ILUNGA E A DANÇA DOS PARTIDOS POLÍTICOS

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Mal terminadas as festas juninas, o Brasil foi sacudido por outro festejo porreta, considerado como a maior folia que antecede o “Grande Festival das Eleições”. Falo da tradicional “Dança dos Partidos Políticos”, onde todos os foliões buscam conquistar o maior número possível de parceiros aptos a se tornarem ganhadores das prendas colocadas em disputa, especialmente os cobiçados títulos de alcaides. Ela é também considerada como uma espécie de “Ensaio das Baterias”, pois somente a partir dela todos passam a conhecer e decorar o enredo, as propostas, os favoritos e os possíveis destaques que desfilarão pelas avenidas políticas brasileiras. Para quem dela não tomou conhecimento, até porque abstêmio a todo tipo de folguedo, esclareço que a deste ano já aconteceu, inclusive provocando surpresas impressionantes e impensáveis no passado. O seu apogeu ocorreu no dia 05 de julho, data em que terminou o prazo para registro dos dançarinos concorrerão ao Festival, embora, como já esclareceu o dançante Elber Batalha, não se saiba ao certo a hora exata em que realmente. E para quem não participou ou tomou conhecimento, aviso que perdeu uma das mais diferentes dos últimos anos, embora tenha igualmente rolado muitos flertes, conquistas, choros, decepções, traições, denúncias, arrasta-pés e muitas confusões. A maior inovação, sem medo de errar, foi a transformação do PT no maior galã da “Dança dos Partidos Políticos”, tendo sido objeto de cobiça de vários dançarinos, inclusive daqueles que anteriormente dele se aproximava apenas para poder pisar nos seus pés. Outra novidade foi o fato de que, desta vez, o PT também aceitou a corte de seus antigos desafetos, inclusive fazendo parceria, em várias pistas de dança espalhadas pelo país, com o PSDB. Parcerias entre dançarinos que se diziam adversários não faltaram, a exemplo do dançar coladinho de José Serra com o histórico malufista Gilberto Kassab, ex-Secretário de Planejamento de Celso Pitta, ou mesmo o da ex-prefeita Luiza Erundina com o ex-governador Orestes Quércia. Mas exótica mesmo foi a “Dança” que aconteceu em Aracaju, pois, inexplicavelmente, vários foliões tradicionais desistiram antecipadamente da disputa. Afinal, quem poderia imaginar que o PFL do Governador João Alves, o PDT do Senador Almeida Lima e o PSDB do ex-Governador Albano Franco não iriam indicar dançarinos para a peleja festiva principal? E o que é mais estranho, que tenham cedido seus lugares para partidos sem tradição ou potencial festivo, como os desconhecidos PT do B, PRP e PRONA. Talvez tenham poupado o fôlego para o “Grande Festival das Eleições de 2006”, pois os prêmios em disputa são mais tentadores e cobiçados. Talvez estivessem com medo de enfrentar diretamente o pé-de-valsa Marcelo Déda, o que atrapalharia seus planos futurísticos, especialmente se derrotados ainda na fase de classificação. Talvez porque a “Dança dos Partidos Políticos” seja assim mesmo, ou melhor escrevendo, os parceiros da vez são aqueles possíveis ou disponíveis em cada momento ou sucesso musical tocado. Aliás, quem teve o prazer de ler alguns dos imperdíveis livros do professor-historiador Ibarê Dantas, especialmente “Eleições em Sergipe”, sabe que em Aracaju a “Lei do Fico” sempre prevaleceu. Não aquela em que o Regente Pedro decidiu ficar no Brasil, transformando-se em personagem importante da História, e assumindo o pomposo nome imperial Dom Pedro I. O “fico” que caracteriza as eleições municipais de Aracaju é aquele conhecido dos adolescentes, em que os parceiros e juras de amor duram a eternidade de uma noite ou de um festival eleitoral. Acho até que a melhor palavra utilizada para designar as alianças partidárias em Aracaju é aquela que o site Today Translations, através da escolha efetuada por 1.500 tradutores, apontou como sendo a de mais difícil tradução do mundo. Falo da palavra ilunga, do bantu (falado em parte do Congo e no Zaire), que significa a “pessoa capaz de perdoar qualquer abuso na primeira vez, tolerar na segunda, mas não na terceira”. Só que em Aracaju também foi criada a variante bilungar, pois na “Dança dos Partidos Políticos” há sempre espaço para novas tolerâncias, ainda que os abusos ocorram várias e repetidas vezes. * Cezar Britto é advogado, conselheiro Federal da OAB e presidente da Sociedade Semear. cezarbritto@infonet.com.br

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