Nossa guerra particular

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O Instituto Médico Legal registrou oito homicídios por arma de fogo no último fim de semana em Sergipe. Na segunda-feira logo cedo, um homem foi assassinado com vários disparos de pistolas na porta de uma academia de ginástica no Sol Nascente, em Aracaju. A violência local espelha a triste realidade de um país que alimenta a hipocrisia de afirmar viver numa paz eterna, quando por aqui se assassina mais do que qualquer guerra moderna.

O Mapa da Violência 2013 – Mortes Matadas por Armas de Fogo, o alentado e sempre atualizado estudo dirigido pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da Área de Estudos sobre Violência da FLACSO – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, agora focado nas mortes por armas de fogo (AF), como o subtítulo aponta, conclui que o volume do arsenal circulante no Brasil guarda correspondência direta com a mortalidade que origina.

Entre 1980 e 2010, aponta o estudo, perto de 800 mil cidadãos brasileiros morreram por disparos de algum tipo de arma de fogo. A título de comparação, segundo o proscrito site WikiLeaks (pois não há registros oficiais), em seis anos de guerra no Iraque foram mortos mais de 66 mil civis.

No período, as vítimas passam de 8.710 no ano de 1980 para 38.892 em 2010, um crescimento de 346,5%. Já a população do país cresceu 60,3% no mesmo intervalo. Entre os jovens de 15 a 29 anos o crescimento foi ainda maior: passou de 4.415 óbitos em 1980 para 22.694 em 2010: 414% nos 31 anos entre essas datas. O alto crescimento das mortes por armas de fogo foi puxado, quase exclusivamente, pelos homicídios, que cresceram 502,8%, enquanto os suicídios com armas de fogo cresceram 46,8% e as mortes por acidentes com armas caíram 8,8%.

O Mapa da Violência observou um pesado crescimento da mortalidade na Região Norte – 195,2% na década, quase triplicando o número de vítimas. Em menor escala, também no Nordeste o crescimento foi elevado: 92,2%, quase duplicando o número no período. Aqui, a maior parte dos Estados apresenta elevados índices de crescimento, com destaque para o Maranhão. O único estado da região a evidenciar queda nos números foi Pernambuco: saldo negativo de 27,8%.

Por região, a única onde houve queda na década foi o Sudeste, cujo número de óbitos apresenta a expressiva diminuição de 39,7%. Queda puxada, fundamentalmente, por São Paulo, cujos números em 2010 representam por volta de 1/3 do que eram no ano 2000. Com menor intensidade, esse movimento também foi acompanhado pelo Rio de Janeiro, com queda de 37,6%. Já Minas Gerais teve um significativo aumento: 64,2%.

Sergipe

Em Sergipe, foram 307 mortes por AF em 2000, o número cresceu a mais de 400 e depois caiu a 317 em 2004 – provavelmente por causa do Estatuto e da Campanha do Desarmamento, implantados naquele ano –, quando reiniciou a escalada até 476 óbitos por AF em 2010.  Foram 40 assassinatos por AF por mês. Proporcionalmente, Sergipe é o quarto estado mais violento do Nordeste e, nacionalmente, o 12o. Aqui ocorreram 23 homicídios por cada grupo de 100 mil habitantes.

Se, na região, Pernambuco foi o único estado que apresentou queda no número de homicídios por AF na última década (um dos seis do País que conseguiram reduzir), ainda assim se mantém como o segundo mais violento, com 2.667 mortes em 2010. Já Sergipe teve o menor crescimento, de 55%. No Maranhão, o número cresceu 344,6%, em Alagoas 248,5% e, na Bahia, o mais violento da região, com 4.818 homicídios por AF em 2010, o crescimento na década foi de 216,3%.

Analisando os números proporcionais, revela-se claramente que o Estado mais violento do Brasil em 2010 era Alagoas, com taxa de 55,3 assassinatos por AF em cada grupo de 100 mil habitantes, seguido pelo Espírito Santo, com 39,4/100 mil, Pará, 34,6/100 mil, e Bahia, 34,4/100 mil. O menos violento é Roraima, com 7,1, seguido do Piauí, com 8/100 mil, e Santa Catarina, 8,5/100 mil.

O Rio de Janeiro, que já foi o primeiro estado mais violento, hoje ocupa a 8a posição e São Paulo, que ocupava a 6a posição no ranking da violência, em 2010 aparecia em 24o lugar – mas houve um recrudescimento da violência entre os paulistas nos últimos anos e esse dado ainda não aparece no atual Mapa da Violência.

No Nordeste como um todo foram 14.840 assassinatos por AF em 2010, crescimento de 92,2% em relação a 2000. No Brasil, em 2010 ocorreram 38.892 assassinatos por arma de fogo, com um crescimento modesto de 11,2% na década, mas ainda assim um número absurdo para um país que se considera vivendo em paz, sem nenhuma belicosidade com inimigos externos.

Aracaju

A boa notícia para Aracaju, é que a capital sergipana registra queda proporcional nas taxas de óbitos por armas de fogo entre 2000 e 2010 – de 32,3 mortes por 100 mil habitantes para 27,3/100 mil –, o que a tornava a segunda capital menos violenta do Nordeste, atrás apenas de Teresina, com 18,9/100 mil.

A capital mais violenta do Brasil em 2010 era Maceió, com 94,5/100 mil, seguida por João Pessoa (71,6), Vitória (607) e Salvador (59,6). A má notícia para os sergipanos é que a Barra dos Coqueiros aparece entre os cem municípios mais violentos do Brasil, com taxa de 44,7 homicídios por 100 mil habitantes. Bem acima do índice aracajuano, mas bem abaixo da taxa do município mais violento do país, Simões Filho (BA), com espantosos 141,5 homicídios/100 mil habitantes.
Aliás, a Bahia tinha, naquele ano, 19 municípios entre os cem mais violentos e Alagoas tinha 11. Uma lástima.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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