Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantor: ARNALDO ANTUNES
CD: “JÁ É”
Gravadora: SONY MUSIC

Desde que resolveu seguir carreira solo, Arnaldo Antunes (ex-integrante da banda Titãs) vem lançando discos com regularidade. No início, seus versos concretistas serviam como base para canções experimentais, mas o fato é que, como ele sempre gostou de trabalhar com parceiros, foi aprimorando, ao longo dos anos, a sua veia de compositor popular e, atualmente, ataca com êxito em várias frentes.
Uma prova disso é “Já É”, o seu mais recente CD, o qual, produzido pelo baixista Kassin, terminou de aportar no mercado através da gravadora Sony Music. Trata-se de um álbum inteiramente autoral e inédito composto por quinze canções (destas somente quatro foram compostas pelo artista solitariamente).
Como cantor, o tempo de estrada igualmente lhe fez bem, maturando a sua voz gutural. No entanto, embora possua lá o seu charme esse timbre característico, ele jamais será o intérprete ideal de suas criações posto que, conforme já exaustivamente comprovado, as mesmas crescem em outras vozes.
Arnaldo, como de costume, conta, no recém-lançado trabalho, com a adesão de seus dois colegas tribalistas: Carlinhos Brown é o responsável pela percussão em algumas faixas e Marisa Monte, além de convidada especial na oportuna “Peraí, Repara”, é parceira nesta e em mais duas outras canções, a balada havaiana “Naturalmente, Naturalmente” e a bonita “Dança” – as duas primeiras contando também com a colaboração autoral de Dadi. 
Salutarmente eclético, Arnaldo mergulha com propriedade tanto no rock (“O Metereologista” e “Na Fissura”, esta dele com Betão Aguiar e Chico Salém) como em sambas mais calmos (a pérola “Saudade Farta” e “Só Solidão”, esta feita com Márcia Xavier), quatro dos melhores momentos do repertório apresentado. E se há um flerte com o etéreo (em “Antes”), há também a crítica aos governantes que autorizam as guerras (no reggae “Óbitos"). Outros destaques ficam por conta da animada “Põe Fé que Já É" (parceria com Betão Aguiar e André Lima), “As Estrelas Cadentes” (composta com Ortton – atual nome artístico do pernambucano Ortinho) e “As Estrelas Sabem” (delicado tema musicado por Zé Miguel Wisnik que executa o piano na gravação ao lado de Jaques Morelenbaum no violoncelo).
No geral, trata-se de um CD muito bacana que, com várias balas na agulha, se consubstancia como um dos melhores da discografia do inquieto Arnaldo Antunes. Corra e ouça!

N O V I D A D E S

* Nascido em uma família de artistas (ele é filho da cantora Tetê Espíndola com o compositor Arnaldo Black) e tendo passado parte da infância ouvindo Chico César tocar ao seu lado, nada mais natural que o cantor e compositor Dani Black enveredasse, logo cedo, pelos caminhos da música. Bem entrosado com os colegas de sua geração (Maria Gadú, por exemplo, já gravou algumas canções dele), Dani vem obtendo reconhecimento também entre os baluartes da nossa MPB, caso de Ney Matogrosso (que registrou “Oração” em seu mais recente CD de estúdio) e de Milton Nascimento, presente nos vocais, como convidado especial, de “Maior”, a bela música que encerra “Dilúvio”, o seu recém-lançado CD que está sendo lançado de maneira independente. Com o repertório inteiramente autoral, o artista dá voz a onze temas que, em maior ou menor grau, revelam as inquietudes do tempo presente, ratificando, em várias passagens, sua capacidade de resvalar para questões amorosas sem soar piegas. Intérprete de ótima extensão vocal, Dani vem demonstrando avanços nesse quesito, expressando-se cada dia mais seguro ao denotar o seu próprio estilo, embora seja nítido que o já citado Chico Cesar lhe é, ainda, uma forte referência. Além da já citada “Maior” (uma espécie de mantra moderno), os melhores momentos do repertório desse novo álbum, produzido e arranjado (com a inserção de metais e cordas) por Conrado Goys (que soube bem lidar com a sonoridade pop ao transitar entre funks e baladas sem se perder no experimentalismo indie), ficam por conta de “Linha Tênue”, “Areia”, “Só Sorriso” e “Bem Mais”. Vale a pena conhecer!

* O rapper Flávio Renegado acaba de lançar “Relatos de um Conflito Particular”, EP composto por sete músicas. Desse novo trabalho fazem parte, como convidados especiais, Samuel Rosa (vocalista da banda mineira Skank) e Alexandre Carlo (vocalista da banda brasiliense de reggae Natiruts).

* Compositor e violonista baiano, Edil Pacheco já viu suas canções serem gravadas por nomes do primeiro time do nosso cancioneiro, tais como Eliana Pittman, Jair Rodrigues, Fafá de Belém, Clara Nunes, Luiz Caldas, Alcione, Beth Carvalho, Gilberto Gil e Zezé Motta, entre outros. Ele, que teve os primeiros contatos com a música ainda na adolescência e começou a desenvolver a atividade de compositor na segunda metade da década de sessenta do século passado, lançou recentemente o CD independente intitulado “Mel da Bahia” no qual mostra se encontrar em plena forma criativa. Com a coordenação musical a cargo do competente Alceu Maia, o álbum traz, na ficha técnica, a presença de instrumentistas de peso, a exemplo de Cláudio Jorge (no violão), Misael Hora (no piano), Dirceu Leite (nos sopros), Jorginho Gomes (na bateria) e Cicinho Assis (no acordeão). O repertório, majoritariamente formado por sambas, é composto por treze faixas, onze delas criadas pelo próprio artista (destas, duas de forma solitária: “Baticum de Primeira” e “O Samba Pra Mim É Rei”). As canções alheias ficam por conta de “Saudade a Vapor” (de Tom Barreto) e “Dindinha Lua” (de Walmir Lima e João Rios). Há parcerias de Edil com compositores que entendem de verdade do riscado, caso de João Nogueira (a canção-título), Diogo Nogueira (“Não Cante meu Curió”), Roque Ferreira (o samba-canção “Meu Tesouro), Wilson das Neves (“A Moça Morena Maria”) e Nelson Rufino (“Fio de Esperança). Os destaques desse bem-vindo projeto ficam por conta da inspirada “Terreiro de Jesus” (feita com João Bosco e Francisco Bosco), do afoxé “Na Paz do Congá” (criada com Canário) e das bonitas “Água de Pranto” e “Samba Feiticeiro” (ambas compostas ao lado de Paulo César Pinheiro).

* “Sambarás” é o título do sétimo CD da cantora e compositora paulistana Klébi Nori, o qual está chegando às lojas através da gravadora Dabliú Discos. A conferir!

* “Canela” é o título do CD que une os talentos do cantor Renato Braz e dos integrantes do grupo instrumental de violões Maogani, o qual ora está chegando às lojas de maneira independente. Depois de realizarem alguns shows juntos, eles se reencontraram em 2012 e nasceu a ideia de um projeto onde pudessem reunir canções da América Latina. Embora gravado no ano seguinte, o álbum somente agora foi lançado e registra temas argentinos, chilenos, paraguaios, cubanos, venezuelanos e colombianos, cantados em espanhol. O Brasil se faz presente no repertório em apenas dois momentos: “O Som da Madeira” (de Maurício Marques e Adão Quevedo) e “Calundu” (de Paulo César Pinheiro e Breno Ruiz, este, aliás, dividindo também os vocais da faixa). Dentre as treze músicas selecionadas, cinco são instrumentais. A cantora peruana Rosa Guzmán surge como convidada especial em “Lamento Esclavo” (de Eliseo Grenet).

* Já se encontra em estúdio o grupo mineiro Jota Quest, gravando as canções que farão parte de seu próximo CD. Produzido por Jerry Barnes, o álbum está sendo formatado com a sonoridade característica da galera: uma miscelânea de funk, soul e disco music em meio a alguns reggaes e baladas. Quem viver ouvirá!

* Mabel Velloso foi professora primária, em Santo Amaro da Purificação (BA), de Paulo Costta. Foi ela quem deu ao aluno o seu primeiro instrumento musical: um pandeiro. Os anos se passaram e ele abraçou de vez a música, tendo se mudado para a Europa onde se tornou um porta-voz da Bossa Noiva, especialmente na França. Em 2009, ambos se reencontram em um aniversário e surgiu, então, a ideia de Paulo musicar alguns dos poemas de Mabel, o que se concretizou recentemente com o lançamento do CD “Meu Recôncavo – Samba & Poesia”, o qual chega ao mercado através da gravadora Sony Music. A famosa família baiana se mostra unida e está toda lá, presente no trabalho, em participações especiais: a irmã Maria Bethânia abre e fecha o álbum declamando trechos poéticos, o mano Caetano Veloso divide os vocais de “Se Eu Tivesse uma Casa” e a filha Belô Velloso comparece na canção-título. O álbum, eficientemente produzido pelo sobrinho Moreno Veloso (que também aparece cantando em “Anoitecendo”), possui uma sonoridade acústica, bem de acordo com os temas abordados por Mabel em seus escritos, via de regra, sensações próprias relacionadas à sua terra natal. Há ainda as presenças do outro sobrinho J. Veloso e do violoncelista Jaques Morelenbaum, este se juntando a um time de competentes instrumentistas, a exemplo de Bruno de Lullo (no baixo), Felipe Pinaud (na flauta), Zero (na percussão) e Domenico Lancellotti (na bateria). Entre os melhores momentos estão as faixas “Canto da Terra”, “Circo (Lonas Estragadas)”, “Cigarra” e “Minhas Filhas”.

* A cantora e compositora baiana Manuela Rodrigues estará lançando, em novembro próximo, seu terceiro álbum. Trata-se do independente “Se a Canção Mudasse Tudo”, o qual foi gravado com patrocínio obtido no projeto Natura Musical. Com repertório basicamente autoral, o disco foi formatado por um time de produtores que inclui André T, Gustavo Di Dalva, Luciano Salvador Bahia, João Milet Meirelles e Tadeu Mascarenhas. Há as participações especiais de Silvia Machete e João Cavalcanti. Entre as quatorze faixas, destaca-se a regravação de “Extra II (O Rock do Segurança)”, canção lançada pelo seu autor, Gilberto Gil, em 1984.

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.
Apresenta o programa "Musiqualidade", veiculado pela 104,9 Aperipê FM, todos os sábados das 13 às 15 horas.
Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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