse espetáculo?

MG – É um ballet contemporâneo. O Décio Otero fez o roteiro musical, apresentou para o Toninho, diretor musical, e o Quinteto fez os arranjos. Ao mesmo tempo estávamos coreografando em São Paulo. Foi um trabalho a quatro mãos, porque era coreografia, limpeza e direção ao mesmo tempo. Tudo ficou pronto junto. E eles estavam também ensaiando em Recife. Na hora que juntamos estava tudo pronto. Na verdade em três ensaios conseguimos integrar os dois grupos. Existe uma energia muito grande. A química que foi formada é muito boa, porque Luiz Gonzaga, Quinteto e Ballet Stagium têm uma coisa muito forte. 

Infonet – Como está a formação do Ballet Stagium?

MG – Bem, obrigada. Continuando na resistência, na luta. Cheio de pedras no meio do caminho, que nós empurramos para os lados, e vamos avançando. O Brasil é um pouco complicado para cultura, mas está bem melhor do que em 71. Naquela época não existia nada. Hoje nós temos patrocinadores bons, que apóiam o grupo, mas, mais focados nos projetos sociais. O cultural sofre um pouco. Eu acho isso uma loucura, porque o lado cultural é que alavanca tudo. Sem isso não daria para fazer nada. Mas está indo bem. Nós estamos com 14 bailarinos. Dos bailarinos que estão vindo do projeto das crianças, já há três na companhia. Então a gente está conseguindo os primeiros resultados, parta mostrar a importância da dança na formação da criança. Do futuro cidadão, como diriam por aí. É interessante, porque em 71 o Ballet Stagium já fazia trabalho social, uma vez que nasce na ditadura e começa a fazer trabalhos de base projetados na vida real, a vida inteira nós fizemos social. Nós só o continuamos. Claro que com mais atitude hoje porque há um apoio para isso, então é mais fácil de encarar.

Infonet – O trabalho iniciado pelo Stagium na década de 70 levando a cultura para populações carentes reflete isso?

MG – Foi um momento muito importante. Era um trabalho base. Levando a cultura para um pessoal que nem tinha idéia disso. Nem tinha oportunidade de participar. Nós já estávamos fazendo isso em 74. Eu tenho a impressão de que a gente plantou muito e estamos colhendo um pouco agora. E essa coisa de viajar o Brasil inteiro, desde 72, faz com que nós vejamos o desenvolvimento de cada espaço. Naquela época havia escolas de ballet. Hoje nós vemos grupos de ballet. Eu acho que a gente conseguiu muita coisa. Porque antes havia um corpo de baile no Rio de Janeiro, e só. Talvez algum movimento na Bahia. E hoje você tem grupos fortes no Brasil inteiro. Que acreditaram que é possível fazer a dança. E que é necessário fincar o pé no Brasil para que os outros não pisoteiem mais do que já pisotearam. Então eu acho da maior importância o bailarino brasileiro acreditar no seu espaço e desenvolver seu trabalho aqui, e ir daqui pra fora. Não ter a necessidade de ir lá fora para realizar.

Infonet – Como é a preparação dos bailarinos?

MG – Os bailarinos são profissionais. Cada um vem de um lugar, desde o Sul até Manaus. E eles já vêm prontos, logicamente moldados à filosofia do Ballet Stagium. Mas tecnicamente eles vêm prontos. E os outros nós vamos moldando nós mesmos. É um trabalho de formatação filosófica, porque a parte técnica eles têm que ter. Não dá tempo de juntar 14 pessoas e sair dançando. Eles têm que ter uma formação clássica e contemporânea.

Infonet – E a preparação diária?

MG: Temos ensaios diários, das 10h às 15h. Aulas de clássico e contemporâneo. E os espetáculos.

Infonet – O Stagium sempre teve uma marca de desafios. Qual foi o principal desafio desse espetáculo?

MG – Realizar o espetáculo. (risos) Conseguir colocar no palco. Porque ao invés de uma companhia, são duas. O Stagium e o Quinteto Violado. Não a parte artística, mas a parte logística, que é mais complicada. São 26 pessoas em vez das 14. O maior desafio eu acho que é a sustentação desse trem. A parte artística flui que é uma maravilha.

Infonet – Qual a parte do espetáculo que você mais gosta?

MG – Todo ele. Fico comovida com o Assum Preto, com Asa Branca. Fico comovida de poder dizer que a gente está fazendo o que a gente gosta. Mas no total o espetáculo me emociona, o tempo inteiro.  

Infonet – Como você vê no futuro da dança brasileira?

MG – Eu acho que as pessoas têm que acordar um pouquinho e parar de competir. Porque enquanto competição não leva à nada. Nós estamos superlotados de festivais competitivos, que é muito ruim porque bloqueia o andamento do trabalho. Eu acho que para você ir para frente deve-se ter acreditar numa arte, como a dança, que não permite competições. Não é esporte, é arte. Então temos uma grande pedra no meio do caminho, que são os festivais competitivos. Está bloqueando demais a desenvoltura. Por outro lado, há as companhias que enxergam um caminho mais amplo e desafiante. Nesse meio nós conseguimos levar a dança para frente.

Infonet – Quais são os grupos no Brasil que você destaca hoje?

MG – Tem muita gente fazendo ótimos trabalhos. Eu não gosto de citar nomes porque a gente acaba sendo injusta com vários outros. Mas cada estado tem uma força e gente forte. Aqui temos a Lu Spinelli que faz um trabalho há tantos anos, e está aí lutando. Vale a pena tirar o chapéu. Cada estado tem pelo menos um grupo que vai abrindo os caminhos, e passa para frente.

Infonet – Qual a principal idéia que esse espetáculo traz?

MG – Como não ser estrangeiro na sua própria terra. É a mais importante. Mostrar que você tem riquezas, origens, raízes e força para levar a cultura brasileira, sem ser xenófobo. É simplesmente falar português, ao invés de falar inglês ou russo. Tudo isso é tradição, e a gente respeita muito. O Ballet Russo é uma coisa maravilhosa. Cada lugar faz sua coisa maravilhosa sem copiar ninguém. Porque a gente tem que ficar copiando? Acho que esse é o caminho, e fale para o Universo. Não fique olhando somente para o seu próprio umbigo. 

Por Ben-Hur Correia e Carla Sousa

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