Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantora: ROBERTA SÁ
CD: “DELÍRIO”
Gravadora/Selo: SOM LIVRE/MP,B

Um dos grandes diferenciais da cantora Roberta Sá com relação a outras de sua geração (Ana Carolina, Vanessa da Mata e Maria Gadú, por exemplo) é que ela praticamente não compõe, preferindo restringir o seu trabalho ao lado de intérprete. Isso se torna salutar uma vez que, se bem escolhido o repertório, ela termina tendo uma possibilidade menor de soar repetitiva.
Nascida em Natal (RN), esta bela potiguar se mudou para o Rio de Janeiro aos nove anos, tendo feito, aos dezoito, um intercâmbio em Missouri (EUA) onde estudou canto. No retorno às terras cariocas, chegou a cursar jornalismo, mas a música lhe chamou mais forte. Em 2002, participou do programa global “Fama”, oportunidade em que conheceu Felipe Abreu que se tornou seu preparador vocal e a incentivou a realizar um show de estreia, o qual aconteceu no Mistura Fina alguns meses depois.
Embora o primeiro CD oficial só tenha saído em 2004 (o bastante elogiado “Braseiro”), antes disso Roberta viu sua versão para “A Vizinha do Lado” (de Dorival Caymmi) ser incluída na trilha sonora da telenovela global “Celebridade” (de Gilberto Braga) e chegou a gravar, sob encomenda de uma empresa, um álbum promocional intitulado "Sambas e Bossas".
Recentemente, chegou ao mercado, através de uma parceria entre a gravadora Som Livre e o selo MP,B, o novo CD da artista. Intitulado “Delírio” e novamente sob a produção de Rodrigo Campello, é o primeiro após sua separação do cantor e compositor Pedro Luís. Pode ser coincidência, mas o fato é que a quase totalidade das letras das canções escolhidas para integrarem o repertório desse recém-lançado álbum versam sobre dores, vinganças e desilusões amorosas (talvez daí a escolha por uma capa e encarte em monocórdios preto e branco).
A voz doce e bem colocada de Roberta continua intacta, não obstante (obviamente por conta do conceito do disco) ela tenha optado, no geral, por registros mais suaves. Não é um disco alegre, muito pelo contrário (exceção quebrada unicamente pela música-título, de autoria de Rafael Rocha, integrante do emergente grupo Tono). Nem mesmo os dois sambas mais tradicionais jogam a peteca pra cima, ora resvalando para o cansaço diário (“Amanhã É Sábado”, de Martinho da Vila, presente como convidado especial), ora para o arrependimento de ter largado o ser amado (“Boca em Boca”, da própria artista feita com Xande de Pilares).
Entre as onze faixas há as regravações de “Última Forma” (de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, em registro que esmaeceu a força da canção) e de “Covardia” (pouco conhecida parceria de Ataulpho Alves e Mário Lago, ora transportada para o universo lusitano devido ao arranjo e à participação do cantor português António Zambujo).
Podendo ser catalogado como um disco de samba (e nesta seara se incluem, de fato, “Me Erra”, de Adriana Calcanhotto, e “Feito Carnaval”, de Rodrigo Maranhão), o CD é mais que isso posto que se abre a outras possibilidades musicais até porque Roberta, embora adepta de primeira hora do gênero mais genuinamente brasileiro, é uma cantora de MPB e já mostrou saber passear com destreza por diversos estilos. O CD não é daqueles que pega na primeira audição, daí porque algumas críticas menos favoráveis vêm surgindo. Recomenda-se, então, escutá-lo com calma e atenção pois é um daqueles projetos que crescem a cada audição. Isso se mostra especialmente adequado com relação aos três temas de Cézar Mendes presentes no repertório (o samba-canção “Um Só Lugar”, feito com Moreno Veloso, o pseudo antigo “Não Posso Esconder o que o Amor me Faz”, composto com Capinan, e o simples mas eficiente “Se For Pra Mentir”, criado ao lado de Arnaldo Antunes e que conta com a presença de Chico Buarque nos vocais) e à faixa de abertura, a bonita “Meu Novo Ilê” (de Quito Ribeiro e Moreno Veloso), canção que, bebendo em nascedouro afro-baiano, termina desaguando nas fontes de Cabo Verde.
Em suma, mesmo aparentemente um trabalho mais morno, o novo CD de Roberta Sá tem, sim, algumas interessantes balas na agulha. É só se permitir e se entregar (ela, inclusive)!

N O V I D A D E S

* Quando estreou no mercado fonográfico com o CD “Diurno”, a cantora Ava Rocha o fez junto com a banda Ava, causando, na oportunidade, certo rebuliço entre os ávidos por novidades. Agora, quatro anos depois, ela põe nas lojas, através do selo Circus, o seu primeiro trabalho solo, o qual traz a assinatura de Jonas Sá na produção. Trata-se do álbum “Ava Patrya Yndia Yracema” (seu nome de batismo), composto por uma dúzia de faixas, a maioria assinada pela própria artista ou por Negro Leo. Filha do saudoso cineasta Glauber Rocha, Ava ainda procura seu espaço nesse nicho múltiplo de intérpretes femininas que se multiplica diuturnamente pelo Brasil. Sua voz não é especialmente sedutora, mas ela chama a atenção por não copiar ninguém. Dona de um timbre seco e grave que, em muitos momentos, soa andrógino, se sai bem especialmente com suas próprias criações, a exemplo de “Boca do Céu”, “Uma” e “Beijo no Asfalto”, bons momentos do (experimental) repertório que tem como ponto alto a canção “O Jardim”, do já citado Jonas Sá. Ladeada por músicos da cena cult atual (Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes, Glauco Fernandes, Everson Moraes e Gustavo Benjão estão entre eles), Ava canta também canções inéditas de Marcelo Callado (a concretista “Oceanos”) e da dupla Bruno Di Lullo e Domenico Lancellotti (a suave “Doce É o Amor”).

* Parceiro mais frequente de Milton Nascimento, o compositor Fernando Brant, que nos deixou há pouco tempo, terá algumas de suas belas canções revisitadas em “O Vendedor de Sonhos”, projeto que está sendo levado a cabo por Robertinho Brant, seu sobrinho. Dele constarão regravações inéditas de temas atemporais como “Paisagem na Janela”, “Milagre dos Peixes” e “Aqui É o País do Futebol” nas vozes de diversos artistas, a exemplo de Beto Guedes, Djavan, Fernanda Takai, Luiz Melodia e Maria Rita.

* Na próxima quinta-feira, dia 26 de novembro, a partir das 20 horas, no Café do Museu, o sergipano Dami Dória estará realizando uma apresentação com a qual lançará oficialmente o seu primeiro CD, sugestivamente intitulado “Acordando”. Compositor, violonista e cantor, o artista vem de uma aclamada participação no Sescanção e foi classificado para o Festival “Um Banquinho, Um Violão” que será realizado também nesta semana e em dezembro, uma iniciativa dividida entre a Secult e o Banese. O CD foi gravado em estúdio caseiro e traz sete temas, seis deles instrumentais (a exceção é o bonito ijexá “Gameleira”), dentre os quais merecem destaque “Seis Pensamentos”, “Ao Acaso” e “Nova”.

* Já em processo avançado de gravação, o novo CD da dupla Luis Felipe Gama & Ana Luiza contará com a participação especialíssima de Ney Matogrosso na faixa “Um Deus Aleijado” (parceria de Gama com o poeta e compositor português Tiago Torres da Silva). A conferir!

* A trilha sonora do filme “Chico – Artista Brasileiro”, dirigido pelo experiente Miguel Faria Jr., já se encontra disponível e traz dez novas versões de canções memoráveis de Chico Buarque. Além dele próprio que revisitou “Sinhá” (parceria com João Bosco) e “Paratodos”, entraram em estúdio para resgatar temas já atemporais os cantores Ney Matogrosso (“As Vitrines”), Moyseis Marques (“Mambembe”) e Péricles (“Estação Derradeira”) e as cantoras Laila Garin (“Uma Canção Desnaturada”), Mônica Salmaso (“Mar e Lua”), Adriana Calcanhotto e Mart’nália (as duas juntas em “Biscate”, gravada em um tom bastante desconfortável para a segunda). A portuguesa Carminho se faz presente em dois dos melhores momentos: sozinha em “Sabiá” (feita com Tom Jobim) e dividindo os vocais com Milton Nascimento na obra-prima “Sobre Todas as Coisas” (composta com Edu Lobo). Apropriado para os colecionadores da obra buarquiana!

* Por outro turno, a trilha sonora da nova telenovela global das 19 horas, “Totalmente Demais”, já está chegando às lojas através da gravadora Som Livre. Eclética, reúne nomes que vão de Beth Carvalho (“Acreditar”) e Diogo Nogueira (“A Mil por Hora”) a Céu (“Falta de Ar”) e Pitty (“Serpente”), passando por Djavan (“Encontrar-te”) e Seu Jorge (“Felicidade”).

* Helio Flanders, vocalista do grupo Vanguart, acaba de lançar, através da gravadora Deck, o seu primeiro trabalho solo. Trata-se de “Uma Temporada Fora de Mim”, CD produzido por ele próprio ao lado de Arthur de Faria, o qual se faz composto por nove faixas, todas autorais, seis delas criadas solitariamente. Pianista, Flanders se cercou de uma banda enxuta, porém bastante competente (com destaque para o bandoneon de Martin Sued) que reveste as suas canções com uma aura sombria e passional, mas nem por isso soando menos interessante. Não é, contudo, um álbum que desça facilmente. As canções são construídas sobre melodias pouco convencionais e, com exceção da balada “Romeo” (parceria com Thiago Pethit), necessitam de uma audição mais apurada para serem assimiladas pelo ouvinte médio. Bom cantor que sabe utilizar com destreza os falsetes, Flanders homenageia sua cidade natal em “Cuyaba Tango” (feita com o já citado Arthur de Faria) e divide os vocais de “Dentro do Tempo em que Eu Sou” com a sempre irretocável Cida Moreira. Alguns dos destaques do repertório ficam por conta de “Major Luciana” (composta com Julio Nganga) e “Um Grito”.

* Ainda que, por enquanto, somente esteja disponível em plataformas digitais, o novo CD do cantor carioca Toni Platão, se mostra bastante interessante e merece ser conhecido. Intitulado “Lov”, traz a assinatura do competente Berna Ceppas na produção e a presença, na ficha técnica, de músicos de primeira linha da atualidade, a exemplo de Dadi Carvalho (no baixo), Pedro Sá (na guitarra) e Domenico Lancellotti (na bateria). Definido por ele próprio como sendo “um álbum de notas muito contundentes, mas não de muitas delas”, esse novo projeto chega em muito boa hora pois o último trabalho do artista aportou no mercado há já oito anos. Entre temas autorais (“Dias Estranhos” e “Você Não Sabe o que te Espera”, esta uma parceria com Cabelo), Platão empresta sua voz bonita e grave a canções inéditas de lavra alheia (“Já É Tarde”, de Márvio dos Anjos, e “Deve Ser Isso que se Chama Amor”, de Alvin L) e joga novas luzes sobre músicas conhecidas, tais como “Volta por Cima” (de Paulo Vanzolini) e “I Never Cry” (de Alice Cooper e Dick Wagner).

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.
Apresenta o programa "Musiqualidade", veiculado pela 104,9 Aperipê FM, todos os sábados das 13 às 15 horas.
Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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