Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantora: MARIA RITA
CD: “CORAÇÃO A BATUCAR”
Gravadora: UNIVERSAL

Após lançar disco morno somente para cumprir final de contrato com a antiga gravadora (“Elo”, de 2011) e de mergulhar na obra da mãe, a insuperável Elis Regina (“Redescobrir”, de 2012), esperava-se que Maria Rita voltasse ao tereno fértil da MPB, caminho por ela trilhado em seus dois primeiros discos (“Maria Rita”, de 2003, e “Segundo”, de 2005). Mas qual nada! Surpreendendo o mercado e o público em geral, a artista resolveu voltar a pisar firme no celeiro do samba, coisa que ela já tinha feito anteriormente, obtendo grande aceitação comercial (“Samba Meu”, de 2007).
Desta forma, ela gravou praticamente em surdina no final do ano passado e fez chegar às lojas recentemente o CD “Coração a Batucar” (título, alliás, de uma das únicas duas músicas inéditas constantes do repertório do já citado “Elo”), um lançamento da gravadora Universal. Produzido por ela própria e com os arranjos assinados por Jota Moraes (músico que trabalhou muito tempo com o saudoso Gonzaguinha), o álbum é composto por treze faixas, todas elas executadas por uma banda composta por Davi Moraes, o atual marido da cantora (na guitarra), Alberto Continentino (no baixo), Wallace Santos (na bateria), Rannieri Oliveira (nos teclados), André Siqueira e Marcelinho Moreira (ambos na percussão).
Boa tanto nas divisões quanto no molejo, no timbre Maria Rita cada vez mais lembra a mãe. E como a Pimentinha, sabe o que está cantando. Parece gostar mesmo de samba e isso não fica restrito a algumas letras afirmativas. Se o disco for bem aceito, provavelmente virá um terceiro nessa seara, resultando, assim em uma trilogia. Não deixa de ser uma opção arriscada da cantora porque se ela pode continuar a se aproximar de uma camada mais popular de público (e deve ser mesmo por aí o intuito), por outro lado uma fatia mais chegada à MPB tradicional (que consome menos, mas ainda é a parcela formadora de opinião nacional) pode riscá-la do seu restrito circuto de escolhidas.
Mas o fato é que o CD é bem legal e não dá para deixar de reconhecer isso. Muito por conta do repertório selecionado de maneira sábia, o qual foi apropriadamente recolhido entre os melhores criadores de samba da atualidade. Estão lá, entre outros, Arlindo Cruz, Fred Camacho, Magnu Sousá, Maurílio de Oliveira, Serginho Meriti, Xande de Pilares, Leandro Fab e Rogê, compositores que frequentam com assiduidade discos de Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Mart’nália, por exemplo, estes três grandes representantes do gênero. E Maria Rita ainda achou espaço para incluir canções atuais da lavra de Rodrigo Maranhão (“Fogo no Paiol”) e Joyce Moreno (“No Mistério do Samba”), dois ótimos momentos, além de uma verdadeira pérola assinada por Noca da Portela (“Vai, meu Samba”, parceria com Sergio Fonseca).
O CD se abre e fecha em grande estilo: se em “Meu Samba, Sim, Senhor”, a cantora declara a plenos pulmões o seu desejo de levar a alegria para o povo brasileiro através do samba, em “É Corpo, É Alma, É Coração”, ela assume que não nasceu no samba, mas o que que importa é que o samba nasceu nela.
No recheio, ela reconhece que Deus deve estar cansado com os habitantes da Terra (em “Saco Cheio”), assume o ciúme da barraqueira (em “No Meio do Salão”), aconselha as lágrimas para lavar a alma (em “Abre o Peito e Chora”), anuncia que se deve ter cuidado com certas palavras (“Nunca se Diz Nunca”) e assume ter recebido ensinamentos maternos de respeito à natureza e ao Criador (em “Mainha me Ensinou)”. Convém frisar que todas essas canções possuem grande potencial para se transformar em sucesso. 
Enfim, um CD bem feito por Maria Rita que segue em frente, pedindo passagem a todos com mais um disco de samba…

N O V I D A D E S

* A excelente cantora Alaíde Costa estará lançando em breve um CD cujo repertório de quatorze faixas se alimentará de parcerias dela com Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Geraldo Vandré, Hermínio Bello de Carvalho e Johnny Alf, entre outros. O projeto contará com as participações especiais da cantora Adyel Silva e do pianista Gilson Peranzzetta.

* Lucy Alves é cantora, compositora e instrumentista (toca com destreza acordeão e piano) e foi uma das finalistas da segunda edição do programa ”The Voice Brasil’, levado ao ar pela Rede Globo no ano passado. Não obstante ser louvável a iniciativa de se abrir espaço para novos talentos, não dá mesmo para levar muito a sério um programa nacional que, já no nome, traz o idioma inglês predominando. Assim, dos concorrentes que chegaram à final, independente de extensão vocal e presença de palco, Lucy mereceu destaque por ser a única que realmente representou a nossa brasilidade. Jovem e paraibana, a morena bonita foi logo em seguida contratada pela gravadora Universal que ora faz chegar às lojas o seu primeiro CD, gravado sob a direção de Alexandre Castilho. Não é de hoje que eu venho insistindo, inclusive neste espaço, que há muito existe uma lacuna na nossa MPB no que tange mais especificamente a um nome feminino que venha a honrar o legado de Elba Ramalho e Amelinha. Desde que elas surgiram, na transição dos anos setenta para os oitenta do século passado, nenhuma outra cantora lhes sucedeu. Talvez agora os grandes entendidos tenham aberto os olhos para isso e é fato que o investimento (leia-se: marketing) em cima de Lucy vem sendo feito com profissionalismo. Boa cantora, embora não possua um timbre que a diferencie de outras tantas, seu maior charme é se apresentar com o acordeão atrelado ao peito. O recém-lançado álbum infelizmente não contribui muito para que o público descubra o seu real talento. É que das doze faixas escolhidas para compor o repertório, dez delas recaem sobre regravações de canções muito conhecidas. Eternizadas por seus intérpretes originais em registros antológicos, fica difícil para Lucy contribuir, por exemplo, com suas versões para “Frevo Mulher” (de Zé Ramalho), “Qui Nem Jiló” (de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) e “Festa do Interior” (de Moraes Moreira e Abel Silva). E ainda que “Tropicana” (que conta com a participação especial de Alceu Valença) traga inusitados lampejos de reggae e “Ai que Saudade de Ocê” (de Vital Farias) surja esboçando células de maracatu, esses detalhes se mostram pequenos para se fazer cativar. Melhor sorte teve Lucy com as novas versões de “Olhos nos Olhos” (de Chico Buarque) e “De Volta Pro Aconchego” (de Dominguinhos e Nando Cordel), ambas ganhando em ritmo sem perder a singeleza. Único tema autoral, “Amor a Perder de Vista” soa mediano se comparado à outra canção inédita: a bem construída toada-canção “Se Você Vai, Eu Vou” (de Carlinhos Brown e Marisa Monte). Lucy Alves pode mais e é capaz de a gravadora até estar certa ao optar inicialmente por esse caminho de cópia, mas o primeiro passo nesse sentido soa, de fato, muito arriscado para uma artista que precisa sedimentar seu próprio caminho para conseguir um espaço dentro de seu nicho musical. A conferir, então, os próximos capítulos!

* A cantora e compositora Joyce anuncia que está trabalhando em dois novos discos. Um se intitulará “Raiz” e, influenciado pela batida da Bossa Nova, contará com a participação especial de Roberto Menescal e terá a base sedimentada pelo baixista Rodolfo Stroeter e pelo pianista Hélio Alves. O outro álbum foi gravado nos Estados Unidos no mês passado e trará a artista acompanhada pelo piano de Kenny Werner.

* Caberá à gravadora Sony Music lançar, provavelmente ainda este ano, o CD que reunirá os talentos de Fagner e Zé Ramalho. O projeto, que é desejado por ambos desde 2012, será produzido por Robertinho de Recife e centrará o repertório nos sucessos dos dois cantores e compositores.

* Ainda que nada mais tivesse feito, o cantor e compositor Tavito já merecia integrar um capítulo especial da música popular brasileira por ter sido o autor de duas das mais belas canções do nosso cancioneiro: “Casa no Campo” (parceria com Zé Rodrix) e “Rua Ramalhete” (feita ao lado de Ney Azambuja). Mas o artista que, ao lado de Wagner Tiso, Zé Rodrix, Fredera, Luiz Alves e Robertinho Silva, integrou, nos anos setenta do século passado, a banda Som Imaginário, a qual fundia rock progressivo e música mineira, se notabilizou também por conta dos inúmeros jingles famosos que criou ao longo de sua carreira, como, por exemplo, “Marcas do que se Foi” e “Vem pra Caixa Você Também!”. Embora com décadas de estrada, ele lançou poucos discos e o mais recente deles acaba de chegar ao mercado com distribuição da Tratore. Trata-se do excelente CD intitulado “Mineiro”, o qual, sob a produção de Edu Malta, se faz composto por quatorze faixas. A única canção alheia é “Sábado”, de autoria do já citado Fredera. As demais foram compostas pelo próprio Tavito, ora sozinho, ora ao lado de vários colaboradores, a exemplo de Renato Teixeira, Léo Nogueira e do também já antes mencionado Zé Rodrix. Entre os destaques estão “Sensual” (criada com Aldir Blanc), “Está na Pele” (composta com Ricardo Magno) e “Meu Lugar”. Mas “Na Beira da Canção”, “Tudo e Nada” e “Parece Quase Nada” (parcerias com Luhli, Gilvandro Filho e Alexandre Lemos, respectivamente) também se consolidam como ótimos momentos. Em “Adrenalina Pura” (feita com Juca Novaes), há a participação especial da cantora Renata Pizi. Um CD acima da média que merece de fato ser conhecido!

* São somente o violão e a voz grave e bonita de Dori Caymmi que se ouvem no CD ”Setenta Anos”, recém-lançado pela gravadora Acari Records. Treze canções inéditas do filho do meio de Dorival Caymmi em parceria com o talentoso e incansável Paulo César Pinheiro compõem o repertório do álbum que serve para marcar, conforme o título já induz, suas sete décadas de vida completadas no ano passado. Embora os versos passeiem por temas aparentemente simples, a forma poética com que são abordados salta aos olhos. Sempre discreto, o cantor, compositor, instrumentista e produtor se mostra em plena forma artística e pelo menos quatro faixas já se credenciam para se tornarem clássicos do nosso cancioneiro: “Alguma Voz” (que constará do próximo CD de Maria Bethânia que será lançado no segundo semestre), “Manto Real”, “Dia e Noite” e “O Passo da Dança”. Realmente super aconselhável para quem aprecia música de qualidade!

* Djavan está lançando, através da gravadora Sony Music e nos formatos CD e DVD, o registro do show “Rua dos Amores – Ao Vivo” realizado em novembro do ano passado no HSBC São Paulo. Embora a voz já não possua o mesmo brilho e vigor de antes, o cantor e compositor alagoano demonstra louvável alegria em estar no palco, sendo acompanhado em coro pelo séquito de fãs em várias canções de sua própria autoria que marcaram gerações, a exemplo de “Meu Bem Querer”, “Oceano”, “Serrado”, “Flor de Lis”, “Samurai”, “Seduzir”, “Se” e “Sina”. Do seu mais recente CD de estúdio, o qual deu origem ao show ainda em rotação pelo país, ele resgata “Pecado”, “Já Não Somos Dois” e “Ares Sutis”. Acompanhado por uma banda coesa formada por verdadeiras feras (Paulo Calasans e Glauton Campello nos teclados, Carlos Bala na bateria, Marcelo Mariano no baixo, Torcuato Mariano na guitarra, Jessé Sadoc no trompete e flugelhorn e Marcelo Martins no sax) que conhecem bem o seu som recheado de paradas complexas e harmonias intrincadas, Djavan continua mandando muito bem o seu recado musical, o que se pode constatar através da audição de temas menos badalados como “Asa”, “Curumin”, “Irmã de Neon” e “Doidice”. Como bônus, há a inédita “Maledeto”, gravada em estúdio.

* Nas próximas terça e quarta-feiras (dias 06 e 07 de maio, portanto), o palco do Teatro Tobias Barreto estará recebendo mais uma edição do projeto MPB Petrobrás, sempre a partir das 21 horas. A atração principal será a cantora e compositora Tulipa Ruiz e o show de abertura ficará a cargo da nossa ótima Coutto Orchestra. A gente se vê por lá!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.
Apresenta o quadro "Musiqualidade" dentro do programa "Canta Brasil”, veiculado pela Aperipê FM todas as segundas-feiras, às 10 horas.
Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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