É já, é Jackson?

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A largada para a campanha eleitoral de 2008 em Aracaju foi dada na última sexta-feira com o autolançamento da candidatura de Jackson Barreto. Mesmo que seja um blefe, o fato merece ser levado a sério por envolver o personagem que envolve. Porque a presença direta de Jackson no jogo, ainda que temporariamente, é capaz de alterar resultados. Ninguém duvida que ele seja um político com grande apelo popular na capital. Mas Jackson — presença certa no seleto e eclético clube onde atuam Antônio Carlos Valadares, Albano Franco, João Alves Filho e, agora, Marcelo Déda — é um profissional da política. No bom sentido. Ele sabe jogar o jogo, mesmo que eventualmente perca, como já aconteceu. Mas a sagacidade inata e a experiência adquirida na longa jornada o prouveram do timing que o movimenta no instante certo.

 

Sabedor da hora de apostar, Jackson jogou, moveu sua pedra, dando início à disputa eleitoral com 10 meses de antecedência. O que o acionou foi a pesquisa eleitoral do Instituto Padrão, contratada e divulgada pelo deputado estadual Gilmar Carvalho (PSB). O levantamento confirmou o que todo mundo esperava neste momento, uma preferência complacente por João Alves Filho, que há menos de um ano concluiu o terceiro mandato de governador. Mas o que o prefeito Edvaldo Nogueira e seus aliados não esperavam era que Jackson Barreto — e não o próprio comunista (se é que o adjetivo ainda faz sentido) —, aparecesse como o mais cotado da coligação de partidos que transladam em torno do governador Marcelo Déda. E, portanto, como o mais aparelhado para enfrentar João. De lambuja, Jackson ainda confirmou alegremente que é o nome mais forte do PMDB na capital, superando com folga o seu primo-desafeto Almeida Lima, que aparece com intenções de voto bem mais modestas.

 

Dentre os cenários possíveis, o Instituto Padrão mediu o embate direto entre João Alves e Edvaldo Nogueira. O ex-governador venceria por 54,4% a 36,4%, exatos 18 pontos percentuais de diferença, se a eleição fosse realizada no momento da pesquisa. Quando a disputa é polarizada entre João e Jackson, o ex-governador ainda mantém boa vantagem, mas a diferença se reduz a 8,5 pontos percentuais: 48,4% a 39,9%. Com esses números à mão e sempre levando vantagem na avaliação comparativa com Almeida Lima — ele é considerado mais popular, mais trabalhador e com muito mais prestígio do que o primo —, Jackson começou a deitar falação, mirando principalmente em quem está à sua frente, João Alves. “Quero saber se ele tem pique para andar nessa periferia como eu”, desafiou, exibindo imodestamente uma das armas, o conhecimento espacial e social de cada recanto da capital.

 

Jackson sempre obteve votações espetaculares em Aracaju, onde só perdeu a eleição uma vez, em 1998, quando concorreu para o Senado com Maria do Carmo Alves e ela o derrotou, inclusive na capital. Em 1994, quando disputou o governo do Estado com Albano Franco, foi derrotado no Estado mas venceu na capital nos dois turnos. Jackson foi prefeito duas vezes, ganhando com facilidade em 1985 e em 1992, mas em nenhuma das vezes concluiu o mandato: a primeira porque sofreu a intervenção do Estado, a segunda porque se retirou para tentar o governo, deixando a prefeitura nas mãos de Almeida Lima. Em outras duas eleições elegeu o prefeito que quis: Wellington Paixão em 1988 e João Augusto Gama da Silva em 1996.

 

Pesa contra Jackson, no entanto, o precedente de não ter governado o mandato inteiro nas duas oportunidades que ocupou o palácio Ignácio Barbosa. Como seu sonho de consumo nessa quadra da vida é o Senado, é de se desconfiar que, uma vez eleito prefeito, poderá se desincompatibilizar em 2010 para disputar a eleição majoritária federal.

 

Mas, primitivamente, há outra possibilidade tão ou mais forte quanto a eventual candidatura: é a não-candidatura. Será que não é só uma cortina de fumaça o que Jackson está lançando agora? Antes do obstáculo legal que terá que superar — Almeida Lima afirma que a prerrogativa de lançar candidato a prefeito é do Diretório Municipal, do qual é presidente —, Jackson quer ganhar tempo para desgastar seus adversários e ver no que é que vai dar tudo isso: se a própria candidatura ganhará musculatura ou se Edvaldo Nogueira vai melhorar a performance, ao ponto de confirmar-se como candidato preferencial do arco de aliança dedista. É provável até que Jackson deseje mesmo a reeleição de Edvaldo. Mas antes é preciso que a candidatura do prefeito seja mais confiável. Se Edvaldo não decolar, pode ser que Jackson entre mesmo de cabeça nessa eleição.

 

As contradições do poder

 

Estranho mundo este da política, onde o verdadeiro em falso se transforma de repente, numa virada eleitoral. E vice-versa. Quem antes sofreu com a ditadura hoje defende um governo claramente autoritário, como o de Hugo Chávez. Quem antes satanizava as Comissões Parlamentares de Inquérito, hoje as defende como instrumento democrático. Na eterna luta pelo poder, vale mudar o conceito para se manter do lado oposto ao adversário. Vale tudo, menos concordar com o inimigo.

 

Desde que o PT chegou ao poder, primeiro em Brasília, agora em Sergipe, muitos valores têm mudado. Os tucanos inventaram a polêmica CPMF e agora a rejeitam como a um filho bastardo. Os pefelistas, hoje ditos democratas, quando estavam no poder — que parecia eterno — turbinavam seus salários com os jetons dos conselhos estatais. Mas hoje… consideram coisa indecente.

 

Agora, de todos os que mudaram quem chama mais atenção é o PT. Ao se moldar ao poder, o partido das contradições não conseguiu conter no assembleísmo interno suas próprias divergências. O Partido dos Trabalhadores nasceu e frutificou na contradição, no sentido filosófico mesmo, do pensamento marxista, do conflito entre forças produtivas e relações de produção. Internamente, a oposição às opiniões sempre foi alimentada como motor da história do partido.

 

Mas, com a chegada ao poder, muito da contradição virou incoerência. E o pior é que, embaçados pelas vidraças palacianas, eles já não conseguem enxergar aquilo que sempre defenderam como coerente. Senão, como explicar a farra dos conselhos, o pagamento de R$ 600 mil à Gautama, a cooptação de aliados e as exigências infantis de petistas alegrinhos com o cheiro das almofadas felpudas do poder?

 

A veia humorista de Augusto

 

Coisa estranha um deputado subir à tribuna da Assembléia Legislativa para reclamar que o jornal do seu grupo esteja recebendo menos dinheiro do governo do Estado do que merecesse e que isso seja fruto de uma perseguição política. Mais estranho ainda quando esse deputado é Augusto Bezerra (DEM).

 

Será que sua excelência desconhecia o que acontecia no governo passado — do qual era servo —, que não só perseguia como estabelecia cotas publicitárias somente destinadas àqueles que não falassem mal? Ora, deputado, o seu governo, por puro espírito antidemocrático, quase matou um jornal de inanição e agora o senhor vem falar em discriminação? Augusto, não nos faça rir!

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