Cachoeira (BA): cidade monumento no Recôncavo Baiano

Vista parcial da Praça da Aclamação

Passear pelas ruas seculares da cidade baiana Cachoeira é ter o privilégio de conhecer a história de construção de uma identidade nacional brasileira. O patrimônio histórico se alia ao tempero dos pratos à base do coco e azeite de dendê, além do cheiro de alfazema dos terreiros de candomblé, das imagens seculares das igrejas católicas e de resistência. Sim, o Recôncavo Baiano é berço de Ana Néri, Maria Quitéria e Dona Dalva, além de ter sido berço também da Sabinada, movimento separatista que queria a República Baiana. Cidade localizada a 120km de Salvador, ao chegar lá o visitante tem uma visão privilegiada do Rio Paraguaçu e observa de imediato o que lhe aguarda: muita história.

A cidade preserva um patrimônio histórico dos séculos XVIII e XIX, quando seu porto era utilizado para escoamento de grande parte da produção agrícola do Recôncavo Baiano, principalmente açúcar e fumo, produtos até hoje produzidos no município, e que na época era destinado, principalmente para a Feira das Águas de Menino (Feira de São Joaquim), em Salvador.

Destacam-se o Paço Municipal, com sobrados tombados pelo Iphan, a Casa de Câmara e Cadeia Pública e a Igreja e Convento da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, um ícone na história do município, datado de 1715, em estilo barroco. O interior da Igreja do Carmo é revestido de ouro e painéis de azulejos portugueses, abrigando também imagens de madeira de Macau. Observe os detalhes dessas imagens com trações e decorações orientais.

A significativa presença de africanos e afrodescendentes em interação com europeus de variadas nacionalidades faz de Cachoeira uma base de estudos do sincretismo religioso. São mais de 19 comunidades quilombolas catalogadas na região, além de ser centro de mais de 100 terreiros catalogados na região de Cachoeira. Basta fazer uma visita ao casario e a igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, uma instituição secular que abriga histórias de luta, sincretismo e uma das únicas a cultuar até hoje o Cristo Morto. Passear pelas ruas de Cachoeira é sentir o cheiro da cozinha tipicamente dos tempos dos escravos, no qual a cozinha resistente era à base de mandioca, a exemplo da Maniçoba e do Bobó, do Xinxim de Galinha.

Conheça a região da antiga Estação Ferroviária hoje restaurante e transforma em museu. Dos trilhos que levam a vizinha São Félix através da ponte metálica D. Pedro II, com estrutura de ferro europeu inaugurada em 7 de julho de 1865. Sua estrutura é composta de ferro e lastros de madeira importados da Inglaterra, sendo uma das principais obras de engenharia na América do Sul à época.

Cachoeira
Altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e seus painéis de azulejos portugueses

Não deixe de conhecer a Igreja da Matriz Nossa Senhora do Rosário, um ícone do Recôncavo com teto em estilo barroco completamente adornado por afrescos. Sua sacristia é um patrimônio a parte, além de disponibilizar aos visitantes os maiores painéis de azulejos portugueses fora de Portugal. São mais de 13 mil peças, com uma altura de 4m. Vizinho a ela fica o casario onde nasceu à enfermeira Ana Néri. Há também a Casa de Samba da Dona Dalva e mais adiante a Santa Casa, construído no século 18, a Capela de Santa Bárbara e o Chafariz Imperial. O edifício que abriga a Igreja Nossa Senhora da Ajuda foi construído em 1687 e se trata da primeira igreja da cidade de Cachoeira. Construção de relevante importância arquitetônica, abriga as imagens de Nossa Senhora da Ajuda, São Francisco de Assis, São Benedito, Santa Luzia, São Caetano e São Pedro. Nesta Igreja encontra-se a Irmandade de Nossa Senhora D´ Ajuda.

Antes do entardecer, visite uma das charutaria da cidade, a exemplo da Dannemann (São Felix), da Leite & Alves (Cachoeira), Comercial de Charutos Paraguaçu (Cachoeira), todas elas com degustação, lojas, e preparo para os turistas observarem e tirarem aquela foto instagramavél. No entardecer, a dica é aguardar o pôr do sol a beira do Paraguaçu. Do outro lado do rio fica a cidade de São Fêlix, que vale a pena uma visita. Quer mais? A Praça da Aclamação e adjacências tem um clima bem alegre entre mesas de bares e restaurantes na calçada e muita paquera. À noite, o calçadão é o local mais disputado por locais e turistas. Na praça da Góes Calmon também há bons restaurantes e ponto de encontro dos moradores.

Na Bagagem

  • Depois do apogeu da cana de açúcar e fumo, a cidade entrou em declínio. Com a chegada da Universidade Federal do Recôncavo Baiano e da Universidade Adventista, a Cahoeira tem atraído uma comunidade jovem de alunos, aquecendo o comércio local e movimentando o setor de moradia e alimentos.
  • Coloque no roteiro a feira livre local e o mercado municipal. São boas opções de vivenciar um pouco da arte e cultura do dia a dia. As ruas da cidade transpiram baianidade e história.
  • Há boas instalações, principalmente de pousadas e apart-hoteis, porém a sugestão é se hospedar na Pousada Convento do Carmo e no Apart Hotel Cachoeira.
  • No entorno da cidade, há parques naturais e cachoeiras, com trilhas de alto e médio grau de dificuldade. Uma delas é a cachoeira da Muritiba, há cerca de 9km da cidade.
  • Não deixe de visitar o Centro Cultural da Irmandade da Boa Morte, aberto a partir das terças-feiras. Há uma exposição permanente de fotos. A história é recheada de segredos e misticismo que duram mais de 200 anos. A festa aconteceu de 13 a 15 de agosto, todos os anos.
  • Há inúmeros ateliês na cidade, a exemplo do casarão Hansen Bahia, que deverão ser visitados. Hansen, alemão, pintor, escultor, escolheu a Bahia como sua “Nação”. Na Praça da Aclamação, o sobrado-sede do Iphan abriga obras de artistas baianos. Há também bons restaurantes no entorno.
  • O samba de roda é o ritmo tradicional do Recôncavo Baiano e Patrimônio Imaterial do Brasil. No mês de março acontece a emancipação política da cidade e apresentações são quase que diária.
  • Consulte o calendário de festas oficiais da cidade. Vale a pena conhecer Cachoeira em uma das tradições festas que emanam cultura e arte.

Gastroterapia

Feira livre de Cachoeira

No Recôncavo um dos pratos mais apreciado é a Maniçoba produzida à base da folha de mandioca cozida, com carne-seca, linguiça calabresa, amendoim torrado e camarão defumado, além de temperos e pimentas. Há variações nos ingredientes conforme a região, mas a unanimidade nas diversas cidades baianas é a tradicional moqueca. A Moqueca de siri catado é encontrada nos diversos restaurantes de comida baiana, servida com salada vinagrete e arroz branco. O prato leva o azeite de dendê com leite de coco, perfumado com muito cheiro verde e especiarias. Leia também

Maniçoba

Como chegar?

Partindo de Aracaju, são cerca de 326km. A dica é percorrer a BR 101 no sentido Sul. Não tem errada. Parte da rodovia está completamente duplicada. Passa-se por Cristinápolis (divisa com Bahia), Explanada, Entre Rios, Alagoinhas, entroncamento de Feira de Santana, e segue até lá. Partindo de Salvador, segue-se pela BA 324 e 420 e também é bem sinalizado.

Fotos: Silvio Oliveira    Insta: @tonomundosilvio

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