DIENEKES E A BATALHA DO SÃO FRANCISCO

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Conta-nos o célebre historiador Herótodo (484-425 a.C.) uma passagem fantástica na vida do soldado espartano Dienekes. Estava a Grécia invadida pelo poderoso exército do ditador-rei Xerxes I (486-465 a.C.), até então comandante da maior e mais equipada máquina de guerra já vista na terra. Ao ser avisado de que as flechas dos arqueiros do rei persa, se lançadas de uma vez cobririam o sol, respondeu para todos: “Melhor, combateremos à sombra”.

 

Esta frase, que está registrada no memorial erigido aos heróis de Termópilas, simboliza a coragem-resistente diante de uma luta que parece impossível ser vencida. E realmente era difícil imaginar que aproximadamente oito mil gregos e espartanos pudessem opor qualquer resistência a um exército integrado por mais de trezentos mil soldados. Somente o batalhão conhecido como os “Imortais”, com seus dez mil soldados considerados de elite e invencíveis, era bastante superior à tropa integrada pelo valente Dienekes.

 

Entretanto, o diminuto exército de trezentos hoplitas, liderado por Leônidas I (490-480 a.C.), o rei de Esparta, resistiu por quatro dias em Termópilas, causando tantos danos ao exército persa que não se poderia afirmar que fora vitorioso. Ademais, o exemplo de resistência motivou as demais cidadãs gregas, fazendo-as acreditar que era realmente possível sonhar com a vitória. E olha que o próprio ditador Xerxes, como vingança pela humilhação e ainda com o objetivo de amedrontar os seus resistentes adversários, mandou esquartejar os corpos dos bravos soldados, não poupando Leônidas, Dienekes ou quais deles.

 

Resultado, nenhuma das cidades gregas se rendeu, servindo a Batalha de Termópilas como exemplo, estímulo e certeza de que resistir não era apenas preciso, mas, sobretudo, que era perfeitamente possível. Mesmo quando Atenas caiu devastada pelas poderosas tropas invasoras, continuaram os gregos acreditando que a vitória ainda era possível. Tão possível que o humilhado e cruel Xerxes foi posteriormente derrotado na Batalha de Salamina, abandonando definitivamente o seu desejo de conquistar a Grécia, caindo em seguida assassinado nas mãos de seus aliados.

 

Ainda hoje, quando uma batalha parece impossível de ser vencida, os heróis de Termópilas nos lembram que os fatores surpresa, coragem e resistência não podem ser desprezados em uma guerra. Nos lembram, ainda, que resistir ao autoritarismo, ainda quando o poder do governante se mostra gigantesco, é a melhor opção quando se luta por um ideal, quando se defende uma nação ou quando se deseja a liberdade. Nos lembram, também, que devemos ser os soldados das nossas próprias lutas, buscando em nós mesmos a coragem necessária para a ousadia de vencer.

 

Uma batalha moderna atinge os brasileiros de uma forma semelhante àquela imposta pelo ditador persa, ainda mais quando a máquina de guerra utilizada é uma das mais poderosas já vista por aqui. Falo da “Batalha do São Francisco”,  em que as tropas do governante Lula, comandada pelo general Ciro Gomes, impõe a todos a transposição das águas do Velho Chico. E as armas são aquelas conhecidas como manipulação da opinião pública, marketing político, autoritarismo, camuflagem de dados e ambição eleitoral.

 

E os generais e os soldados da transposição do Rio São Francisco, assim como fizeram aqueles comandados por Xerxes I, não têm medido esforços para concretizarem o sonho de conquista. Bilhões de reais serão gastos na empreitada, diluídos nas águas da arrogância, navegando-se na perversa lógica de que os fins justificam os meios. É que, segundo pensam, vale tudo para que se ingresse na História como o Senhor das Águas, mesmo que para isso se precise matar o próprio Senhor do Rio.

 

Eis porque a lição de Dienekes serve como acalento e esperança para aqueles que resistem à invasão do São Francisco. Eis que porque o bom combate escolheu a Batalha do São Frâncico como fundamental para garantir a independência, autonomia e altivez daqueles que acreditam com um outro mundo é possível. Eis porque, diante do imenso Exército da Transposição, poderemos dizer: “Melhor, combateremos à sombra”.


* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB

cezarbritto@infonet.com.br

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