Cristãos contra mouros

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                                                                                                                       Marcos Cardoso

O que os distúrbios em Londres tem a ver com os atentados na Noruega?  Talvez nada, provavelmente tudo. Governada por políticos de direita que seguiram erradamente a cartilha neoliberal americana, sofrendo por isso mesmo uma crise econômica que insiste em se aprofundar, e impregnada de uma violenta reação ao multiculturalismo que tem como principal bandeira a islamofobia, a Europa parece estar prestes a declarar guerra aos estrangeiros e àqueles que não compartilham da sua branca cultura, os bodes expiatórios dos seus fracassos.

A explosão de revolta difundida a partir do mesclado bairro londrino de Tottenham também é, indiretamente, a resposta às bestiais razões que levaram o terrorista loiro e de olhos azuis Behring Breivik a perpetrar os atentados no pacato país nórdico.

O manifesto de 1.500 páginas divulgado pelo extremista de direita assassino de 76 pessoas, a maioria jovens do Partido Trabalhista, contém teses amplamente divulgadas na Europa– e até na dita grande imprensa do Brasil, além das mídias americanas, claro –, principalmente depois dos atentados de 11 de setembro de 2001.

“Ataques ao multiculturalismo em geral e ao Islã em particular, em nome do Ocidente tido como ‘judaico-cristão’, têm sido difundidos, em conjunto ou em separado, não por jovens excêntricos, mas por Pessoas Muito Sérias (Very Serious Peoples, como dizem os blogueiros anglófonos), como o primeiro-ministro britânico David Cameron e sua colega alemã Angela Merkel”, além de xenófobos jornalistas, escritores e filósofos europeus e estadunidenses, observa o jornalista Antonio Luiz M. C. Costa, editor internacional da revista Carta Capital.

Breivik é influenciado pela corrente principal das ideologias conservadoras, que defende a “cultura ocidental” e é contra influências “orientais” e “marxistas”. Mas por trás da noção de cultura reside a velha e letal defesa da raça e da cristandade. “Assim como, para os nazistas, ‘ariano’ significa na prática ‘europeu não judeu’, para Breivik ‘cristão’ quer dizer ‘europeu não islâmico’”, afirma Costa.

Para o professor francês Nicolas Lebourg, especialista em agremiações de extrema-direita na Europa, a tragédia norueguesa decorre de uma radicalização que tem raízes no nacionalismo alemão que passa a fazer um discurso a questionar o multiculturalismo, a imigração, a islamização. “Essa narrativa é uma reação à crise dupla que vivemos. A primeira foi aquela geopolítica de 11 de setembro de 2001. A segunda é a econômica, iniciada em 2008”, quando ideais neoconservadores americanos migraram para a Europa.

A onda de desemprego provocada pela crise atrai simpatia e facilita o discurso da direita, mas os mais reacionários são contrários à imigração não por temerem a concorrência no mercado de trabalho, mas simplesmente porque rejeitam a presença cultural e física dos imigrantes. Os conservadores e os que caem na sua armadilha, inclusive os de esquerda, não entendem o multiculturalismo como um diálogo no qual todos se modificam, mas como convivência de culturas imutáveis a se preservar e se ignorar mutuamente a uma distância segura.

Lebourg concorda que a islamofobia nasceu na guerra na ex-Iugoslávia (1991-2001), quando as autoridades passaram a crer na existência de uma célula islamita atuando para desestabilizar e islamizar a Europa. “Após o 11 de setembro, veremos a introdução da temática neoconservadora baseada no famoso discurso de George W. Bush contra o islamofascismo. O tema foi retomado até por numerosos intelectuais da esquerda européia”.

Foi a partir daquele fatídico dia do ataque da Al-Qaeda às Torres Gêmeas que a extrema-direita européia passou definitivamente a estigmatizar o Islã e a apoiar Israel – até então era anti-semita – e a política internacional de Washington.

Todo esse caldo cultural certamente contribuiu para a onda de violência que começou no bairro londrino de Tottenham, no sábado 6, depois da morte de Mark Duggan, um negro de 29 anos, baleado pela polícia dentro de um táxi.

Parêntese: lembremos do assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes, na mesma Londres, pela mesma Scotland Yard, dentro de um trem do metrô, em 22 de julho de 2005. Os policiais supostamente o confundiram com um árabe suspeito de tentar fazer um fracassado atentado a bomba na véspera e o abateram pelas costas. O assassinato que jamais resultou em punição para os culpados ocorreu duas semanas após os atentados de 7 de julho, quando uma série de explosões atingiu o sistema de transporte público de Londres e 56 pessoas morreram.

Mas voltando à revolta provocada pela morte de Mark Duggan, o jornal The Independent afirmou que a questão racial não pode ser negligenciada nesse caso. Some-se ao fato de a polícia não saber lidar com os jovens negros de Tottenham, que muitas pessoas – de diversas nacionalidades e etnias – se juntaram ao tumulto daquele sábado.

“Muitos homens negros foram mortos pela polícia. Muitos homens e mulheres foram tratados como criminosos quando não eram. Esta não é a causa destes distúrbios, mas está lá, na mistura”, disse uma colunista. Há quem defenda que as mortes nas mãos da polícia inglesa são muito raras – nos últimos três anos ocorreram apenas sete e todas elas foram de pessoas brancas.

Os analistas de plantão procuram as repostas enumerando diversas causas para os distúrbios, que vão desde a dependência do sistema de bem-estar, corte nos gastos públicos, pouco policiamento, consumismo e até à falta de pais, à cultura do rap, exclusão social e racismo.

Talvez encontrem a resposta na reação da Europa ao multiculturalismo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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