Um flagrante da concentração de renda

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Dois municípios sergipanos, Canindé de São Francisco e Pirambu, estão entre os 40 maiores do Brasil em relação ao Produto Interno Bruto per capita. A divisão de toda a riqueza produzida por aqueles municípios com o total das respectivas populações pode dar a impressão de que cada um dos 21 mil canindeenses e dos 9 mil pirambuenses é privilegiado. A renda per capita de Canindé do São Francisco, a 11ª maior dentre todos os 5.560 municípios nacionais, era de R$ 68.717 no ano de 2002, segundo pesquisa sobre o PIB municipal divulgada pelo IBGE na semana passada. A per capita de Pirambu, exatamente a 40ª maior, era de R$ 39.207. A renda per capita do brasileiro naquele ano era de R$ 7.631 e a do nordestino, de R$ 3.694.

Mas, como se sabe, a estatística é cruel quando estabelece a riqueza individual. Na prática, o povo de Canindé e de Pirambu permanece pobre de “marré, marré, marré” (Marais, antigo bairro pobre de Paris), como sempre. Pobreza que, de resto, acomete a maioria dos sergipanos e dos nordestinos. A pesquisa do IBGE reforça o que já se sabe, o quão são grandes a concentração e a desigualdade de renda. O índice de desenvolvimento humano (IDH) de Canindé do São Francisco, de 0,580, era um dos piores do Brasil no ano 2000. Pirambu possuía IDH não muito melhor, de 0,652. O IDH mede renda per capita, expectativa de vida e educação, numa escala de zero a 1. Número considerado bom é sempre superior a 0,800. Em Sergipe, nenhum município havia atingido esse patamar naquele ano. Aracaju, o que estava em situação mais confortável, tinha 0,794.

No entanto, o ICMS que a Hidrelétrica de Xingó paga a Canindé e os royalties que a Petrobras paga a Pirambu anabolizaram os cofres desses municípios e dão a falsa impressão de que o povo tem renda per capita de cidade rica. E essa discrepância não acontece só em Sergipe. O município brasileiro com melhor PIB per capita em 2002 está na Bahia e se chama São Francisco do Conde, local onde funciona a Refinaria Landulpho Alves, a segunda maior do Brasil. Ali, a renda por cabeça era de estratosféricos R$ 273 mil. No entanto, a maioria dos 30 mil moradores do município baiano é também muito pobre. O IDH de lá é de 0,714.

Municípios nordestinos com maior PIB per capita

MUNICÍPIOS

PIB PER CAPITA (R$)

RANKING NACIONAL EM 1999

RANKING NACIONAL EM 2002

São Francisco do Conde (BA)

273.140

Canindé de São Francisco (SE)

68.717

3.712º

11º

Camaçari (BA)

47.643

17º

20º

Gumaré (RN)

43.445

36º

28º

Pirambu (SE)

39.207

1.992º

40º

Fonte: IBGE

 

Sergipe cresceu mais e melhor

Que Sergipe é o Estado a possuir a melhor renda per capita do Nordeste já se sabe, foi dito aqui nesta coluna. O PIB per capita estadual era de R$ 5.082 no ano 2002, ainda assim bem abaixo da renda per capita nacional. A novidade que o IBGE revela agora, com o detalhamento da pesquisa sobre o PIB, é que Sergipe foi que mais cresceu na região no triênio 1999-2002. Exatos 74,74% em três anos: saiu de um PIB bruto de R$ 5,4 bilhões para quase R$ 9,5 bilhões. Com isso, aconteceu o que já se previa: passou Alagoas em riqueza. O Estado vizinho possuía um PIB maior em 1999, de R$ 6,4 bilhões, mas cresceu apenas 36,36% e ficou atrás de Sergipe, com quase R$ 8,8 bilhões. O Estado mais pobre da região é o Piauí, com um PIB de R$ 6,1 bilhões.

Outro aspecto positivo para os sergipanos revelado pela pesquisa é que o interior está mais rico e o Estado está menos dependente da capital. No triênio pesquisado, Aracaju cresceu modestos 35,92%, elevando sua riqueza total para R$ 3,1 bilhões. Ou seja, em 2002 a capital gerava mais ou menos um terço de toda a riqueza estadual, quando três anos antes sua riqueza representava quase metade de tudo o que se produzia em Sergipe. Em Alagoas, por exemplo, Maceió, com um PIB de R$ 4 bilhões, um pouco superior ao de Aracaju, concentrava em 2002 metade de toda a riqueza do Estado.

No mesmo período de 1999-2002, a região Nordeste cresceu 42,49%, conseguindo um PIB total de quase R$ 182 bilhões. O Brasil, que possuía um PIB de R$ 974 bilhões em 1999, cresceu 38,21% e aumentou sua riqueza total para R$ 1 trilhão e 346 bilhões. No Nordeste, o Estado mais rico é a Bahia, que cresceu 47,72% no período, elevando o PIB para R$ 62 bilhões. Mas a capital mais rica é Recife, com um PIB de R$ 11 bilhões, contra R$ 10,9 bilhões de Salvador e R$ 9,9 bilhões de Fortaleza.

Crescimento do PIB dos Estados nordestinos

ESTADO

PIB EM 1999 (em R$ mil)

PIB EM 2002 (em R$ mil)

CRESCIMENTO %

Bahia

42.040.109

62.102.753

47,72

Pernambuco

26.021.483

36.510.039

40,30

Ceará

19.510.907

24.203.764

24,05

Paraíba

7.936.649

11.634.121

46,58

Rio Grande do Norte

7.647.781

11.633.212

52,11

Maranhão

7.918.384

11.419.649

44,21

Sergipe

5.434.375

9.496.187

74,74

Alagoas

6.429.095

8.767.282

36,36

Piauí

4.733.809

6.165.848

30,25

Nordeste

127.672.592

181.932.855

42,49

Brasil

973.845.470

1.346.027.825

38,21

Fonte: IBGE

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