NOS ESPAÇOS AÉREOS DO FALAR E O DO FAZER

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As dimensões continentais do Brasil têm me obrigado passar parte do meu tempo dentro de um avião, principalmente quando se sabe que Sergipe não faz parte do roteiro prioritário ou turístico das empresas aéreas. Assim, espremido nas poltronas cada vez mais apertadas dos aviões, tive que aprender a conviver com a morosidade e com o desconforto físico, desenvolvendo verdadeiras técnicas de  sobrevivência. Escrevendo com outras palavras, passei a fazer do avião uma extensão do meu trabalho ou de minhas observações pessoais, no velho e popular estilo de se unir ao adversário enquanto ele não pode ser derrotado.

 

Assim, a bordo sempre cuido de embarcar livros, revistas e o meu inseparável computador de mão. Em alguns vôos, confesso, fico só a observar o que se passa à minha volta, especialmente quando embarcam pessoas que adoram fazer platéia para a suas idéias, frutos de egos exibicionistas, exóticos ou irrigados por uma bebedeira não curada. No improvisado teatro aéreo que armam para os seus compulsórios espectadores, pouco importa a nossa aprovação ou rejeição.

 

Um desses episódios ocorreu na minha última viagem, mais precisamente em um vôo lotado de parlamentares que se dirigiam para o árduo labor de Brasília, após os justos quatro dias de descanso que geralmente passam junto aos seus fiéis eleitores. A cena que  todos compulsoriamente assistiam ocorreu nas duas  poltronas localizadas na frente do avião, convenientemente transformadas na peça teatral que seria logo encenada. Apenas dois passageiros eram os personagens da trama, embora parecesse um monólogo, pois praticamente só um deles falava.

 

O que falava, com uma treinada voz que lembrava um locutor de rádio, trajava um terno desalinhado, colorido e apertadíssimo, demonstrando que o usava apenas porque seu ofício assim o exigia. O passageiro ao seu lado, embora com a mudez digna de Santoro quando do filme As Panteras, não se enquadrava no padrão global de um ator. Era baixinho, velho pelo estado físico e trajava uma roupa pobre, que apenas combinava com as suas sandálias havaianas, perfeitamente enquadrado no perfil preconceituoso que os policiais entendem como marginal em potencial.

 

O passageiro que estava sob o terno, personagem principal da peça, representava adequadamente o seu personagem exibicionista, cuidando de externar como se tornara influente em sua cidade. O monólogo era exatamente este, a vida do influente e importantíssimo personagem que viajava ao nosso lado, bem como  a forma com que  mantinha o seu prestígio. Já na introdução, cuidou de esclarecer que era o parlamentar mais temido de sua cidade, pois utilizava os microfones públicos e das rádios que dominava para destruir os seus adversários, não raro transformando em verdades absolutas suas convicções e intuições pessoais.

 

Era exatamente a sua coragem destrutiva da honra alheia a sua maior fonte de poder, pois sabia que todos tinha em verdadeiro pavor de lhe enfrentar ou processar, inclusive os magistrados de sua cidade. E arrematava com ar gabola e vitorioso, que seus erros justificavam o fim nobre de sua missão, pois agia em nome do bem comum. E foi contando os casos que desvendou, os escândalos que revelou,  os poderosos que enfrentou e os louros que posteriormente colheu.

 

Porém, certamente por falha do enredo, nada falou dos erros que cometeu, talvez porque não se importasse ou eram insignificantes diante de sua vitoriosa carreira política. A mesma falha ocorreu no que se refere ao seu colega de poltrona, pois o manteve calado até o pousar do avião. Felizmente, o epílogo chegara quando desceram nos seus destinos, fazendo com que eu continuasse voando calmamente rumo ao meu.

 

É que o espectador que viajava ao lado ousou confirmar a veracidade da peça que acabava de ser encenada. Apenas acrescentando, em voz propositadamente baixa, que o parlamentar também recebia favores e dinheiro para destruir as pessoas, bem assim que adorava se aliar aos chamados poderosos nas eleições ou quando lhe fosse conveniente. E aumentando o tom de sua voz, esclareceu que o personagem que ficara calado era um ex-mendigo de sua cidade, que hoje, possuindo alguns bens, tem como missão na vida ajudar para que todos tenham uma morada descente ou prato de comida no final da noite.

 

Desci em Aracaju encantado com a lição de vida do homem que nada falara, pois seu grande poder estava na ação positiva e construtiva, mais importante, portanto, do que qualquer discurso ou posição política que tenha conquistado. Quanto ao gabola parlamentar, logo dele esqueci, até porque vários deles freqüentam as nossas vidas e as ondas dos rádios. Vários deles sintonizados, preferentemente, na destruição da vida alheia para construir as suas carreiras políticas.

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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