“Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come”

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– Não é possível! Bateu o motor do carro, desçamos para que possamos procurar ajuda. – Bradou preocupado o motorista.

– E agora, o que vamos fazer? Estamos perdidos neste lugar inóspito.

A noite escarafunchava o estradão, o ar eram só coaxar de sapos, sussurros rasgados de corujas insones e o cricrilar estridente dos grilos inquietos.  A lua com sua serelepe meninice escondia-se por traz das árvores, que, ensombriadas pela cor escura da noite que se fazia majestosa, delineavam a paisagem. A atmosfera do lugar assustava, mas fora de fundamental importância para se buscar uma saída. Naquele trecho da rodovia não havia sequer um telefone público ou uma luz que nos sinalizasse.

– Temos que voltar à cidade. Fica há alguns quilômetros daqui – sugeriu Andrezza ainda receosa pelo que estava ocorrendo.

– Não podemos ficar na estrada a noite inteira, corremos o risco de ser abordados por salteadores. Este trecho é muito perigoso. – Alertou Ricardo, namorado de Andrezza há 6 anos, cingindo o braço pelo pescoço da sua companheira.

– Estou cansada. Este espetáculo de Nova Jerusalém é belíssimo, mas é altamente cansativo. Preciso descansar, preciso recompor as minhas energias. – reclamou Carla, namorada do motorista.

– Mas não temos muito o que fazer. – Retrucou Maurício – Precisamos esperar que algum anjo caia do céu para nos trazer alguma solução. – Preocupando-se – Não podemos deixar o carro aqui, entregue ao acaso. 

– Alguém aqui tem algum conhecimento sobre mecânica de automóveis?

– Hum hum – todos retrucaram, balançando suas cabeças num sinal negativo.

– Isso é uma vergonha. – Resmungou Maurício.

– E você sabe trocar ao menos o pneu de um carro? Todos os outros indagaram em coro, revelando impaciência com a reação que Maurício tivera.

O silêncio aborrecido se intrometeu na conversa dos cinco jovens inquietos pela insegurança e ansiedade que os tomavam. E dominou o ambiente por alguns minutos. Quando menos esperavam foram surpreendidos por um sinal luminoso que intercalava as cores vermelha e azul, freneticamente. Era uma viatura que trazia dois policiais. Finalmente, um sinal de vidas. Duas jovens se enfiaram no meio da estrada e gritaram e pularam eufóricas numa tentativa de serem ouvidas e notadas. Enquanto isso os três homens, que sentados estavam no acostamento e que lá permaneceram acomodados, zombavam delas por acharem-nas ridículas. A viatura parou. Os policiais desceram e procuraram saber o que havia acontecido. Depois de esclarecidos os fatos, os policiais entraram em contato com o posto policial mais próximo via rádio e solicitaram um reboque para poderem rebocar o carro até o povoado mais próximo: Brejo. Lá, encontrariam um lugar melhor e mais seguro para pernoitar, segundo a sugestão de um dos seguranças. Esperaram por mais uma hora a chegada do reboque. Enfim, foram levados ao povoado. Ao chegarem lá, a cidade estava em polvorosa, lotada por haver uma festa.

– Detesto este tipo de música! Que horror! Isso não é forró. – manifestou-se Carla incomodada com o barulho ensurdecedor.

– Isso é qualquer coisa menos o nosso genuíno forró. – “filosofou” o motorista – Usurparam a essência da música nordestina, fizeram dela um misto de nada com coisa alguma. Deus me livre!

– Dói-me os tímpanos! Cai-me nos ouvido como uma martelada no dedo. Vou ficar surda desse jeito. – Reclamou Andrezza.

– Para onde vamos agora? – indagou Ricardo, ironizando – Nesta cidade, onde os nativos que aqui habitam mal cabem nela, pois me sinto como se entrasse numa passada e saísse noutra, de tão pequena que é. Ainda mais com a cidade toda mobilizada em uma festa.

– O que será que tanto festejam? Algum padroeiro, policial? – Perguntou Maurício, o “curioso”.

– Não. Festejam por festejar. Estamos no país do futebol, do carnaval, do jeitinho tão sabido. – Retrucou o guarda – Creio que festejam para que possam dormir com o adiantar das horas a fim de começarem um pouco mais tarde o expediente de amanhã. E vejam como todos estão felizes. – Argumentou meio irônico.

– Estão vendo aquele ali – disse o policial apontando para o outro lado da rua, indicando a mesa do Bar da Consumação – é o cônego Domingues, aquele outro que está perto dele é o líder da comunidade, sentado à mesa, localizada do lado esquerdo da deles está um dos homens mais temidos da região, o tal do Zezé malaquia. O que o bichinho te de miúdo, tem de valente. Todo os moradores do povoado o respeitam. 

– E não fazem nada para detê-lo? – perguntou uma das moças pasma.

– Não. Eles vivem em paz, não trocam farpas, parecem velhos amigos. – disse, tranqüilamente, um dos policiais.

– Sugiro a vocês um pernoite na pensão de dona Creuza. Ela costuma hospedar pessoas. – disse o tenente, atenciosamente.

– Agradecemos a atenção dos senhores, se não fossem vocês ainda estaríamos trancados naquela estrada escura. – falou Andrezza agradecida.

– O carro de vocês ficará no posto policial. Assim ele estará mais seguro. – disse o tenente.

– Obrigado, tenente. – agradeceu o motorista em nome de todos.

Foram os cinco até a pensão da dona Creuza. A dona da pousada, se é que se pode chamar aquilo de pousada, era enormemente gorda, vestia um vestidinho de chita, estava com a cabeleira toda despenteada, com seu sorriso meio amarelado, e recebeu todos dizendo que um quarto havia acabado de ser vago por três pessoas, “que tinham vindo lá das alagoas” e que poderia hospedá-los, mas para isso uma pessoa precisaria dormir no chão, pois no quarto só tinham quatro camas de solteiro.

– Qual o valor do pernoite, dona Creuza? – perguntou Carla interessada em ali se instalar.

– Custa trinta reais por cabeça. – Disse a senhora ofegante e abrutalhada, sendo taxativa.

– Trinta reais?! Um pernoite? Está os olhos da cara! – Disse Ricardo espantado por saber do preço.

– Não temos outra opção. Vamos ficar sim, dona Creuza. Onde fica o nosso quarto? – disse Andrezza decidida – Não Agüento mais este cansaço, preciso tomar um banho e dormir.

– Pois não.  O quarto de vocês é a primeira porta à direita, no final do corredor.

– E não tem chave? – perguntou Andrezza.

– Para que chave, a porta está semi-aberta. – Respondeu a senhora negligente.

O corredor parecia um funil a se estreitar à medida que se ia chegando ao seu final. O obsoleto e a poeira ali se ajeitavam por entre os escombros, que reunidos cuidadosamente emolduravam o lugar. O telhado sobreposto e cheio de falhas era canal para as gotas de frieza noturna que passavam afoitas por nós e se alojavam nas paredes, umidecendo-as. No fim do corredor lá estava uma porta semi-aberta como se chamando os forasteiros para o descanso tão desejado. Entraram, acenderam a luz e se espantaram ao ver a precariedade do lugar.

– Trinta reais por isso? É muita cara de pau! – Reclamou Andrezza.

As paredes pareciam salivar de tão úmidas. No canto superior esquerdo da parede que ficava em frente à porta, ali, onde uma nesga de escuro se apresentava; uma teia se revelava, talvez como uma prova de relações precárias que ali havia sido tecidas entre a aranha e o universo do quarto. As paredes, as camas, o ventilador, a luz, até mesmo a porta, todos estavam cansados. O cansaço acariciava o lugar e o rosto de quem lá estava também. Carla, namorada do motorista, foi ao banheiro tomar um banho para relaxar a fim de dormir mais tranqüila. Mas frustrou-se, pois a água teimosa não saía pelo chuveiro.

– Só nos faltava essa agora.  Quatro camas para cinco pessoas, um quarto miserável deste: úmido, com um ventilador quebrado, cheio de teias de aranha, que nos custou os olhos da cara e ainda mais sem água! Tenha santa paciência!

– Preciso ir ao banheiro. – disse Andrezza agoniada pelo sono – Tenho que tomar um banho.

Como não havia água no chuveiro, tentou abrir a torneira da pia. Lá, a água se lhe manifestou. E com a tampa da saboneteira tomou um banho como numa tentativa de espantar o cansaço. Assim fizeram todos os outros. E foram dormir cada um em seu devido lugar. Ao apagar a luz, um estrondo fortíssimo assustou o silêncio. Todos sobressaltados levantaram-se, quando acenderam a luz, viram que tinha sido a cama de Carlos que havia quebrado, e ele, coitado, lá ficou estatelado com os olhos arregalados como se querendo dizer: E agora? Só me resta ficar aqui mesmo até amanhecer. Ufa! E todos os outros logo depois também respiraram fundo numa tentativa de se acalmar: “Ufa! Libera nos domine!” (risadas)…

Por Gustavo Aragão    

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