Aos 19 anos da morte de Nélson de Araújo

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                                                                                                     Marcos Cardoso

Dia 7 de abril próximo faz 19 anos da morte de um quase ilustre desconhecido sergipano, Nélson de Araújo, homem que dedicou toda sua vida à pesquisa e à literatura, e foi dos mais prolíficos e festejados escritores sergipanos modernos. Jornalista, tradutor, editor, teatrólogo, ensaísta, cronista, romancista, folclorista, incansável pesquisador da cultura popular e professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, Nélson Correia de Araújo nasceu em Capela, em 4 de setembro de 1926, e na década de 40 mudou-se para Salvador onde morreu sem conhecer a fama de mestre da ficção, como o chamou Jorge Amado num comentário sobre o livro “1951 – A Santa Inquisição na Bahia e outras estórias”, lançado pela Editora Nova Fronteira em 1991.

Avesso ao marketing, Nélson de Araújo trilhou o caminho oposto ao que é percorrido pelos fabricadores de best-sellers: foi festejado pela crítica, mas não atingiu o grande público. Isso também contribuiu para o desconhecimento que os conterrâneos têm da sua obra. Mas não só isso. Homem de sete fôlegos na produção literária, ele foi uma vítima do provincianismo. Foi embora de Aracaju para fugir do espírito atrasado daqui – coisa que sergipano não perdoa – e acabou sendo obrigado a submeter sua variada produção literária às modestas edições baianas, que só não são mais pobres do que as publicações de Sergipe.

Na Bahia, logo mostrou o gosto pela literatura. Sua versatilidade ficou comprovada em 1956, quando começou a trabalhar na Livraria Progresso Editora, onde iniciou a experiência editorial. Segundo contou na abertura do I Encontro de Editoração da Bahia, em 1990, ali ele foi “um factótum de revisor de provas, inicialmente, a revisor de originais”. Apaixonado pelo Recôncavo Baiano, ali publicou de tudo, inclusive textos de ficção, como as novelas “O Império do Divino visto pelos olhos de Pisa-Mansinho” e “Vida, paixão e morte republicana de Don Ramón Fernández y Fernández”, histórias que junto com “Aventuras de um caçador de arcas em terras, mas e sonho”, foram publicadas em 1987 pela Editora Ianamá sob o título de “Três novelas do povo baiano”.

Na novela “1951, a Santa Inquisição na Bahia e outras histórias”, Nélson de Araújo conta como foi a temporada, em Salvador, de “um emissário da Santa Sé, investido numa missão tão importante, qual a de escoimar a metade do mapa-múndi de pecados, heresias e crimes judaicos”. Em “Aventuras de um caçador de arcas em terra, mas e sonho”, ele faz uma literatura alegórica que mistura o realismo episódico com o realismo mágico. “O Império do Divino…” é uma novela contaminada pelo fato folclórico, que exprime “a maneira de ser mais profunda de um povo”, como dizia o escritor, sintetizando uma de suas paixões. Já em “Vida paixão e morte…”, bela história dos galegos espanhóis na Bahia, predomina a linguagem erudita.

Por essa versatilidade de dar a cada narrativa um tom apropriado, adequando forma e conteúdo, pelo seu vocabulário riquíssimo e balizado por pesquisas e observações pessoais, Nélson de Araújo foi saudado pela editora carioca como um dos membros da “tríade dos grandes autores baianos de ficção no momento”, junto com Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro.

Só que ele era sergipano e nunca negou suas origens, como bem lembra Jorge Amado, que não se arrisca a classificá-lo de romancista baiano. Outra diferença em relação aos dois baianos está na quantidade de leitores que consomem seus livros. Nélson de Araújo, conforme costumava dizer, era o autor “menos vendido do Brasil”.

Nélson de Araújo julgava que o drama era secundário na sua experiência literária. Ainda assim produziu pelo menos um texto que lhe agradava, “A Companhia das Índias”, cuja primeira publicação, em 1959, pela editora Progresso, foi visto “com olhos de excessiva generosidade pelo meu bom amigo Glauber Rocha”, segundo observava (a história começou a ser escrita em Aracaju em 1956). Efetivamente, na sua primeira forma, o texto inspirou Glauber e disso deixou o cineasta documento escrito e a confirmação em “Terra em Transe”.

Nélson de Araújo também adaptou e traduziu grande número de textos para o teatro. Dentre as traduções, gostava de Macbeth, de Shakepeare. Quatro de suas melhores criações foram reunidas num opúsculo editado pela Empresa Gráfica da Bahia em 1990: além de “A Companhia das Índias”, o ato único “Joana Angélica”, a adaptação de um conto dele próprio, “Um homem maduro para a morte”, e a história de “A guerra de Magali em São Jorge dos Ilhéus”, fundamentada num fato real ocorrido em 1907, quando nove homens, em uniformes do exército norte-americano, tentaram ocupar à mão armada a cidade de Ilhéus.

“Pequenos Mundos – Um panorama da cultura popular da Bahia”, Tomo I a III, é obra de referência definitiva sobre manifestações dramáticas da cultura popular e aponta o divórcio entre o moderno teatro do Brasil e as raízes populares. Mas a obra de maior fôlego e paciência de Nélson de Araújo é a rigorosa “História do Teatro” (1ª edição: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978; 2ª edição: Empresa Gráfica da Bahia, 1980), biografia básica em todas as universidades brasileiras.

Embora preferisse a ficção, Nélson de Araújo considerava romance/novela/conto e drama uma só coisa. “A essência é a mesma. Todos são subgêneros de um gênero maior, que é a arte de elaborar o episódio. Noutros termos: a arte de fazer bonequinhos andar na mente humana, seja através do desenho nos livros, no caso do romance, novela ou conto, seja através do desenho ao vivo de atores sobre o palco, no caso do teatro”.

Nélson de Araújo morreu pobre, morando numa ladeira muito íngreme, com vista para o Dique do Tororó, no dia 7 de abril de 1993. O corpo do mestre foi velado no palco do teatro da Escola de Teatro da UFBA, cercado dos muitos colegas, amigos e familiares baianos e sergipanos, dos cinco filhos e das três ex-mulheres.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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