Caetano, Gil e Chico envelheceram

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Um dia eles defenderam que era proibido proibir, sofrendo as consequências da luta pela liberdade de expressão, e agora aparecem como censores da obra literária alheia? O que querem esses caras? Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, o trio de ouro da MPB moderna, revelaram-se insensatos, para dizer o mínimo, ou estranhamente conservadores, quando embarcaram num iate chamado Procure Saber, pilotado por sua majestade Roberto Carlos I, que dispensa apresentações.
Barulhenta, a imediata do rei na viagem dessa nau sem rumo é a empresária Paula Lavigne, ex do leãozinho baiano e figura que dispensa uma biografia.

A dita ONG encabeça uma campanha pela proibição da publicação de biografia escrita sem a devida e oficial autorização do biografado ou da família dele. E ele, nesse caso, pode ser um dos quatro citados acima ou ainda Milton Nascimento, Erasmo Carlos, Djavan, dentre outros que também agora se arvoram censores. Censores, sim, porque quem exige autorização prévia para o lançamento de uma obra artística ou cultural comete censura prévia.

E quem sugere pagamento a biografado ou herdeiros comete um absurdo equivalente a pagar para fazer entrevistas jornalísticas, como considerou o escritor e biógrafo americano Gary Giddins, autor de Celebrating Bird: The Triumph of Charlie Parker, dentre outras obras dedicadas a geniais músicos do jazz.

Numa recente entrevista, Roberto Carlos sugeriu que a questão poderia ser resolvida pela via empresarial, diga-se, mediante acerto monetário. Ao que Alceu Valença, antes de objetar que a liberdade de expressão é um conceito tão grandioso que deveria estar na frente de qualquer questão, indaga, com todo respeito às opiniões contrárias: O que é pior, a mordaça genérica ou a suposta difamação?

"Chico, Caetano e Gil estão defendendo minha tese", pilheriou Jair Bolsonaro, líder dos deputados que pretendem aprovar uma lei proibindo a publicação de biografias não autorizadas. A mesma tese que defendem Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, agora estranhamente alinhados ao radical de direita. E não se está aqui discutindo questão ideológica, mesmo porque os três permanecem afinados politicamente, apesar de terem divergido quanto a Lula, por exemplo, que foi apoiado por Chico e Gil e abominado por Caetano.

Levantamento da Folha de S. Paulo identificou 19 obras que estão proibidas pela Justiça, dentre outras já liberadas, modificadas ou ainda objeto de análise. O caso mais notório é o do próprio Roberto Carlos, que processou o autor e tirou de circulação a biografia Roberto Carlos em Detalhes, escrita por Paulo Cesar de Araújo, escritor acima de qualquer suspeita, por ser (ou era?) fã incondicional do rei.
Outras obras proibidas são Nike/CBF, de Aldo Rebelo e Silvio Torres, O Mapa da Corrupção no Governo FHC, de Larissa Bortoni e Ronaldo de Moura, Paulo Leminski – O Bandido que Sabia Latim, de Toninho Vaz, e Lampião, o Mata Sete, do juiz sergipano Pedro de Morais.

O direito individual não pode se sobrepor ao direito coletivo, que é o direito de todos saberem uma verdade histórica, mesmo que a princípio não seja contada da forma mais verdadeira. Porque a verdade, até escrita por linhas tortas, sempre prevalece. E a legislação vigente permite a todo cidadão buscar reparar judicialmente uma calúnia, ofensa ou invasão de sua intimidade. Liberdade de expressão não pode ser liberdade de praticar um crime, é bom que se diga. Mas a Justiça é lenta? Então, corrija-se o tempo de tramitação processual.

A fala de Roberto Carlos, que depois da polêmica afirmou de forma confusa ser favorável a biografia não autorizada, provocou um racha na Procure Saber: “E RC só apareceu agora, quando da mudança de tom. Apanhamos muito da mídia e das redes, ele vem de Rei. É o normal da nossa vida”, decepcionou-se Caetano Veloso.

Chico Buarque também capitulou. Defende a proteção à intimidade dos artistas, mas admite que o debate foi perdido. “Ele [o artista] pode não querer que se fale de um casamento, de algum problema da infância. São problemas que não são levados pelo artista ao público, que ele toma o maior cuidado, quer preservar para si. Acho respeitável. Agora, se a lei tá errada, se eu tô errado, tudo bem. Perdi.”

As famílias brasileiras provavelmente já não estão em dúvida sobre que lado escolher na peleja entre o direito constitucional de ter a história integralmente preservada e o direito igualmente constitucional de todos conhecerem os erros e (provavelmente muito mais) acertos registrados no diário da vida de personalidades tão emblemáticas. E a todos cabe julgar de acordo com suas crenças e convicções.

De todo modo, aqueles que são fãs dos três cantores e compositores, e que até os tinham como referências de vida, era quase confidentes, certamente se decepcionaram ao perceber que seus ídolos já não são os mesmos. E envelheceram. Cercear os autores de biografias, lembra Alceu Valença, seria uma equivocada tentativa de tapar, calar, esconder e camuflar a história no nosso tempo e espaço. Coisa de ultrapassado conservadorismo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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