A escola agredida

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O texto a seguir tem mais de 12 anos e, diante das agressões recorrentes na e à escola pública, vale ser relido. Para chamar a atenção de que todo o esforço que se faz contra a violência e em prol de uma educação de qualidade ainda é pouco.

“Criou-se no Brasil uma convicção tácita de que tudo que é público, não presta. Há um ponto de vista vesgo sobre o bem público, que invariavelmente é considerado como bem do Estado e não da sociedade. Essa é uma explicação que ajuda a entender porque a escola pública é tão agredida. Mas não justifica tudo. Talvez até ajude a compreender porque a escola particular, privada, esteja livre de ataques de vandalismo. Mas não explica o motivo que faz das escolas estaduais e municipais os objetos do bem comum mais vilipendiados.

O nível social dos usuários desses estabelecimentos é um elemento que interfere na relação de amor e ódio entre alunos e sua escola. A reconhecida rebeldia da adolescência nesse caso se agrava porque os jovens menos abastados, por razões evidentes, são mais susceptíveis à violência. Mas é estatístico que agentes externos são os causadores de mais de 80% da violência nas escolas públicas do País. A Universidade de Brasília (UnB) comprovou isso através da pesquisa Segurança nas Escolas Públicas, divulgada ano passado (1998). Ressalve-se que a pesquisa só mediu os casos de roubo/furto e vandalismo. Desvios de merenda escolar, penetração dos traficantes – que elegeram a escola, inclusive as particulares, como alvo preferencial – e ameaças a colegas, professores e até diretores, dentre outras vertentes da violência, não foram inferidos.

A pesquisa foi divulgada pelo Sindicato dos Trabalhadores na Educação com algum estardalhaço, porque detectou que Sergipe é o terceiro Estado onde as escolas públicas são mais agredidas: 68,8% delas teriam sofrido roubo ou vandalismo. Apesar do cotidiano revelar que a violência é um componente real nos estabelecimentos de ensino, o secretário de Educação, Luiz Antônio Barreto, considerou o número exagerado. Reconhecendo que a violência existe, ele lê os registros policiais como algo banal em relação ao sistema que gere – 400 escolas, 320 mil alunos, 20% da população sergipana.

No entanto, ele não escamoteia a violência e avalia que a escola é um meio desajustado porque reflete a sociedade. Palavras do secretário: ‘A questão da violência não permite uma leitura linear. A própria escola estimula a violência, porque é um prédio arrumado num bairro desarrumado. Ela tem comida, ela tem carros, ela é um monumento, é um decalque na paisagem. Isso mexe com o inconsciente dinâmico das populações’.

O ex-secretário de Educação do município de Aracaju, Jorge Carvalho, que administrava 95 escolas, vê com mais preocupação o problema. Quando estava no cargo, ele tomava conhecimento de duas ocorrências policiais graves a cada mês. Ele recorda que uma vez os delinqüentes prenderam o vigilante numa sala para poder furtar mais à vontade. Mas, na maioria das escolas, não há vigilantes. Jorge Carvalho, que hoje é secretário de Governo da Prefeitura, admite que o furto de sintonizadores de antena parabólica, microcomputadores, TVs, videocassete e outros equipamentos, além da merenda escolar, representam um ônus elevadíssimo para o município. Mas o custo de contratar vigilantes, que é a primeira reivindicação dos diretores, é ainda maior do que o da reposição do material roubado. Outra reação dos diretores é tentar resolver o problema pela ‘via da violência estatal’: colocar grades nas portas e janelas e elevar os muros.

Mas a prática comprova que o isolamento piora a relação da comunidade com a sua escola e a segurança interna e externa muito pouco contribuem para afastar a violência. A pesquisa da UnB identificou que todas as escolas sergipanas possuíam segurança interna e 50% delas tinham segurança externa – o que evidentemente não impediu sua vulnerabilidade. A solução, sugerem os pesquisadores, é aproximar a escola da comunidade. Com isso, os nossos secretários e diretores concordam. Mas como fazer essa aproximação? ‘Há que se fazer trabalho educativo de envolvimento da comunidade com a vida da escola’, sugere Jorge Carvalho, que implantou comitês comunitários que ajudam a gerir o estabelecimento escolar do bairro.

O pessoal da UnB sugere que melhor seria abrir a escola à comunidade, permitir a apropriação social desse espaço público. ‘É a carência de exercício da cidadania o que ameaça a escola pública brasileira’, conclui. Então, busquemos ampliar mais a possibilidade de transformação de todos os brasileiros em verdadeiros cidadãos. Mas num país de desigualdades abissais como o Brasil, vê-se que a solução para o problema demanda ainda muito tempo”.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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