Pataqueiros: trabalho, memória e resistência em Itabaiana-SE

Jairton Peterson Rodrigues dos Santos

Professor do Instituto Federal de Sergipe – Campus Aracaju

Membro do NEABI – IFS

Mestre em Ensino de História – UFS

Itabaiana, localizada no agreste sergipano, a aproximadamente 54 quilômetros de Aracaju, consolidou-se historicamente como uma das cidades mais dinâmicas do interior nordestino. Reconhecida nacionalmente pela força de sua economia popular, pela grandiosidade de sua feira livre e pelo título de “Capital Nacional do Caminhão”, conferido pela Lei Federal nº 13.044/2014, a cidade transformou-se, ao longo do tempo, em símbolo de circulação, comércio e trabalho. Entretanto, antes do asfalto cortado por caminhões, do ouro que movimenta o comércio e da pujança econômica contemporânea, existia uma outra Itabaiana: uma cidade moldada pelo barro da roça, pelo peso das enxadas e pelo corpo cansado daqueles que a história oficial quase nunca nomeou, os pataqueiros.

A palavra “pataqueiro” nasce da “pataca”, antiga moeda que circulou no Brasil Colônia e no Império, posteriormente convertida em expressão popular para designar quantias pequenas, trocados ou pagamentos irrisórios. Em Itabaiana, o termo passou a identificar os trabalhadores que “ganhavam o dia de pataca”: diaristas rurais, trabalhadores avulsos, pequenos camponeses e homens sem-terra que percorriam sítios oferecendo sua força de trabalho em troca de uma remuneração quase sempre insuficiente. Eram responsáveis pelas tarefas mais duras da agricultura: derrubada de mato, limpeza da mandioca, preparação da terra, colheitas e serviços braçais que sustentavam silenciosamente a economia agrária da região.

Do ponto de vista histórico, a existência dos pataqueiros está diretamente ligada à própria formação socioeconômica de Itabaiana. Desde o período colonial, com a distribuição de sesmarias às margens do rio Jacarecica e a consolidação da Vila de Santo Antônio e Almas de Itabaiana, no século XVII, passando pela elevação à categoria de cidade em 1888, a terra tornou-se elemento central das disputas econômicas e das relações de poder. Enquanto determinados grupos acumulavam patrimônio por meio do comércio, da criação de gado e das atividades mercantis, outros sobreviviam a partir de relações precárias de trabalho, como a meação, a parceria agrícola e o ganho diário.

Nesse cenário, o pataqueiro emerge como figura social profundamente simbólica. Ele representa não apenas o trabalhador pobre do campo, mas a própria engrenagem invisibilizada que sustentou a construção econômica de Itabaiana. Seu corpo carregava marcas da seca, do sol e do esforço físico, mas também os saberes da terra, os ritmos da agricultura e as estratégias coletivas de sobrevivência típicas do campesinato nordestino.

Muitas vezes chamados de “tabaréus” de maneira pejorativa, os pataqueiros foram historicamente associados ao atraso, à ignorância ou à rusticidade. Contudo, há uma ironia profunda nesse processo: enquanto eram vistos como periféricos, eram justamente eles que garantiam o funcionamento do centro econômico da cidade. Foram suas mãos que plantaram os alimentos da feira, abriram estradas rurais, sustentaram pequenas propriedades e movimentaram parte significativa da economia local antes da modernização do município.

Ainda hoje, em Itabaiana, o termo “pataqueiro” permanece vivo na memória coletiva. Algumas pessoas se autointitulam pataqueiras com orgulho, como marca de pertencimento, resistência e identidade popular; outras ainda recebem essa designação como forma de classificação social. Em ambos os casos, a palavra carrega séculos de memória, desigualdade e luta. Ela atravessa gerações como uma espécie de herança simbólica do trabalho duro, da sobrevivência cotidiana e da dignidade construída a partir do pouco.

Falar dos pataqueiros é, portanto, falar da memória profunda de Itabaiana. É reconhecer que nenhuma cidade cresce apenas pelo capital ou pelos grandes negócios, mas também pelas mãos anônimas que abriram caminhos, plantaram alimentos e sustentaram gerações inteiras.

Porque antes do ronco dos caminhões e do brilho do comércio, foi o silêncio cansado dos pataqueiros que moveu Itabaiana.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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