A ENXADA OU A CANETA

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A ENXADA OU A CANETA

“Meus filhos, não tem saída, são vocês quem devem escolher: é a enxada ou caneta”.
Lídia Ximenes Melo

Claro que a frase não foi assim, tão bem construída, como a que está
acima transcrita. Mas a passagem, bem como a cena onde ela foi verbalizada, ficou para sempre gravadas na minha alma: era noite escura no Cantodoamaistempo, lugarejo perdido do mundo distando alguns quilômetros da cidade de Groaíras, no interior do Ceará. A luz mortiça de uma lamparina pendurada num cambito enfiado na parede de barro iluminava aquela cena inesquecível. Todos nós, da família, (com exceção do meu pai que havia migrado para o sul), sentados no chão de terra batida ouvíamos minha mãe, contar histórias enquanto, diligentemente, pedalava uma máquina de costura.
Ela não era e nem é uma mulher letrada. Por isso creio que a elocução
verbalizada deve ter sido mais ou menos assim: “meus fios é vocês que
escolhe é a enxada ou a caneta. Ou seja, ou vocês aprendem a ler e a escrever, ou vocês estudam ou irão continuar com a profissão do seu pai, que é trabalhar na roça com enxada,  foice ou machado na mão, sob o sol, a “russara” o mato e o calor. Vocês têm apenas estas duas saídas”.
Na verdade, existia outra possibilidade: a de migrar para o sul, (naquele
tempo e naquele lugar tudo era sul: Rio de Janeiro era sul, São Paulo era
sul e, até Brasília, era sul). Porém, a minha mãe era muito apegada aos
filhos e, na cabeça dela, esta era uma hipótese de que não gostava nem de
pensar: um filho seu viajar pra longe? De jeito nenhum: “enquanto eu puder costurar, plantar e criar uns bichinhos, meus filhos ficam comigo, onde come um comem três”, ela dizia sempre; sequer cogitava a infeliz ideia de um filho seu sair do seu raio de cuidado, imagina viajar para longe dela…!

Todavia, para tristeza da minha mãe, naquela mesma década de sessenta não houve escapatória, todos tivemos que nos retirar dali inclusive ela, minha mãe, e as crianças.
Meu pai já tinha ido, eu viajei em 1968 a minha irmã mais velha também já morava em São Paulo e, acabou que, todos tiveram que partir em retirada, fugindo da seca e da pobreza, da sede e da fome. Ela viajou para o Rio de Janeiro onde já estávamos eu e meu irmão Moésio e, de lá, foi para São Paulo, onde morava a minha irmã Cilene. Mas, naquela grande metrópole igualmente não ficou muito tempo, pois meu pai morava em Brasília e, foi pra lá que ela seguiu meses depois. Na Capital Federal ficou até o ano de 2012 quando se mudou para Fortaleza, onde mora.
Mas aquela frase nunca me saiu da cabeça: a caneta ou a enxada. Tenho que pensar na caneta, pois, mesmo pré-adolescente, já capinava usando a tal da enxada e, não gostava, fazia aquilo por obrigação, não tinha outra saída, embora tenha tentado várias atividades: compra e venda de galinhas, de ovos, de garrafas, ajudante em feira… Não, eu não gostava da enxada, da foice e nem do machado e, sobretudo, dos calos nas mãos, das coceiras pelo corpo e do calor do sol e a irritação do suor. Não. Eu não queria continuar trabalhando no mato. Trabalhar no mato era e, deve ser ainda, muito desconfortável, gerava e ainda gera, acredito muito desconforto na pele: sol, suor, poeira e“russara”.
“Russara” era como denominávamos a irritação, coceira e o desconforto
provocados pelo contato do mato com a pele. Era um tremendo mal estar.

Decidi, assim, que iria escolher a caneta. Eu tinha nove anos, foi a melhor decisão que tomei em minha vida. Não tinha a menor ideia de aonde isso iria me levar. Na verdade eu só tinha sido apresentado a uma caneta quando um parente meu veio do Rio de Janeiro e me mostrou uma. Na verdade não cheguei nem a tocar nela. Só vi na mão dele e, logo ele colocou no bolso pra ninguém pegar. Porém, só em me ver livre daqueles suplícios provocados por aqueles instrumentos de tortura, bem como do contato com o mato, já seria muito bom. Acreditei que nada seria pior que um machado, uma foice ou uma enxada dentro daquele matagal horroroso.

Aquelas palavras operaram em mim uma convicção inabalável: não quero
trabalhar no mato. Tenho que aprender a usar esta danada de caneta. Eu quero a caneta. Não quero mais a enxada…
Essa resolução, acertadamente tomada, trouxe-me ao que sou hoje. Sinto-me realizado e me realizando a cada dia, graças àquela bendita frase verbalizada pela minha amada mãe e, naturalmente, ao meu esforço em torná-la real.
Por outro lado, lamento muito que esta mesma lição que foi escutada por todos de minha família não tenha operado em todos eles o mesmo resultado. É sempre assim. Às vezes, escutamos e assimilamos outras não.
Lamentavelmente, na nossa vida, não aprendemos a ouvir os sinais. Mas, eles estão aí, quem tiver ouvidos pra ouvir que ouça quem tiver olhos pra ver que veja quem tiver boa vontade para fazer que faça, os sinais estão em toda parte e, certos sinais poderão levar você ao sucesso ou à derrocada.
Eles estão aí. Eles existem e devem ser valorizados e com boa vontade devem ser também, perseguidos, com vistas a sua efetiva concretização. PENSEM NISSO, ESCUTEM OS SINAIS.

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