Dia de doce de leite

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Domingo é dia de doce de leite. Faz dois anos neste 17 de maio da deflagração da Operação Navalha, aquela mega-investigação da Polícia Federal que desbaratou o esquema de corrupção comandado pela Construtora Gautama em nove estados, inclusive Sergipe. O processo corre no Superior Tribunal de Justiça. Corre lento, na verdade, porque até agora, de palpável, pouco tem acontecido.

 

A última notícia que vem daquele tribunal sobre a Navalha é de fevereiro deste ano. A Corte Especial do STJ rejeitou os embargos de declaração interpostos pelo dono da construtora Gautama, Zuleido Veras, e pelo ex-governador do Maranhão José Reinaldo Tavares. Por unanimidade, a Corte acompanhou o voto da relatora, ministra Eliana Calmon. Zuleido, dono da Gautama, continua com os bens bloqueados pela Justiça como forma de garantir o ressarcimento dos prejuízos aos cofres públicos, caso seja condenado na ação penal que apura o esquema de fraudes em licitações de obras públicas.

 

UM ANO ATRÁS, MAIO DE 2008, o STJ decidiu receber a denúncia do Ministério Público Federal contra 61 pessoas, entre elas, o ex-ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, o governador de Alagoas, Teotonio Vilela Filho (PSDB), o então governador e agora ex-governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT), o também ex-governador maranhense José Reinaldo Tavares (PSB), além do ex-governador João Alves (DEM) e seu filho, o empresário João Alves Neto, o ex-deputado federal Ivan Paixão e o conselheiro supostamente aposentado do Tribunal de Contas do Estado, Flávio Conceição, que foi a iminência parda do governo passado e o mais considerado articulador do esquema de Zuleido Veras em Sergipe.

 

Todos réus na Ação Penal nº 536/BA, eles foram denunciados por formação de quadrilha, tráfico de influência e corrupção ativa e passiva. Os servidores públicos envolvidos no esquema também foram enquadrados por prevaricação. Em maio de 2007, no golpe da Navalha, 48 suspeitos de integrar o esquema criminoso foram algemados e presos, três deles em Sergipe, inclusive Flávio Conceição.

 

A Gautama vinha executando as obras de duplicação da Adutora do São Francisco, consideradas irregulares pela Controladoria-Geral da União (CGU), que estimou em mais de R$ 170 milhões o prejuízo causado ao erário. Não há segredo de Justiça, quebrado pela ministra Eliana Calmon no início do processo.

 

EM FEVEREIRO DESTE ANO, o Ministério Público Federal em Sergipe denunciou o empresário Zuleido Veras e outras cinco pessoas, a partir de um desdobramento das investigações da Operação Navalha. Interceptações telefônicas realizadas com autorização judicial haviam mostrado que o dono da Construtora Gautama pagou propinas a um ex-superintendente da Polícia Federal, quando no exercício do cargo em Sergipe, Rubem Paulo de Carvalho Patury Filho.

 

Ficou comprovado, de acordo com o MPF, que Zuleido deu R$ 7 mil a Patury, mediante depósito na conta bancária de sua esposa, para custear o coquetel de sua posse em Sergipe. Ele ainda teria tornado a lhe conceder vantagens financeiras durante o ano de 2006, quando Patury tentava se candidatar a deputado estadual no Tocantins. Naquele ano, Zuleido e sua turma agiam à vontade. O grosso do material que avoluma o inquérito foi apurado, principalmente em interceptações telefônicas, nos anos de 2005, 2006 e primeiros meses de 2007.


Nesse desdobramento, foram denunciados pelo MPF em Sergipe, além de Zuleido e Patury, a esposa do superintendente, Magna Soraya da Silva Patury; o empregado da Gautama Florêncio Brito Vieira e os lobistas Francisco de Assis Borges Catelino e o delegado aposentado da (PF) Joel Almeida de Lima.


SURGIDA DE OUTRA OPERAÇÃO, batizada de Octopus, a Operação Navalha bem que poderia estender mais seus tentáculos e chegar a autoridades que acabaram sendo flagradas nas investigações, mas não tiveram suas vidas devidamente vasculhadas, a exemplo de conselheiros do Tribunal de Contas, ex-secretários, um vice-governador e até um desembargador. Houve quem recebesse pacotes de dinheiro que, nas conversas telefônicas captadas, eram identificados como doce de leite e outros acepipes.

 

Mas, se já é difícil chegar-se à condenação dos 61 denunciados, incluindo os quatro de Sergipe, a ação tornar-se-ia infinita se açambarcasse a todos os envolvidos. Até agora não aconteceu nada, mas se a coisa se estendesse mais aí é que não se chegaria a lugar nenhum mesmo. Nunca. Tomara que tudo não acabe em doce de leite.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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