Com a boca no trombone de vara

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Cartas do Apolônio

 

 

Com a boca no trombone de vara

 

Sobrinho de Apolônio é apanhado em situação vexatória junto com uma colega de repartição.

 

Cascais, 18 de novembro de 2005

 

Caros amigos de Sergipe:

 

Estou deveras preocupado com o meu sobrinho Asdrúbal d’Alemcastro. O rapazola em questão é integrante da Orquestra Filarmônica de Cascais onde exerce atualmente a cobiçada função de primeiro trombonista de vara.

 

Devo dizer que o estimado sobrinho é um tanto quanto afogueado para as artes do amor e há poucos dias meteu-se numa enrascada daquelas.

 

Estando o jovem musicista a calibrar o seu portentoso instrumento antes de um dos ensaios habituais do afamado grupo musical português, é interrompido pela presença da afamada flautista Turíbia Nou. Esta o procura para lhe apresentar um curioso instrumento originário da Cordilheira dos Andes, o engenhoso flautim de recuo.

 

Reza a lenda que o instrumento, quando tocado em noites de lua cheia, desperta a libido do mais casto dos casais. Coincidentemente, era noite de lua cheia.

 

Ao ouvir o som do mavioso flautim, meu sobrinho Asdrúbal foi ficando, digamos, animado e disposto a investir nas formas esculturais da flautista Turíbia, que recebeu bem a idéia, diga-se de passagem.

 

Conversa vai, conversa vem, em poucos minutos o jovem Asdrúbal já estava aos beijos com a rapariga. Beijos que evoluíram para um deslavado lesco lesco.

 

E aí é que foi o começo da desgraça do casal de afinados pombinhos.

 

Mulher experiente que é, Turíbia não se continha diante do jovem fogo do Patápio e com seus gritos ensandecidos conseguir atrair a atenção de vários outros membros da Orquestra.

Estes colaram os ouvidos na porta da sala onde o casal exercitava camerísticas posições. O pressão foi tanta que a porta da sala de ensaios cedeu. Resultado: Todos caíram por cima do animado casal na hora do ‘ái Jisus’. Foi uma gritaria só.   

 

O turco Salim Shoucair, diretor da Orquestra foi chamado às pressas para tentar acalmar o fuzuê armado com o flagrante erótico-musical. A essa altura o trombone de vara do Asdrúbal, coitado, já repousava inerte. Um vexame!

 

O experiente diretor explicou a todos que a exposição pública de um fato tão íntimo não seria bom para a imagem da Orquestra, já um tanto desgastada com a retirada do patrocínio da Portugal Telecom, por sua vez já envolvida em suspeitas de maracutaias com o governo brasileiro.  

Alegando o desespero sexual de Turíbia, que já está a seis meses longe do marido (portanto necessitando de cuidados especiais), Salim pediu a todos que abafassem o caso, sob pena de demissão sumária dos eventuais denunciantes.

 

Aproveitando a oportunidade, solicitou a todos que contribuíssem com qualquer importância em dinheiro para que o casal pudesse ir ao melhor motel da cidade recuperar-se do trauma e para as despesas com o conserto de alguns instrumentos danificados no alvoroço dos voyers musicais. Vaquinha essa que, diga-se de passagem, nunca chegou às mãos do Esdrúbal. 

 

Não adiantou o pedido de Salim. O assunto vazou e hoje o casal de musicistas é alvo de brincadeiras nas rodinhas sociais da cidade. Uns dizem que Turíbia desafinou nos gemidos e que isso é que, de fato, chamou a atenção de alguns ouvidos absolutos da Orquestra. Outros dizem que foi tudo planejado pelo turco Salim para justificar a vaquinha. Outros ainda colocaram no jornal o anúncio de um falso ‘Curso de Trombone de Vara para Senhoras de Fino Trato’, imaginem os senhores.

 

O fato é que por onde anda, o meu pobre sobrinho é chacoteado por todos por onde passa. Até as bibas ao vê-lo, querem logo saber:

 

“Asdrúbal, trouxe o trombone?”. Ninguém merece!    

 

Até semana que vem.

 

Um abraço do

 

Apolônio Lisboa

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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