A Saga de Jean Divinamor II

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Como dito anteriormente, o apelido Jean Patifaria incomodava bastante Jeansen do Divinamor que agora ingressara no Colégio Santo Ambrósio, mais conhecido como o Colégio dos Padres, dirigido por Monsenhor Gabriel Ponce de León da Vince, educador com mestrado na Universidade Gregoriana de Roma e Doutorado em Salamanca

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Monsenhor Gabriel era um homem de compleição maciça, mãos enormes de lenhador, voz aguda e forte de tenor e uma alma pura e santa.

Todos os alunos do Colégio dos Padres adoravam o Padre Gabriel como assim gostava de ser chamado.

 

Se o padre detinha a amizade do alunado, o Vice-Diretor, o Padre José Maria Vieira era mais temido que amado. Diferente no físico e na ação do Diretor, Padre Zemaria era baixinho, frágil e possuía uma voz fina e nasalada. Era, porém, um disciplinador rijo, que tinha por hábito castigar os alunos faltosos com frases latinas que expostas em quadro negro tinham que ser copiadas centenas de vezes nos cadernos. Era uma maneira de desaprender com Cícero, Salústio e Horácio, odiando-os eternamente.

 

Desnecessário dizer que Jeansenpater do Divinamor recebeu logo um destes castigos. Era para escrever cem vezes da Arte de Amar de Ovídio o verso: Nocte latent mendae, vitioque ignoscitur omni, Horaque formosam quamlibet illa facit. Consule de gemmis, de tincta murice lana, Consule de facie corporibusque diem.

 

Algo que traduzido livremente, o poeta admoestava os jovens contra os enganos de mau julgamento da beleza e da perfeição, sobretudo de mulheres, comparando-as com gemas preciosas e estofos de púrpuras, que para melhor avaliação, somente devem ser adquiridos à luz do dia, jamais no escuro. Algo que depois resultou, por mais fácil e preciso: “À noite todos os gatos são pardos”.

 

E Jeansenpater, embora fosse um “gato”, como se dizia então, nunca arranhara mulher alguma, feia ou bonita, à luz do dia ou na penumbra, nem se interessava por pérolas e rubis. Daí revoltar-se com os brocardos latinos copiados às centenas como penitência do Padre Zemaria.

 

Como comandara um quase motim, foi levado daquela vez à Diretoria para providências mais enérgicas.

 

Mas o Padre Diretor o perdoou e o Padre Zemaria, fulo da vida, se demitiu do colégio, depois largou a batina, foi ser gauche na vida, terminando por encontrar bela mulher que o fez ditoso como as pedras preciosas. Ou seja, por caminhos tortuosos, Jeansenpater lhe fizera um bem.

 

Mas voltando a Divinamor, como assim o chamava o Padre Diretor Gabriel Ponce de Leon da Vince, tinha vontade de ser padre, receber as ordens sacerdotais e a tonsura.

 

Chegara até a jurar ajoelhado e de mãos em prece nos pés do confessionário do Bispo, Dom Matias Tupinambá.

 

– Minha vontade, dizia ele, era ingressar num mosteiro abraçando os votos de pobreza e obediência.

 

Mas, como Jeansenpater e até como Faria, sua ação revelava que não era vocacionado, nem para a pobreza, muito menos para a obediência.

 

Na verdade os seus conceitos de pobreza e obediência eram outros. Pobreza era um estado de espírito. Ninguém nunca o vira andar em trapos e buscar mesa frugal. Pelo contrário, gostava de se trajar com etiquetas sofisticadas e caras, inimigo também das tais vestes ditas “genéricas”, isto é falsificadas. Assim era um verdadeiro mostruário da Nike, Adidas, Broksfield e Lacoste.

Por outro lado, com tal exibição de vestuário, tornara-se também num excelente conviva da burguesia. Virara um “arroz de festa”, como se dizia daqueles que presente se faziam, como convidado ou não, em todos os eventos sociais, seja enterro, casamento, valsa de debutante, desfile de cachorro ou batizado de boneca.

 

Freqüentando acepipes fartos e degustando manjares finos, aproveitava a oportunidade para falar dos seus sonhos, enquanto novo Francisco de Assis, desejando tudo largar para abraçar os votos de monge cartucho.

 

Dispensável dizer que isto lhe dava uma aura de pureza destacada, suscitando suspiros de madames e moçoilas que tudo faziam para afastá-lo da sua vocação.

 

A sociedade promíscua, mais por intenção que na ação, ainda pensava que o maior óbice na escolha da profissão do padre fosse a necessidade do homem apaziguar os abrasamentos do sexo.

 

Surgiram-lhe, então, até namoradas e apaixonadas, mas os seus namoros e as suas paqueras eram santas, com pouco fervor amoroso, abraços inocentes e beijos despretensiosos.

 

O namoro e o encontro eram oportunidades para reafirmar o seu firme desejo de assumir os votos como frei. Uma tortura para as meninas que se descabelavam apaixonadas sem lhe conseguir despertar o desejo e o erotismo.

 

Neste particular, ausência de desejo e paixão, ninguém ousava discutir-lhe a masculinidade. Só os bastantes linguarudos que ouviram uma história contada lá pras bandas da ladeira da montanha na Bahia, isto como acadêmico de Engenharia, em que um colega, livre pensador e pleno em ironia, o tinha enfiado numa fria.

 

Mas, antes da fria acontecer e antes de pensar em ingressar na política partidária, como iria acontecer muito tempo depois, Jeansenpater do Divinamor Faria só pensava em ser frade, de preferência com barba, hábito suarento e cordão pendurado na cintura.

 

E porque somente acreditava nisso, acabou um noivado de muitos anos viajando para um mosteiro onde iria participar de um retiro pregado por Frei Romualdo de Beira, lá no entorno de Vila Nova de Famalicão, bem próximo de Braga, região do Minho e de bom vinho em Portugal.

 

Interessado em outros caminhos e pensando em degustar vinhos de fina fermentação sacra, Jeansenpater, por inquieto e sempre comunicativo, logo tumultuou o retiro com o seu inconformismo.

 

– Bom seria, dizia ele, que este retiro se transformasse numa peregrinação a Santiago de Compostela.

 

Tentou primeiro convencer o velho Frei Romualdo, a ser o pregador do retiro, a liderar um grupo de peregrinos partindo de Braga em demanda de Santiago de Compostela.

 

O frade, porém, relutara bastante, assumir a empreitada. Vivia-se um inverno rigoroso, os caminhos estavam vazios, e era temerário seguir sem um melhor planejamento. Mas o nosso herói não se deu por vencido, para isso invocando o seu próprio conhecimento como leitor das experiências do escritor Paulo Coelho.

 

Debalde dizer que Jeansenpater já dominava todos os microfones e jornais do evento, liderando ousados e acomodados. Fizera amizade com o abade do mosteiro, e com este conseguira a relutante licença de Frei Romualdo e até todo o noviciado foi comboiado, estrada à fora em demanda de Santiago de Compostela.

 

Mas, iniciada a caminhada, o calo e o cansaço atingem qualquer um, sobretudo um tipo qual Jeansenpater do Divinamor Faria.

 

As horas se sucediam e a estrada se alongava extenuando forças e vontades. E Jeansenpater que nunca fora de muito esforço, sacrifício, silêncio e calmarias, sufocava-se nos hinos e orações, nas jaculatórias e antífonas, nos salmos e cantos, nas meditações e, sobretudo, no silêncio. Tudo lhe exauria o prosseguir.

 

Melhor seria agora, deixar o grupo seguir adiante. Já tivera o seu aprendizado contemplando os primeiros estropiados. Melhor seria ainda, se possível agora, voltar pra casa, construir uma mansão numa praia de águas amenas, apenas para receber os amigos, ingressar na política, quem o sabe, ser prefeito ou vereador, deputado e governador, ou um exímio enganador.

 

Tivera esta visão pouco enganosa nos primeiros passos do caminho de Santiago.

 

O que vale é a versão, não o fato, dissera para si próprio. Ninguém saberia como fato, a sua desistência, a sua deserção enquanto peregrino em terras Astúrias. Não é preciso ir até o fim no Caminho de Santiago. Aos que são tocados pela fé bastam alguns passos e a dor do primeiro calo. E foi com o primeiro calo que Jeansenpater, em visão maravilhosa por doidivina, sentiu que sua missão enquanto peregrino e andarilho estava acabada. À sua vida daria outro rumo, outra missão. Manteria o mesmo discurso ébrio de inconformismo, insurgência e impaciência. Ele era a chave que lhe abriria todas as portas, junto com uma postura de bom moço.

 

E assim, retornando na primeira Kombi confortável que passou, imaginou-se sem lamúrias, mas com indisfarçável humildade, relatando perante a cúria e nos bailinhos assustados do Iate Clube dos bons moços daquela época, os seus feitos enquanto estropiado peregrino.

 

A título de desculpa, despedira-se de frei Romualdo e seus liderados alegando que fora chamado com urgência para pacificar uma briga de peixeira em Canhoba, no qual se enfiara um seu cunhado, e toda a sua família.

 

Na verdade era tudo mentira; a briga, a peixeira, o cunhado e até o infausto passado em Canhoba que inocentemente virara noticiário fratricida nas rádios de León e Zamorra, em terra hispânica.

 

E assim, antes que os castelhanos vadeassem um mapa do Velho Chico de Canindé a Própria em busca do cenário da guerra de peixeiras, Divinamor Faria pegou uma punga num avião da Iberia Linhas Aérias, e voltou para sua terra natal.

 

Se não foi punga, foi por deportação, afinal a sua passagem era da TAP (Transportes Aéreos Portugueses), havia sido cancelada por não pagamento, e a Iberia o despachou de volta ao Brasil como imigrante clandestino. Tudo o que também seria convenientemente esquecido com um discurso vibrante de sobrepujante de soberania nacional.

 

Discurso que se somou ao importante relato de sua experiência como penitente peregrino, em jejum e descalço, massageando as contas do rosário em oração sem fim no Caminho de Santiago.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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