INTERNAMENTO PSIQUIÁTRICO

INTERNAMENTO PSIQUIÁTRICO

 

Araripe Coutinho

 

Psiquiatria é uma especialidade da Medicina que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação das doenças mentais em humanos, sejam elas de cunho orgânico ou funcional, tais como depressão, doença bipolar, esquizofrenia e transtornos de ansiedade. A meta principal é o alívio do sofrimento psíquico e o bem-estar psíquico.  Isto é o que está na Wikepédia. A dificuldade no Brasil em acompanhar um paciente para internamento é grande. Claro que mudou muito o procedimento e para melhor. Tanto no Sus como em clínicas particulares, qualquer que seja a patologia psiquíca, com a nova legislação em vigor clareou alguns focos, onde o doente era sempre e quase um condenado. As aberrações ainda são muitas apesar das tentativas de avanço. Para se internar um paciente vive-se uma verdadeira via-crucis, isso quando o paciente quer ser internado. Quando não, precisa-se do Samu, do corpo de bombeiros, de uma guia específica do serviço  especializado do Estado ou da Prefeitura e da integração desses.. Quando o Samu chega à casa do paciente, o corpo de bombeiros não chega ou vice-versa. O sistema é falho, inoperante. E quando chega à clínica de internamento mistura-se sintomas graves com outros nem tanto. Drogados, acusados de crimes passionais, maníaco-depressivos – todos são colocados num mesmo balaio de gatos. Claro que acredito que a clausura não é remédio. Não resolve. Mas em certos casos, e só sabe quem tem um familiar, um amigo, um vizinho por perto, não tem jeito , a internação é necessária. Não tem como controlar um maníaco depressivo agressivo, por exemplo. Mas o mais importante é não abandonar o paciente nunca na clínica. Não deixá-lo sentir-se desprezado. Aí entra a família, os amigos, a igreja. O que tenho percebido é que dado à ignorância, a família quer sempre se livrar do problema. Acha que “o louco” é um caso que envergonha, agride o seu  status quo,  fere os princípios da normalidade. Entendível que pensamentos divirjam em relação ao caso. O internamento psiquiátrico em que esfera for, é sempre um sofrimento para os mais próximos, é uma quase ida sem volta, um retrato que  estava adormecido e começa a ser revelado. Aí é que entra o amor que a tudo supera. Não se pode deixar pra lá. Querer comparar “o louco” a um chantagista, a um denegridor de imagem, a um insano que não soube segurar a onda. Ali, na clínica, ele se submeterá aos diversos tratamentos, quase sempre, todos muito distantes. Tem aquele médico que o atende com a prancheta na mão. Sempre com fenergan, aloperidol ou hidol. A butiferona, peparizana pura na veia vai amortecer o paciente. É como um freio nos impulsos. Mas o carro só pára. Quase sempre o sintoma não é cuidado e aí fica a lerdeza, a sensação de profundo abandono, numa real esquizofrenia onde o mundo é apena uma mera aparência. Clínicas não são ainda preparadas para lidar com as centenas de casos, ímpares quase todos, díspares e multifacetados. Os Caps têm sido uma vitória do Estado. O Município de Aracaju, por exemplo, tem implantado políticas sérias voltadas para os desassistidos do sistema, da família, da sociedade. O da Atalaia é um exemplo. Claro que os profissionais precisavam ser mais bem remunerados, os ambientes mais amplos e arborizados e programação que inserisse de novo o internado à razão ou à aparente leveza. Apesar de tudo, os Caps vivem uma nova visão de humanismo, buscando salvar o “especial” do achincalhe, do exílio, do abandono. Como somos uma sociedade castradora, onde diferentes têm que ser amordaçados e levados ao calabouço, os Caps precisam de maior atenção e profundo reconhecimento da classe médica, da sociedade civil constituída e dos meios de comunicação. Claro que há ainda deficiências, processos de modernização a ser atingidos, separação e aí vem de novo o apartheid, sintomas e sintomizados, médicos, enfermeiros, assistentes sociais e motivadores multivacionais. A questão da psiquiatria no Brasil ainda é um caso de aberração. Principalmente para os pobres e advogados viciados que colocam em “manicômios” assassinos e perversos criminosos, justificando que são loucos para amenizarem as suas penas. O austríaco Josef Fritzl, por exemplo, foi condenado a prisão perpétua e a internamento psiquiátrico pelo Tribunal de Sankt-Poelten por sequestro e violação da filha durante 24 anos e pelo homicídio de um filho nascido da relação incestuosa. O sistema é cruel, excludente e não difere muito das formas encontradas pelos psiquiatras para “cuidar” sem “curar” os pacientes. “A terapêutica psiquiátrica evoluiu muito nas últimas décadas No passado os pacientes psiquiátricos eram hospitalizados em Hospitais psiquiátricos por muitos meses ou mesmo por toda a vida. Nos dias de hoje, a maioria dos pacientes é atendida em ambulatório (consultas externas). Se a hospitalização é necessária, em geral é por poucas semanas, sendo que poucos casos necessitam de hospitalização a longo prazo.”  Isto entre aspas também está na wikepédia. O fato é que existe muito preconceito ainda em relação a surtos psicóticos, esquizofrenias, obsessões e compulsões. A sociedade, é bem verdade, ainda não sabe lidar com isto. A própria medicina vive o glamour do psiquiatra lacaniano, freudiano, youngiano. O psiquiatra é quase sempre um arquiteto, um design de interiores que vive a pseudo apoteose de vistoriar as mentes humanas, sem se incoporar a elas, porque tudo ouve e nada fala ou tudo sabe e nada cura. Posto isso é comum que fenômenos paranormais em pacientes levem os médicos e familiares a buscar o internamento. Ouvir mortos, conversar com eles, falar de entidades  do candomblé, achar de repente que são budas, krisnas, shivas e Cristo diferem e muito do pré-estabelecido como normal. O caminho resultante de internamento psiquiátrico no Brasil é penoso. Longe de ser um ideal, o sistema não gosta mesmo de lidar com o pensamento, a idéia, o sentimento ou tudo que advenha do cérebro. Loucos todos nós sabemos, – somos. Fernando Pessoa dizia que “só a loucura é que é grande”. Longe da epopeiatização da loucura há um silêncio solene e duradouro em torno dos transtornos ditos mentais. Cruéis em nossa forma de separar o joio do trigo, imersos que somos no medo dos nossos próprios surtos deixamos esta história sempre ao deus dará.  A busca da sanidade reside em algo que perdemos lá atrás, em nós mesmos talvez. Fracasso de nossa existência como escravos que somos dos ditos racionais. Experimentados que não fomos ainda pelas iluminações no inferno de que um dia falou Arthur Rimbaud.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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