Companheiros?

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Já virou lugar comum. Ao tratar de casos de violência contra a mulher e assassinatos de mulheres, a imprensa sergipana (certamente, essa é uma tendência nacional da nossa mídia) refere-se aos agressores como “companheiros” ou “ex-companheiros”. Não conheço um veículo de comunicação sequer que tenha essa como uma orientação editorial explícita, mas é algo que pode ser facilmente verificado nas matérias dos mais diversos jornais, revistas, sites, blogs, emissoras de televisão e rádio.

Dados do recente estudo Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil, elaborado pelo IPEA, demonstram que aproximadamente 15 mulheres são mortas, por dia, em decorrência da violência doméstica (em média, uma mulher a cada uma hora e meia). Outros números ajudam a revelar a gravidade desse tipo de violência: a cada 15 segundos, uma mulher é agredida no Brasil. Na última década, mais de 43 mil mulheres foram assassinadas no país, sendo 61% mulheres negras. 48% de todas as assassinadas nos últimos dez anos tinham apenas até oito anos de estudo.

Em geral, mostram os dados, essas agressões e crimes são cometidos por namorados e maridos. Sim, pessoas do convívio das mulheres. Mas não companheiros. A palavra companheiro tem origem no latim e significa “aquele que divide o pão com outro”. Cara aos partidos políticos de esquerda, aos movimentos sociais e sindicais, a expressão “companheiro” pode ser sintetizada por “aquele com quem compartilhamos lutas e sonhos”. Mas para compartilhar sonhos e lutas, é preciso – acima de tudo – igualdade e respeito aos direitos do outro. Justamente o que falta aos homens que agridem e matam mulheres.

Assim, é possível compreender que o uso banalizado do termo “companheiro” pela imprensa nas situações de violência contra a mulher esconde algo maior: o machismo. Sim, ao noticiar agressões físicas, morais, sexuais e psicológicas contra as mulheres, a nossa mídia insiste em camuflar o machismo. Em matérias, artigos de opinião, editoriais ou entrevistas, crimes de conotação machista são travestidos de supostas motivações passionais. Por mais que entidades e coletivos de direitos das mulheres se manifestem, parece que a imprensa ainda não aprendeu: não é o amor que mata, mas o machismo, a crença de que a mulher é inferior, é subalterna, logo deve ser violentada e, caso resista ou desobedeça, assassinada.

25 de Novembro marca a passagem do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, um importante momento de reflexão sobre a necessidade do combate ao machismo que mata mulheres todos os dias em nosso país.

Um momento importante também para os/as trabalhadores/as da comunicação refletirem sobre o seu fazer profissional quando o assunto é violência contra a mulher. Deixar de chamar os agressores e assassinos de mulheres de “companheiros” ou “ex-companheiros” pode ser o primeiro passo para uma nova postura da imprensa. Outros também são necessários e urgentes: respeitar os direitos das mulheres, em especial na preservação de sua imagem, garantir à mulher a voz (ou o silêncio) quando ela assim o quiser, desconstruir visões estereotipadas das mulheres que – em determinada medida – reforçam a violência de gênero, e ir além do senso comum do “crime passional”, buscando as raízes que identifiquem as causas da violência. São alguns caminhos para que tenhamos uma imprensa “companheira” das mulheres.

Audiência Pública na ALESE

Nessa terça-feira (26), às 14:30h, a Assembleia Legislativa de Sergipe promove a Audiência Pública com o tema “Mulher: Viver sem Violência”, organizada pela Comissão de Direitos Humanos da ALESE, presidida pela deputada estadual Ana Lúcia (PT). A Audiência é resultado de uma série de mobilizações, atos públicos e debates ocorridos ao longo do ano, em que as entidades, movimentos e coletivos de mulheres priorizaram o combate à violência contra a mulher. É uma ótima oportunidade para a imprensa sair do lugar comum e assumir uma nova postura nessa pauta.

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