MUSIQUALIDADE, por RUBENS LISBOA

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantor: SEU JORGE

CD: “AMÉRICA BRASIL – O DISCO”

Gravadora: EMI

 

A história musical de seu Jorge é curiosa: após proveitosa incursão no grupo Favela Carioca, o cantor lançou o primeiro CD (o mediano “Samba Esporte Fino”) que obteve repercussão reduzida. Depois de participar de pequenos papéis em filmes fora do Brasil, no entanto, seu nome começou a ganhar projeção, de forma que, quando saiu o segundo disco (o raso “Cru”), já tinha se transformado em um artista cult. Nesse meio tempo, lançou ainda o álbum “Life Aquatic Studio Sessions”, mas depois foi só correr para o abraço: com o CD ao vivo, lançado ao lado de Ana Carolina, viu sua popularidade subir aos níveis mais altos. Assim, seria de se esperar que o seu novo trabalho surgisse cercado a muita expectativa.

Embora a crítica especializada inexplicavelmente não tenha feito muito alarde, chegou às lojas recentemente, através da gravadora EMI, o CD “América Brasil – O Disco”, o novo álbum de Seu Jorge, de longe o seu melhor trabalho até agora. Produzido e dirigido por ele próprio, é composto por onze faixas (delas somente duas não levam a assinatura do artista).

Como cantor, Seu Jorge não é dos mais avassaladores. Sua voz grave não possui grande extensão mas, sem sombra de dúvida, possui um charme fora do comum, fazendo com que seja reconhecido onde quer que toque. E a ginga que ele impõe, com divisões sincopadas e fraseados curtos e certeiros, é recurso utilizado por poucos com tamanha eficiência.

Como compositor, suas canções possuem, via de regra, um balanço contagiante, transitando entre o samba e o rock, e a influência do xará Jorge Ben Jor é incontestável (basta que se ouçam, por exemplo, as faixas “Eterna Busca” e “Burguesinha”). Seu Jorge, no entanto, burilou-lhe o estilo, criou uma forma atual de dizer as coisas e saiu-se muito bem no que propôs. Entre as faixas agitadas, são dispostas algumas canções mais suaves. “Cuidar de Mim” e “Seu Olhar” (que conta a participação, no teclado, de Philippe Baden Powell) surgem como pausa para respiração. São canções bem legais, muito bem resolvidas e nelas Seu Jorge aveluda seu canto, dando-lhes um toque abluesado.

Além do já citado Gabriel Moura, outros costumeiros parceiros se fazem presentes: Rogê, Pretinho da Serrinha e Pierre Aderne. Os grandes momentos desse ótimo disco ficam por conta da inspirada “América do Norte” (que conta com inusitada e bela intervenção de violino), da acelerada “Só no Chat” e da deliciosa “Samba Rock”, hit certeiro dentro em breve. Bem legal!

 

 

R E S E N H A     2

 

Artistas: OSESP, BANDA MANTIQUEIRA e MÔNICA SALMASO

CD: “ORQUESTRA SINFÔNICA DO ESTADO DE SÃO PAULO”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

Gravado ao vivo em dezembro de 2006 na Sala São Paulo, o concerto que reuniu a OSESP, a Banda Mantiqueira e a cantora Mônica Salmaso chega agora ao mercado através de CD editado pela gravadora Biscoito Fino.

Tida como a melhor orquestra sinfônica que o Brasil já conheceu, a OSESP tem como regente o polêmico e talentoso John Neschling, membro da Academia Brasileira de Música desde 2003 e responsável também por trilhas sonoras de filmes, peças e novelas.

A Banda Mantiqueira, por sua vez, é um grupo de música instrumental formado por virtuosos músicos que, além de apurada técnica, têm marcado suas apresentações com uma performance cheia de energia e bom humor. Tendo à frente Nailor Azevedo, o Proveta, foi formada em 1991 e se caracteriza por valorizar mais o conjunto que a individualidade de seus solistas.

Já Mônica Salmaso vem se firmando como uma das melhores intérpretes de nossa música popular. Com cinco CD’s lançados, é dona de boa voz que impressiona os críticos mais exigentes. Foi a vencedora do 2º Prêmio Visa MPB – Edição Vocal tanto pelo júri quanto por aclamação popular em 1999 e participou, como convidada especial, do último CD de estúdio de Chico Buarque (dividiu com ele os vocais da faixa “Imagina”).

Foi em 2000 que o citado Neschling teve a idéia de realizar uma apresentação na qual a OSESP recebesse alguns artistas. O resultado obteve tamanha receptividade que se repetiu em anos posteriores.

O álbum traz onze faixas através das quais pode se constatar que, de fato, a nossa música está entre as melhores do mundo. Mônica canta na maioria delas, mostrando que o lirismo de sua voz adequou-se com perfeição ao projeto. 

E se o time de arranjadores é de primeira linha (Laércio de Freitas, Nelson Ayres, Edson Alves, André Mehmari, Roberto Sion, Chiquinho de Moraes, Alexandre Mihanovich e o já citado Proveta), o repertório não fica atrás: foi pinçado entre o que há de melhor no nosso cancioneiro. Além de alguns temas instrumentais, há obras tanto de compositores de cunho mais popular (“Chiclete com Banana”, de Gordurinha e Almira Castilho) como de autores mais exóticos (“Menina, Amanhã de Manhã”, de Tom Zé e Poeira). Há clássicos antigos (“Apanhei-te, Cavaquinho”, de Ernesto Nazareth, e “Conversa de Botequim”, de Noel Rosa e Vadico) e outros um pouco mais recentes (“Beatriz” e “Eu Te Amo”, ambas de Chico Buarque, a primeira em parceria com Edu Lobo e a segunda com Tom Jobim).

Para os apreciadores de música de altíssima qualidade, este CD torna-se imperdível.

 

 

N O V I D A D E S

 

·               A cantora Crikka Amorim lança, através do selo Sala de Som, seu novo CD dedicado à obra autoral de Rita Lee. Intitulado “Pirataria” e produzido por ela própria ao lado de André Agra, o álbum de sonoridade simples é composto por onze faixas, dentre as quais se destacam as releituras de “Bem-Me-Quer”, “Papai Me Empresta o Carro”, “Chega Mais” e “Modinha”. Há a participação especial de Penha Pinheiro na pouco conhecida “De Pés no Chão”.

 

·               Já a cantora Margareth Reali põe nas lojas, de maneira independente, o seu segundo trabalho, através do qual homenageia o compositor mineiro Nivaldo Ornelas. São dez canções (uma delas instrumental, a que dá título ao disco: “Um Trem Para o Sonho”) que passeiam por várias fases da obra do artista e o mostram ao lado de parceiros como Murilo Antunes, Ana de Hollanda, Tavinho Moura, Jairo Lara e Cid Ornelas (este último, aliás, é o convidado especial da faixa “Alegria de Ser”). Margareth é cantora afinadíssima de timbre claro e bastante agudo e cumpre com destreza os desafios surgidos com as intrincadas harmonias que lhes são postas à frente. Dentre os melhores momentos estão as faixas “O Arqueiro”, “Amor de Papel” e principalmente “João Rosa”, pérola musical que fez parte da trilha sonora do filme homônimo (do cineasta Helvécio Ratton).

 

·               A Orquestra Popular Céu na Terra lança, através do selo Dubas, seu primeiro CD intitulado “Bonde Folia”, reunindo vários frevos, maxixes e marchinhas. Jards Macalé é o convidado especial da faixa “Pula-Pula!”, de sua própria autoria.

 

·               O sambista Délcio Carvalho lança, de uma só vez e pelo selo Rádio MEC, três CD’s que integram a série intitulada “Inédito e Eterno”, produzida por Paulão 7 Cordas. Os discos “Acústico”, “Roda de Samba” e “Encontros Musicais” registram, no total, quarenta e duas músicas (a maioria delas são inéditas) desse inspirado compositor que é parceiro de Ivone Lara em clássicos como “Sonho Meu” e “Alvorecer”.

 

·               Seguindo a linha iniciada no seu CD anterior, o ótimo “Samba Passarinho”, o cantor e compositor baiano Péri acaba de lançar, de maneira independente, o novo trabalho, intitulado “2° Tempo”, totalmente voltado para o samba. A diferença é que no anterior ele se fazia acompanhar apenas pelo violão e neste os arranjos revestem-se também com outros instrumentos. Das treze faixas, onze são da lavra do próprio Péri (somente “O Amor” e “Três Sorrisos” são de outros autores: a primeira é de Beto Pellegrino e a segunda uma parceria antiga de Chocolate com Mário Lago). Péri tem competência, criatividade e talento e canta suave, mas muito legal. Dentre os destaques estão as faixas “A Bola da Vez”, “Breve Momento” e “Maledicência”. Há as participações especiais de Vânia Abreu, Jussara Silveira, Sylvia Patrícia e Marcela Bellas.

 

·               A cantora Maria Creuza, uma das preferidas do poetinha Vinicius de Moraes, retorna ao mercado fonográfico com o CD “É Melhor Ser Alegre do que Triste”, dedicado à obra de Baden Powell. São onze canções, algumas até já gravadas anteriormente pela própria artista, nas quais sua voz macia passeia com desenvoltura. Os destaques ficam por conta das atemporais “Lapinha”, “Deixa” e “Samba da Bênção”.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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