Dumbo, de Tim Burton

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Naquele desenho antigo do elefantinho voador, vemos unicamente a perspectiva dos bichos que são como trabalhadores mal pagos do circo. As elefantas fofoqueiras, o ratinho mestre de cerimônias, os demais bichos presos em suas jaulas. Livres eram os homens, que domavam, dominavam estes animais. Neste filme de Tim Burton, a perspectiva – ou ponto de vista – é humano.

Mesmo os palhaços, que aparecem como uns monstros híbridos, umas hienas-gente que ameaçam a própria vida de Dumbo, filho da senhora Jumbo, são homens comuns que estão ali para domar os bichos. Estes, todos e todas, escravos do entretenimento.

Dumbo é aquele bichinho freak, estilo “homem elefante” de Lynch (citado neste filme que comentamos), ou mesmo como o Edward mãos de tesoura. Eles estão ali provocando por seu diferencial, suas diferenças, suas aberrações. E, tal como no universo mórbido que chama os espectadores, suas anomalias chamam público – unicamente por estes personagens conseguirem desenvolver uma habilidade com aquilo que os coloca como “aberrantes”.

O elefante se torna herói (como Batman, como Alice, como Edward, como o Cavaleiro sem cabeça, etc.) dentro de um universo que se coloca como absurdo. Um tipo de universo fantástico, que, como em todos os outros filmes, se relaciona com os processos criativos que a indústria do entretenimento usa. O toque chave de Burton seria inserir o gênero do terror como peça chave na trama do herói freak.

Dentro deste terror, mesmo aquele dos paradoxos de Alice, a vida e a morte se confundem. Dumbo quer e precisa fazer sua mãe sobreviver. Dreamland é o contrário do horror, porém, é o circo em sua idade mais avançada. Cientificamente elaborado, e composto pelo grande capitalista – ali interpretado por Michael Keaton, um anti-herói muito a gosto do Burton, que o ridiculariza já há tempos.

Este universo absurdo criado pelo dinheiro, absorve Dumbo. Mas ele é um animal, não pensa como os homens: não está nem aí pra isso tudo. Ele voa, sim, com uma pena, mas para tentar sua liberdade. Pois qual é o animal que, em sua juventude, não tenta a sobrevivência livre?

A morte em Dumbo vira os olhos. Detona, explode, queima o universo dos sonhos criado pelo dinheiro. E o elefantinho voador, enfim, consegue sua liberdade longe desse campo capitalista moderno. Final totalmente distinto do desenho animado da Disney.

Cabe ressaltar que Tim Burton tem dedicado seus dias atuais a uma revisão desse universo criado pela Disney. Sobretudo, em suas recriações, ele subverte quase que totalmente as histórias contadas. Faz parte de uma tese geral de crítica ao entretenimento por ele próprio.

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