Bastardos Inglórios

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O que nos escandaliza? O que nos deixa apreensivos e revoltados? O que mesmo nos ensandece a ponto de perdermos nosso dia e nos debulharmos em lágrimas? A criança assassinada com a caneta não mão enquanto estudava  ou o cara fuzilado pelo PM porque ele pensou que a furadeira, objeto do seu trabalho, era um fuzil? O que nos deixa estupefatos, indignados a ponto de cobrarmos o nosso direito e o do outro? Passamos todos os dias por situações e pessoas, como se elas não existissem para nós. Por que a a censura a um quadro que fuzila políticos, como este que está na Bienal de São Paulo com o título de Autorretratos  de Gil Vicente onde figuras célebres são assassinadas? Onde começa  mesmo o meu direito e onde a arte deve frear? O presidente da OAB paulista, esta entidade riquíssima da aristrocracia (ainda)do café, ousou pedir para retirar os quadros do pavilhão da bienal. Ligam-me para perguntar, se fossem homossexuais sendo assassinados, negros ou judeus se eu não me incomodaria.Claro que sim. E então ouço: pimenta no dos outros é refresco. Não é. É que a política é a insanidade da ausência de princípios. Não precisa ir tão longe para vermos o carandiru que virou o congresso nacional e o mercado de vendilhões que é o senado. Agora, nas eleições, não sei se o quadro de Gil Vicente é mais aterrador que aquilo que os políticos fazem para ganhar os cargos. Se eles nos matam a cada segundo, na nossa profunda inocência, por que o artista não pode simbolicamente fuzilá-los? Urge que nos revoltemos com o establishment, mesmo que ainda, façamos parte dele, movidos que somos, por condições de sobrevivência no serviço público ou à beira de um bureau garantido por concurso. O que nos move, no fundo, é que sempre podemos ser a próxima vítima. Sem ser ator de novela, sem ser neto do milionário Plinio Arruda Sampaio e mesmo sem ter sido entrevistado pela Gabi faz tudo, que a TV Cultura ainda a contrata, como se todos nós fôssemos ótários, burros, não existisse jornalista nem apresentador além dos estúdios da GNT. Ainda assim, o nosso fuzilamento é sempre maior. No amor, na escola, no trabalho, nos nazistas supermercados e farmácias, onde trocamos sempre a nossa dignidade por um cartão de crédito que vai vencer. Se tiririca sabe escrever? Quem quer saber? O promotor? E que diferença fará? Fuzilados como no quadro, nos mantemos frente ao horror que são as formas de se chegar ao poder. Então que se fuzile a todos como em “Bastardos Inglórios”. Não nos dêem nem a chance de chamar por  um segundo turno. Porque onças e peixes ainda fazem a festa do povo inocente(esta inocência que paga a quitanda!) no dia das eleições.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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