Eu só sei que nada sei

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“Se é verdade que todo professor tem a obrigação de saber tudo sobre a matéria que leciona, então, por que eu, simples aluno, tenho que aprender todas que constam do currículo?”

Questionamento de um aluno, inconformado com a grande quantidade de disciplinas obrigatórias.

 

De fato. Por quê? Por que temos que perder tempo, para aprender coisas que, com certeza, nunca iremos usar, quando deveríamos está aprendendo conteúdos, muito mais importantes e, sem nenhuma dúvida, bem mais úteis e necessárias para o resto de nossas vidas?

Lamentavelmente não temos, nas grades curriculares, por exemplo, matérias como: educação financeira, empreendedorismo, preparação para o casamento, para criar um filho, para melhor se comportar nos relacionamentos, na sociedade, para com as normas estatuídas, para com o Estado etc.

Imaginemos, mesmo que seja somente como um exercício de reflexão, como teríamos um mundo muito melhor se aprendêssemos, desde cedo, a ganhar dinheiro, a lidar responsavelmente com ele, se tivéssemos a chance e o incentivo para estudar sobre empreendedorismo, fôssemos instruídos para sermos mais honestos, disciplinados e comprometidos…

Pensemos ainda a respeito do grande valor que teria uma educação criteriosa para o casamento, para a criação dos filhos. Se for verdade que a educação transforma, será também possível aquilatar o bem social que estas matérias trariam para as pessoas e para a sociedade.

Mas, nós estamos estudando os afluentes de um rio que nunca vamos navegar, a altura de um pico que nunca vamos escalar, uma fórmula química que nunca vamos preparar, ou uma regra algébrica que nunca vamos usar e nem sabemos para que serve…

A meu ver, estamos equivocados em relação a isso.

Rubem Alves, grande educador, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas também inconformado, com este sistema educacional que ensina coisas que vão do nada a lugar nenhum, indaga: Você sabe o que é um dígrafo? Ou quais são as enzimas que entram no processo da digestão? Ou ainda qual o sujeito da frase: “ouviram do Ipiranga às margens plácidas.” Eu pergunto a você leitor, você sabe de tudo isso sem antes fazer uma pequena busca nas fontes? Claro, você poderá até lembrar-se de alguma, mas é quase certo também que não recorde mais de nenhuma delas e, se sabe, quais são as suas utilidades práticas para a sua vida? Você, conscientemente, faz uso de tudo isso?

Cá pra nós, pensemos na vida, no dia a dia, o que isso traz de vantagem. Qual é o significado de aprender coisas que, se de repente tornarem-se necessárias, poderemos, facilmente, consultar nos livros (no modo antigo) e, atualmente, no Google? Está tudo lá para preencher, se necessário, aquela curiosidade ou necessidade.

Porém, a educação para a vida, necessária e verdadeira não dá para consultar, tão rapidamente, mesmo porque, em geral, quando se precisa dela, já estamos dentro do processo. Não dá para retroceder: não dá para aprender a lidar com o dinheiro de inopino. A educação financeira deveria ser ensinada em casa pelos pais e nas escolas como matéria obrigatória.

E o matrimônio? Alguém aí conhece alguma disciplina que prepara as pessoas para o casamento? Creio que um dos passos mais importantes e significativos do ser humano é dado de oitiva, no bambo, no “vamos ver no que vai dar”. Lamentavelmente… E o que acontece quando nascem os filhos, o maior presente que Deus entrega ao casal? É um terror. Nenhum dos dois está, sequer, minimamente preparado para lidar com aquele pequeno ser e nem com as implicações que a sua presença traz e, aí, é um Deus nos acuda. Valem-se das avós e dos avôs que, também criaram os atuais novos papais de qualquer jeito, mas, que já estão mais traquejados, não quer dizer que saibam, estão apenas melhormente preparados do que o  inexperiente casal. Por este motivo, lamentavelmente, às vezes, o casamento arruína e, como fica fácil entender, num casamento, já arruinado, não há como ir buscar em tais fontes, por melhores e mais modernas que sejam, um remédio curativo. Na formação e criação de um filho não dá para aprender no erro e acerto, estas coisas envolvem sentimento, comportamento, ética, compromisso, disciplina, amor e tudo o que não se pode ter noção do dia para a noite e, nem achar uma resposta no Google.

Mas, a resposta que justifica tudo isso é que este é o sistema, aqueles “conhecimentos”, ou o conhecimento de todos aqueles conteúdos será cobrado nas provas, será exigido nos exames e nas avaliações: vestibular, concurso, seleção.

Ah! Então está explicado! Quer dizer que é aí que reside todo o segredo: somos forçados a aprender aquelas coisas estranhas que não têm nenhuma aplicabilidade prática, por isso mesmo as detestamos, apenas porque temos que prestar contas num exame. Isto é no mínimo muito triste.

Concordo que algumas matérias são essenciais como, por exemplo: o estudo acurado da língua ou, até mesmo, outras desde que sejam, num futuro, usadas na profissão que o cidadão escolher. Creio que aí resida a grande dificuldade.

Sou das áreas: educacional e jurídica, embora não esteja lecionando há muito tempo e nem advogando, no momento. Fico, então, pensando: um Juiz, por exemplo: para fazer a prova do concurso, estuda e tem que entender e decorar um mundo de coisas para ser aprovado nas tais avaliações. Porém, quando vai despachar ou sentenciar ele pode consultar os códigos, a jurisprudência, ver matérias sobre o assunto, sentenças de outros juízes já transitadas em julgado, consultar matérias disponibilizadas nos livros, revistas, internet…

É justo? É correto perdemos nosso tempo de formação mais importante de nossas vidas aprendendo coisas que não nos agradam e nem vão influenciar em nada nas nossas futuras profissões, enquanto poderíamos aproveitar o precioso tempo, recurso, inteligência e vontade para nos preparar para a vida?

Sei não. Repito o grande Sócrates citado por Platão. “Eu só sei que nada sei”.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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