Deixem as máquinas em paz!

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Leio na nossa imprensa que um dos nossos candidatos a Prefeito de Aracaju, um jovem por sinal, está propondo acabar com a ‘fábrica’ de multas de trânsito.

 

Se bem entendi, há uma manipulação das multas conferindo a uns, perdoando a outros, tudo sendo conferido mediante farta distribuição de injustiças, por parte da administração do tráfego de veículos em nossa cidade.

 

E eu mesmo que me sinta incomodado com o desleixo e o desapreço com que o poder público, independente de partido político em mando, trata o cidadão, não venho sentindo qualquer deslustre na política de trânsito da cidade. Poderia citar dezenas de equívocos na concepção e na definição do tráfego em determinados locais, alguns terríveis, mais jamais uma ‘fábrica’ de multas.

 

Na verdade, o que incomoda a muitos é a “destruição criativa”, de que nos fala o grande economista e profeta da inovação tecnológica, Joseph Schumpeter (1883-1950), se referindo ao sistema capitalista que sempre progride mediante a utilização de novos empreendimentos, novas tecnologias e novos produtos substituindo constantemente os antigos.

 

E mais; “rejeitar o aporte tecnológico, equivale a regredir”, grita Domenico de Masi, em seu excelente “O ócio criativo”, uma pregação em demanda da modernidade:  “Se não se usa tecnologia”, continua o mestre contemporâneo, “usam-se os seres humanos: operários, servos, escravos”.

 

Ora, se a tecnologia facilita a vida, como os eletrodomésticos, por exemplo, implantá-la não é indolor. Trocar algo, mesmo o pilão e o almofariz pelo moedor eletromagnético, é encetar uma substituição traumática, igual aos jovens tomando o lugar dos velhos, estes restando inservíveis, por ultrapassados.

 

Mas, e diga mais, e mais ainda agora com o jovem já por demais anquilosado: nem sempre o jovem representa o novo.

 

Há muitos jovens que na adolescência já se fazem quelônios e cetáceos; lentos, pesados, inerciais por imutáveis, rasteiros e enrustidos em carcaças intransponíveis, sobretudo à luz e ao saber.

 

Há daqueles ainda, que na rima e na sina, apodrecem e jamais amadurecem.

Mas as idéias de Schumpeter são irreversíveis, se concebermos a humanidade criando indefinidamente novos métodos de produção e tecnologia.

Schumpeter cavalgando a modernidade. Divulgação.

 

E o novo incomoda, repito. Incomoda inclusive àquele intelectual amoroso, apaixonado por sua máquina de datilografia Remington, Olivette ou Smith Corona. Máquina que vive sem peças de reposição por absoluta ausência de serventia, mas que não enferruja azeitada todo dia, só pelo acariciar do seu usuário fiel, cada vez mais aterrorizado com o tempo, e enojado com os novos tempos. Uma assombração que vem das teclas, quaisquer teclas, de um notebook dual core, ou de um tempo de vinte anos passados, onde reinava os XT e os AT, computadores que também hoje estão reciclados no lixo, sem saudades.

 

É neste sentido que eu imagino a tal ‘fábrica’ de multas, escarradamente denunciada.

 

No meu entender, não há uma ‘fábrica’ de multas em Aracaju. Não conheço ninguém que não merecesse a tal multa recebida. Até eu, delas já recebi. Merecidamente, é bom destacar, porque eu estava errado! Por que deveria reclamar, se o erro fora meu e não da máquina?

 

A multa, mesmo ditada pela máquina, é um mecanismo eficiente no processo de educação. Ninguém tenha dúvida! Ninguém se educa só com boas palavras e promessas de boas intenções; isto é coisa de santos e anjos. Não de homens! Nem de mulheres! Afinal neste particular de receber a multa, todos são inocentes por iguais: o convexo e o côncavo; um xingando mais e querendo escoicear a máquina, o outro chorando menos, tentando a sua compaixão, e ambos tramando ao seu modo enganá-la com um jeitinho, ou procurando um padrinho, para se livrar da infração.

 

Mas, com a máquina não há jeitinhos nem apadrinhamentos. Daí porque sua imparcialidade e eficiência são incontestáveis, enquanto tecnologia em defesa do cidadão.

 

Por outro lado, o cidadão não infrator, cerca de 90% ou mais do universo humano, é sempre pacato, urbano, cortês e honesto. E só por isso, não é afeito a gritos, palavras de ordem, batucadas e manifestações ruidosas e raivosas.

 

Diferente, muito diferente de quem infringe a lei e a ordem. É deles que vem o escracho, tentando inflamar as massas e semear o caos: “Puna-se o policial diligente! Remova-se o promotor percuciente! Substitua-se o magistrado decente! Extinga-se o foto-censor inteligente!”

 

E por conseqüência imprevidente, acabe-se também a ‘fábrica’ de multa intermitente!

 

E por aí vai, inclusive aquela tola faixa tão divulgada, destinada ao contraventor, e que já está perdida no passado: “visite Aracaju, e ganhe uma multa!”.

Pois e! Parece que a tal frase voltou. O obscuro sempre volta com aqueles que resistem ou se incomodam com a destruição criativa ensejada pela modernidade.

 

E os que vêem como eu o foto-sensor, a câmara escondida, as lombadas eletrônicas como mecanismos protetores do cidadão, devemos ficar indefesos ao motorista irresponsável e criminoso?

 

Ora, a ciência é neutra, a tecnologia, também. Ambas existem, ao sabor da vontade do homem, para a felicidade e o conforto, ou para coibir o desregramento da vida. Nos tempos de hoje e nunca dantes, jamais se viu tanta gente no mundo, a expressar e desejar as mesmas coisas e tantos outros sonhos impensáveis, em velocidades inimagináveis. Não é terrível obstaculizar a destruição criativa em nome do atraso e da desordem?

 

Deixem as máquinas em paz! Utilizemo-las a exaustão, mesmo que sejam censores de multas, aos milhares e aos milhões. “Quem não deve, não teme!” Diz o brocardo popular, antigo e permanente.

 

No mais, sem rejeitar a destruição criativa e repelindo qualquer construção descriativa, lembremos que em plena modernidade, de tempos, de costumes e de regras, sempre permanecerá a velha metanóia grega do conhecer-se a si mesmo, inclusive para não receber multa de excessos de velocidades, invasões de faixas de pedestres, estacionamentos proibidos, e avanços de semáforo.

 

O resto é bobagem, para jovens, para velhos, para os maduros incomodados e até os imaturos inconformados.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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