GAYS ASSASSINADOS

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GAYS ASSASSINADOS

Araripe Coutinho*

Gays são presas fáceis. Muitos não acham. A série de assassinatos contra gays nos deixa a impressão de que só acontece com o vizinho. Quando vem a notícia sabemos que pode acontecer com qualquer um. Gays são vítimas, mas também são fracos. Tenho dito que o sexo diminui o ser, – contestado muitas vezes, as pessoas dizem que não. Que o sexo é bom se existe amor. Raros são os gays que transam por amor. O instinto, o animal, a consciência culpada, a necessidade de impor as regras e dar vazão ao desejo impulsionam o gay para o abismo. Sempre digo que o oco que fica depois do gozo, daquele minuto que chamam êxtase, o vazio, o nada, faz com que o ser  e não só especificamente o gay ponha mão na ferida que é a necessidade do gozo e/ou a preservação da sua vida. Dizia Hilda Hilst que o sexo diminuiu o ser humano. Fui muito tempo resistente a esta teoria, mas depois comprovei que o sexo não dignifica, não melhora, não alivia, – embora nos ensinam que é o contrário, – que ele alivia, que ele é bom e que mesmo com o advento da AIDS, da gravidez inesperada, do câncer do colo do útero e etc, o sexo é tido como programação de felicidade, pouco zelo para com o outro, desde que o seu ápice orgástico esteja garantido.

Gays precisam de cuidados. Familiares, religiosos, conjugais, de amigos. O que se vê é que o gay, mesmo numa  sociedade dita evoluída é discrepante, aviltante, inconcebível. Mesmo que o discurso seja diferente,  o gay é sempre o digno de pena, o possessivo pelo sexo, a ovelha negra. Mais marcante ainda não é o gay com trejeito, assumido, com roupas femininas, voz fina e andar lady di, o mais preocupante é o gay casado, bigodudo, que odeia cumprimentar gays afeminados, sempre fala mal de bichas e veados, faz malhação, joga tênis, faz surf, tem sempre muitos filhos todos de preferência muito bem encaminhados com garotas lindas, mas ele gosta mesmo é do Ricardão. Aí é que mora ainda mais o perigo. O dito bofe sai com o machão, que quase sempre são bons amigos que vão jogar bola e beber uma cerveja, enquanto a mulher fica lendo a Caras e a Cláudia.Do alto do relacionamento dos dois “heteros”, um sente que o outro é a vítima, o apaixonado, o amor que não ousa dizer o nome no dizer de Oscar Wilde, e parte muitas das vezes para a chantagem, para a posse. Homens gays assim gostam de fazer do outro a mulherzinha, como regime de posse, achando que ele passa a “comer” o proibido e que o outro só “dá” para ele. Daí nasce um monte de fetiches, surubas com mulheres para provarem que é o mais viril e muitas das vezes como temos visto, acaba em crime. Nem todo crime vira manchete, muitos nem estatística. O que tem se visto é que advogados, médicos, funcionários públicos têm cada vez mais se envolvido com estes tipos, que não obstante o perigo de cada um de nós, têm sido vítimas de sua própria dissimulação da sexualidade. A família, como sempre, ao descobrir fica em pânico, humilhada naturalmente que se sente de ver o pai naquela situação de extrema compaixão e comoção social.

O que o gay precisa é sublimar o desejo incontido da carne pela arte, criação, debates e se exilar. A sociedade é castradora, não  permite mesmo massacres, mas os promove a cada propaganda de Tv, manchete de jornais  e lançamentos de atores globais. Gays não são pervertidos. Heteros também o seriam. Mas precisam os gays, ao primeiro sinal de uso de crack e drogras afins, necessidade extrema de dinheiro e sempre a mesma ladainha de estar precisando de alguma coisa no plano econômico ficar atento. Talvez seja o termômetro para desaproximar o objeto do desejo, da cilada final.

O que preocupa é que não há alternativa para o gay. Ou sublima-se a carne e tenta um outro caminho, ou vulneravelmente vão ser massacrados e humilhados pelo dito amante. Negros também são torturados dia a dia, mulheres agredidas com vaginas cortadas e a sociedade amplia o foco quando não consegue colocar os culpados atrás das grades.

Vítimas e culpados vivemos uma atmosfera de medo.Rendidos e mártires buscamos nossos heróis, emudecidos que ficamos. Cabe a cada um dominar o leão, até porque a nossa “luta não é contra o sangue nem a carne, é contra as potestades malignas.”

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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