CANTANDO NA SECA

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Retornando para Aracaju, depois de uma cansativa audiência criminal na comarca de Nossa Senhora da Glória, inquieto tentava sintonizar alguma música ou programa interessante, procurando nas ondas do rádio uma companhia virtual para acalentar o trajeto. Eis que a busca automática fora interrompida por um protesto que chamava a atenção pelo inusitado. Um prefeito da região, não recordo se de Feira Nova ou Monte Alegre, se queixava que a sua administração estava comprometida, vez que constantemente perseguido em função de sua opção política.

 

Histórias de perseguições a adversários eleitorais, por serem comuns no cenário político nacional e estadual, não despertam mais a atenção, como de fato não fora relevante no meu livre escutar. O que pareceu burlesco e atrativo fora o exemplo da perseguição. Reclamava o alcaide sertanejo que o seu Município somente havia recebido cinco caminhões-pipas, enquanto o governo, não sei se federal ou estadual, tinha enviado dez destes cobiçados tesouros-de-esperança para os municípios de Poço Redondo e Porto da Folha.

 

Pareceu-me que o prefeito repetia, evidentemente sem a musicalidade de Luiz Gonzaga, o pedido de “esmola que mata de vergonha ou vicia o cidadão”. No caso, a autoridade municipal, de copo na mão, repetia o gesto viciado de seus antecessores, querendo minorar os efeitos da seca com o fornecimento de potes d’água, em verdadeira tentativa de “tapar o sol com a peneira”.

 

O espanto deste ouvinte, agora atento, foi maior porque os três municípios fazem parte da região abençoada pelo Velho Chico. De logo perguntei aos meus botões: como precisar do paliativo caminhão-tanque se o Rio São Francisco ainda é perene no alto sertão?  Afinal, não é deste mesmo Rio que o Governo Federal pretende retirar a água para abastecer os distantes Estados do Ceará e Rio Grande do Norte? Por que não  utilizar  estas mesmas águas e recursos para o combate sério e eficaz da secular seca que massacra o resistente sertanejo?

 

Recursos para a transposição confessadamente se têm, para a irrigar a esperança do sergipano não. Para eles irrigação, para nós carros-pipas. No planejamento água encanada, na vida do caboclo somente água encalhada.

 

A impressão que me passa é a de que as autoridades envolvidas não querem resolver o problema da seca. Querem sim, manter uma promíscua relação de dependência e miséria que serve como barganha política. Querem a fome para trocar  por votos. Não há razão para a morte por inanição nas margens do Velho Chico, assim como não se explica serem os Municípios ribeirinhos aqueles que mais sofrem com a falta d’água.

 

Só se pode concluir que, para os governantes, planejar é sinônimo de nada programar. O abandono do Projeto Califórnia, que já consumiu mais de trinta e cinco milhões de dólares, é um exemplo vivo da política do conscientemente do nada fazer. Aliás, o sucateamento da Estação Experimental de Boquim e várias outras experiências  parecem induzir que a política de subserviência pela necessidade  agora é artigo de exportação para outra região.

 

Terminado o debate, voz de desabafo do prefeito fora substituída pelo vozeirão inconfundível de  Zé Ramalho, agora o que se escutava era o profético “ê ô ô vida de gado, povo marcado, ê Povo feliz’. E olhe que esta música e este cenário abusivo se repetem por longos e longos anos, independentemente da estação. Mas como o sertão está vivendo mais um período de seca catastrófica, não é difícil concluir que a ladainha agora ganhou ares de sucesso “latismal”.

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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