Moinho devastador de reputações

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Há uma frase de Iago, o personagem vilão de “Otelo o Mouro de Veneza”, tragédia de William Shakespeare, que estou sempre a relembrar em momentos de descrença e a esquecer quando o otimismo me alcança.

Ela se refere à reputação, conceito que margeia um renome, em critério avaliador de estima e fama.

Diz nela o Iago: – “A reputação é um apêndice ocioso e enganador; obtido, muitas vezes, sem merecimento, e perdido sem nenhuma culpa”.

Colocada aridamente sem examinar o contexto, a frase pareceria sábia de um pragmatismo notável.

O Iago, todavia, em confissão de si e para si mesmo, definir-se-á em verdadeira e definitiva sinceridade: “Nunca mostro quem sou”.

Anima-lhe a falsidade, afinal o seu interesse é galgar os postos atraiçoando seus superiores.

Neste sentido a reputação surgira num momento de fragilidade de Cássio, o lugar tenente de Otelo, o general e comandante das forças venezianas contra os turcos.

Cássio cometera um deslize que desagradara o seu comandante e isso lhe parecia uma falta tamanha, a ponto de se lamentar qual uma cruel chaga a abalar-lhe a reputação.

“Reputação, reputação, reputação!” – Grita Cássio –  “Perdi a reputação, perdi a parte imortal de mim próprio, só me tendo restado a bestial. Minha reputação, Iago: minha reputação”.

Para Iago, enquanto cidadão comum, conhecedor das mazelas humanas, um ferimento no corpo produz muito maior prejuízo que uma chaga na reputação, afinal a reputação para si é um “apêndice ocioso e enganador”.

Da reputação perdida, sempre se poderá recuperar, reafirma Iago. “Há muitos meios de recuperar a estima do general (Otelo); fostes repreendido apenas num momento de mau humor; um castigo aplicado, mais por considerações de ordem geral do que por maldade. Implorai-lhe perdão e ele se tornará vosso outra vez”.

Segundo o escritor inglês William Hazlitt (1778 -1830), citado pelo ensaísta americano, Harold Bloom, em sua obra “Shakespeare: a invenção do humano” (Editora Objetiva  LTDA 2000),  Iago pertence “a uma classe comum e típica em Shakespeare, a saber: de indivíduos dotados de uma mescla de intensa atividade intelectual e total ausência de princípios morais, e que ganham evidência às custas de terceiros, tentando confundir as fronteiras práticas entre o bem e o mal, baseando-se em padrões forçados de sofisticação especulativa”.

Para Hazlitt, “algumas pessoas, mais inocentes do que sábias, acham o Iago um personagem antinatural”.

“É um engano que “Shakespeare, tão bom filósofo quanto poeta, se pudesse, discordaria”.

E tal discordância se daria também hoje, duzentos anos depois, nesses nossos tempos de mútua aceitação e comunhão de dissenso, porque segundo aquele refletir de Hazlitt, o fascínio pelo poder, igualado ao arrebatamento pelo mal, continua inato, seja nas brincadeiras dissimuladas e perversas de crianças, quando o bullying tem que ser contido, ou quando vemos adultos se refestelando com relatos bárbaros de desastres terríveis nos jornais de assassinatos cruéis, a aguçar-lhes a imaginação, no rádio e na televisão.

Não seria de mesmo refestelo, a indiferença entre o bem e o mal, a preferência velada pelo último, ser o Iago, o personagem favorito, frente a Otelo, o herói destemido devastado pela incerteza do que é e do que aparenta?

Otelo é o general corajoso, um homem de grande estirpe, um negro enclausurado em uma fragilidade recalcada, que não se contempla em condições de despertar o amor e a fidelidade de Desdêmona, a bela veneziana de sua paixão.

Mas, “quando os diabos querem dar corpo aos mais nefandos crimes, celestial aparência lhes emprestam”.

E o ciúme,  “o ciúme é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive”.

Ciúme que levaria Otelo a esganar sua amada, num amor louco ensandecido, tão comum aos crimes passionais.

Deixo, contudo, a trama mórbida de Otelo, para me prender à reputação perdida e a tantos que manobram para a destruição de homens, sejam estes comandantes e governantes.

Nesta quarta-feira, 27 de março, o Congresso Nacional, por seus Presidentes, maiores ou menores, resolveram desagregar o Governo Bolsonaro.

Se na semana anterior houve uma certa algaravia no noticiário com a prisão do Ex-Presidente Temer e vários nomes do seu entorno, acusados longamente de corrupção por extensão da chamada “Operação lava-jato”, logo todos foram liberados, numa decisão recursal, que acusara a dita prisão como “caolha”.

Estrabismos à parte, tentou-se assestar um dardo desmoralizador sobre o Juiz Bretas, de modo a enodoar-lhe a reputação, enquanto exemplar magistrado que se notabilizou por eficiência e coragem no combate ao crime.

Vê-se pela análise dos fatos, que há um repulsa ao proceder de juízes como Moro ou Bretas.

Em sequência a tudo isso, vimos a desmoralização de dois Ministros destacados do Governo Bolsonaro; o Juiz Sérgio Moro, rebaixado pelo Deputado Rodrigo Maia a mero empregado, serviçal ou borra-botas do Presidente Bolsonaro, e o Economista Paulo Guedes, tratado com desapreço igual pela Comissão da Câmara de Deputados que irá analisar a Reforma da Previdência, e que não consegue escolher nem mesmo o seu relator.

Em tratativas semelhantes à de Iago, que manobrava Cássio para fulminar Otelo, o objetivo de Maia em tantos desleixos, todos o sabemos: é a desmoralização; do Juiz e do Economista, para mais rápido desestruturar o país, enxotá-los se possível, provocar um novo golpe da democracia, enquanto os problemas nacionais se agravam.

O Presidente Bolsonaro, igual a Otelo, o tolo General, facilmente iludido e manipulável, está sendo dilacerado por tantos Iagos ao seu redor que querem substituí-lo na Presidência da República.

Anima ao Capitão reafirmar as teses que o elegeram à Presidência, contra tudo e todos, como isso mantivesse a incolumidade de suas redes sociais incomodativas.

Querem enclausurá-lo numa camisa de força; fazê-lo desistir da Reforma da Previdência, da redução da maioridade penal, da liberação da venda de armas, das medidas contra o crime e conseguir o seu perjúrio do movimento militar de 1964.

O curioso é que ninguém ao seu redor parece seguir ao seu comando.

Pela solidão e vulnerabilidade de seus Ministros Moro e Guedes, jogados às feras, num processo devastador de reputação e tantos militares encolhidos nos seus galardões, parece que há um clima de Fora Bolsonaro já latente no próprio batente.

Deixando a tragédia anunciada por tal moinho devastador de reputações, e enveredando pela comédia constatada, em tantas trapalhadas denunciadas, estará o Capitão Bolsonaro comandando um exército igual ao de Brancaleone?

“O Incrível Exército de Brancaleone”, só para lembrar, é o nome de uma das comédias mais satíricas dos anos 60, filme dirigido por Mario Monicelli e estrelado por Vittorio Gassman, no qual o Capitão Brancaleone comanda um grupo de maltrapilhos e estropiados, combatendo a fome, a peste e o medo, em busca de um feudo perdido, inatingível, na longínqua Idade Média.

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