De “fada sensata” a “fada senzala”

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Alessa Francine Silva

Graduanda em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Integrante do Núcleo de Estudos em Discursos e Sociedade (NUDES/CNPq/UFRJ)

E-mail: alessa_fs@hotmail.com

            A vigésima edição do reality show Big Brother Brasil, produzido e exibido pela Rede Globo, tem alcançado recordes de audiência. Após edições de pouco sucesso entre o público brasileiro, o programa passou a conquistar mais telespectadores a partir de discussões envolvendo temáticas de caráter feminista.

Logo no início da exibição do reality, em fevereiro, a participante Marcela Mc Gowan tornou-se a favorita ao prêmio de 1.5 milhão de reais ao revelar às outras mulheres da casa um plano elaborado por Hadson Nery, Felipe Prior, Lucas Gallina e Petrix Barbosa. O plano em questão consistia em macular a imagem das participantes que fossem comprometidas – como a blogueira Bianca Andrade, mais conhecida como Boca Rosa – a fim de que as mesmas traíssem seus parceiros, perdessem a admiração do público e, consequentemente, fossem eliminadas ao serem indicadas ao Paredão.

Ao tomar conhecimento do plano concebido pelos quatro amigos, Marcela alertou às demais participantes da casa, as quais se uniram para queixarem-se do plano a Hadson. Diante do confronto com as mulheres, o participante negou sua estratégia de jogo e afirmou que Marcela e Gizelly Bicalho – as duas participantes que estavam presentes no momento em que Hadson, Felipe, Lucas e Petrix comentaram sobre suas intenções – estavam mentindo.

Foi a partir dessa situação que o BBB20 passou a integrar recorrentemente os trending topics da rede social Twitter. Grande parte dos usuários passaram a se posicionar favoravelmente às mulheres. Por conseguinte, falava-se sobre feminismo e termos relacionados ao movimento cada vez mais. De acordo com os dados da plataforma de pesquisa Google, as buscas pelo termo ‘sororidade’ aumentaram em 250% após um discurso da cantora-compositora Manu Gavassi contendo a palavra em questão. Os arquitetos do plano passaram a ser chamados de “machos escrotos”, “chernoboys”, entre outros termos que colocavam em evidência o machismo presente em suas ações e seus discursos dentro do reality.

Marcela, por ter “exposto os machos escrotos”, passou a ser denominada “fada sensata” pelos internautas. Grande parte dos usuários das redes sociais creditavam à médica obstetra o prêmio a ser fornecido pelo programa. Contudo, a entrada do ator Daniel Lenhardt na casa fez com que a percepção do público mudasse gradativamente – não somente em relação à Marcela, mas também às pautas defendidas pela mesma, principalmente o feminismo. De acordo com o público, Marcela deixou de ser coerente com os discursos feministas que costumava proferir no início do programa por conta de seu romance com o participante vindo da casa de vidro.

A amizade entre Marcela e Gizelly, amigas próximas no início do programa, foi questionada pelos usuários das redes sociais, os quais compartilhavam vídeos em que Marcela fazia comentários de mau gosto sobre a amiga quando esta não estava presente. Dessa maneira, determinadas pessoas que acompanham o reality passaram a traçar o perfil de Marcela como o de alguém que deixa de lado suas amizades após iniciar um relacionamento romântico.

É evidente, porém, que o principal argumento utilizado por quem comenta online sobre o reality envolve a relação de Marcela e Babu Santana, devido a comentários considerados racistas advindos da participante. Dentre as falas da obstetra, uma foi objeto de intensos debates nas redes sociais, ocupando, novamente, os trending topics do Twitter. Após cerca de dois meses de confinamento, no dia dez de março, Marcela e seus colegas do programa iniciaram uma brincadeira a respeito de como e quem eles seriam caso estivessem em uma escola. Ao comentarem sobre o intérprete de Tim Maia, a influenciadora digital, Rafaella Kalimann, afirmou que Babu seria o professor, ao passo que Marcela rebateu “Eu ia falar que o Babu é o dono da cantina”.

Devido a esse comentário, Marcela tornou-se novamente alvo de severas críticas nas redes sociais, tendo sua atitude apontada como racismo. Por ter comentando em outras ocasiões que tinha medo de Babu e que, por conta disso, não se aproximava do participante, as acusações de racismo tornaram-se cada vez mais recorrentes por parte dos usuários das redes sociais. Dessa maneira, o mesmo público que concedeu à Marcela o título de “fada sensata” a coroou com o de “fada senzala” após atitudes e discursos problemáticos em relação ao ator Babu Santana. Não somente Marcela foi alvo de um cancelamento em massa, como o movimento feminista também. A participante, portanto, acabou por tornar-se uma espécie de metonímia do feminismo, de maneira que suas atitudes passaram a ser interpretadas como um espelho de toda a militância feminista.

Ao invés de servir como estopim para cancelar o feminismo, a situação protagonizada por Marcela ao longo do reality evidencia, na verdade, a necessidade de repensar determinadas pautas reivindicadas pelo movimento. Os debates gerados em redes sociais acerca do BBB20 demonstram a urgência de um feminismo interseccional – ou seja, um movimento que pense não somente a categoria de gênero, mas também as de classe e raça. O feminismo branco e de classe média não é capaz de dar conta de nossa realidade, como é possível notar a partir dos debates gerados a partir das figuras de Marcela e Babu.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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