O Bendegó, a Múmia Falante e o Museu Incinerado.

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Há livros que nos ficam na memória desde a infância.

 

Um deles, não lembro o titulo e o autor, parece-me, contava aventuras de um menino enveredando pelo sertão da Bahia, arredores de Cumbe, Monte Santo, Uauá, Arraial de Canudos, região que me fascinou diante de feitos memoráveis, saga em que o litoral contemplou o sertão, um querendo esmagar o outro, em nome de uma brasilidade intolerante e sem nenhuma cordialidade.

 

Neste livro, sobrando-me por lembrança de um temário inerente às “Histórias da Mata Virgem”, vi pela primeira vez a história do meteorito Bendegó, caído no sertão baiano, pelos idos do século XVIII, mais precisamente em 1784.

 

No livro da minha infância, a pedra de fogo tinha desabado do céu, nas imediações do Riacho Bendegó.

Meteorito Bendegó – Museu Nacional – UFRJ.

Bendegó restou em mim como um nome exótico de suave lembrança.

 

Falava-se ali dos relatos antigos de sua queda enquanto grande bólido inflamado, que gerara inclusive um pequeno incêndio no seu entorno.

 

Meteorito Bendegó – Fotografia de H Antunes (1887) resgate do meteorito pelo Vice-Almirante José Carlos de Carvalho e pelos Engenheiros Humberto Saraiva Antunes e Vicente José Carvalho, vendo-se a Bandeira do Império e alguns operários.

 

Um espanto para os matutos sertanejos, que viram tal bola como algo a ensejar medos e perigos, relatos misteriosos acrescidos, como bem pode imaginar a nossa vã ilusão ao perquirir o desconhecido.

 

Nesse particular, por comparação tosca a ensejar melhor espanto, notável é a dissertação cinematográfica criada por Stanley Kubric em “2001 – Odisséia no Espaço”, ficção instigadora da limitação humana e até mesmo da nossa finitude, enquanto ser., quando macacos contemplam um monolito erguido ao acaso de sua explicação.

 

Quanto ao Bendegó, depois de inúteis pesquisas em garimpar rastros do meu livro da infância, leio agora na internet, em post de Carlos Cardoso de 05/09/2018, em Astronomia Brasil Destaques, acontecido após o incêndio do Museu Nacional, no link
https://meiobit.com/390217/bendego-o-meteorito-incendiado-do-museu-nacional-que-e-a-cara-do-brasil/, que o meteorito resistira às chamas da incúria governamental, por ser constituído de Ferro e Níquel, continuando a possuir 5,3 toneladas de peso, 2,2 metros de comprimento, 1,45 m de largura e 58 cm de altura.

 

No livro da minha juventude, o menino, herói de muitos folguedos, contava a saga do Bendegó, desde o seu esfriamento lento e continuado, chamando atenção de gerações e o seu transporte difícil arrastado por juntas de boi, tal o peso e a dificuldade em ser erguido, tanto que uma falha do transporte fez a grande pedra rolar, morro abaixo, e riacho adentro, restando bem mais difícil o seu resgate.

 

Nas minhas lembranças do livro distante, relembrado agora, vejo que há uma confusão de tempos, afinal o texto fala da queda do meteorito, do seu transporte, envereda pela Guerra de Canudos, os comandados do Beato Antônio Conselheiros, Pageú e a Guarda Católica como heróis, Febrônio de Brito, Moreira César e Tamarindo, findando inúteis carcaças mumificadas ao sol em pasto de urubus, e a “Matadeira” de Artur Oscar, semeando ódio e vergonha, sem bravura ínfima.

 

Resgate do Meteorito às margens do Riacho Bendegó.

 

Ou seja: há uma mistura de datas; porque a queda do Meteoro se deu em 1784, por relatos de José Aras e do nosso José Calasans.

 

Embora haja dúvidas de ter acontecido, dez anos antes; em 1774, seu resgate aconteceu cem anos depois, em 1888, e a Guerra de Canudos se deu nos albores da República, em 1896-1897.

 

Dos relatos apresentados agora por Cardoso sobre o misterioso meteoro, conta-se ter sido encontrado por Domingos da Motta Botelho, um garoto que apascentava gado como “pastorador de boi”, numa fazenda do Município de Monte Santo, no sertão da Bahia, uma descoberta relatada ao seu pai, Joaquim da Motta Botelho, que ficou na história como o real descobridor deste objeto vindo céu.

 

O meteoro logo virou assunto de muitas conversas e visitas, a ponto do feito despertar até mesmo a curiosidade do Governador da Bahia, D. Rodrigues Menezes, que querendo ver a pedra na sua Capital, em Salvador da Bahia, encomendou uma expedição, em 1785, comandada pelo Capitão-mor da Vila de Itapicuru, Bernardo de Carvalho da Cunha, para leva-la até as imediações do seu quintal no Pelourinho.

 

O transporte revelou-se um fiasco, afinal, com muito esforço de dezenas de juntas de boi, a grande pedra terminou rolando montanha abaixo e riacho a dentro, ali jazendo por um século de abandono a sol e chuva no leito, mais das vezes seco do regato Bendegó.

 

Durante este século de abandono, o mineral recebeu visitas importantes, como a do Químico Inglês Aristides Franklin Mornay e dos Naturalistas Carl Friedrich Philipp Von Msartius e Johann Baptist Von Spix.

 

Restando mais conhecido no mundo civilizado que em terra pátria, o Imperador Pedro II tomou conhecimento da sua existência quando visitava a Academia de Ciências de Paris em 1886, tendo decidido pela sua remoção para o Rio de Janeiro, onde viria pontificar no Museu Imperial, agora incendiado.

 

Como disse anteriormente, o Meteorito Bendegó fazia parte de meu imaginário infantil, sendo uma surpresa assaz gratificante tê-lo conhecido em 1971, quando visitei aquele museu, em garimpo de outras pesquisas.

 

Em desprezo sem igual, quase infinito, está agora o Museu incinerado, sem culpa de ninguém, sobretudo dos que lhe estavam aquém nos cuidados que bem carecia.

 

Na busca de causas sinistras incontroláveis, todavia, especularam rápidos e precisos: “Não teria sido um balão vindo do céu?!”

 

“Teria sido uma convocação partida do meteorito Bendegó, para uma similar bola de fogo, uma atração um seu igual, lá pelas bandas e ondas do espaço sideral?”

 

Ou foi um curto circuito elétrico, pergunto eu somenos, de uma sobrecarga anormal a menos, tão previsível quando nunca anormal?

 

“Teria sido uma desídia apenas, tão comum e natural, aos novos tempos administrativos das instituições públicas, a requererem por seus servidores e cuidadores, insaciáveis autonomias em tantas garantias, contra tudo e todos, em nome da melhor anomia de assembleias, repartição de comissões, dispensas de compromissos, muitos comissos, em tantas omissões sem culpas, nem mea-culpas?”

 

“Ou teria sido o governo Temer, o melhor culpado de tudo, por melhor Geni, em mordomia sinistra?”

 

E aí eu recordo o Museu, quando o visitei em 1971, ano em que residi no Rio de Janeiro, ainda uma Cidade-Estado, que era ainda maravilhosa na música, e na convivência das pessoas, e já o velho palácio da Quinta da Boa Vista exibia o seu real cansaço.

 

Diferente de muitos que não conheceram o museu incinerado, visitei a Quinta da Boa Vista, o Museu Nacional, o conjunto de palmeiras centenárias plantadas por Dom João VI, e nunca tive tempo por mais de ano, para visitar o Estádio do Maracanã, uma heresia, dirão todos em maioria.

 

Pois é! Fui ao Museu Nacional! Não tenho a desonra de não o ter desconhecido.

 

Eu, que lamento não poder ter conhecido a famosa Biblioteca de Alexandria, consumida pelas chamas nos idos de Cleópatra, conheci o Museu Nacional, há quase meio século.

 

Lembro, ter percorrido suas salas envelhecidas, contendo relíquias históricas, onde estava erigido o pedestal do Bendegó, por exemplo, e vários sarcófagos contendo múmias egípcias.

 

Tais múmias consistiam acervo conquistado por Dom Pedro I, em despojo adquirido, surrupiado dos egípcios, ou mesmo bem negociado, igual ao obelisco que entroniza a Praça da Concórdia, em Paris, erigido por Luís Filipe de Orleans, um rei sem glória, nem boa história, em mesma época, ou quase igual.

 

Ao lembrar das minhas visitas ao Museu Nacional, recordo ter travado conhecimento da existência de uma Múmia que se dizia possuir uma atração notável aos visitantes, hipnotizando e dialogando com alguns do seu agrado.

 

Tal múmia, dizia-se então, era contumaz companhia, por melhor preferência de Dom Pedro II nas suas noites insones, naquele palácio imerso em sombras.

 

Quem a visitava, tinha a oportunidade de assistir uma palestra de um homem de ciências envelhecido que dissertava sobre o sarcófago por conter os restos mumificados de uma garota adolescente, uma princesa falecida em tenra juventude.

 

Segundo relato daquele sábio, a múmia-garota dialogava com alguns visitantes do seu agrado, que em transe caiam emitindo sons estranhos, em idioma antigo, incapazes de interpretação, verdadeiros hieróglifos sonoros.

 

Eu mesmo testemunhei um destes diálogos esotéricos surgidos, ao acaso, quando da visita de alguns colegiais, e de repente acontecia uma conversa incompreensível e enigmática entre a múmia que parecia se incorporar de um dos presentes, e os demais circunstantes, para espanto de nós outros que estávamos no seu entorno.

 

Se era algo verdadeiro ou não, custa-me pensar ser uma mera fraude, afinal nada fora combinado entre o grupo de jovens colegiais que visitava o museu igual a mim, em busca apenas de curiosidade cultural.

Múmia adquirida por D. Pedro II – Museu Nacional – UFRJ.

Anos depois dessa visita, houve uma reportagem televisiva, já vai um longo tempo, em que o velho cientista entrevistado, confessara tratar-se apenas de uma simples hipnose, que sem o desejar no seu relato descritivo, levava ao transe de algum visitante mais sensível, ou aquele preferido pela milenar repousante

 

Se foi hipnose ou não, sabe-se agora que até a jovem múmia falante foi consumida pelas chamas, e tudo são cinzas, por absoluto descuido dos humanos ao seu redor

 

E nestas cinzas ao derredor, consumiu-se até Luzia, que coisa terrível!, a recém descoberta arqueológica da nossa proto-história.

 

Restou pelo menos o Bendegó, só para dizer que em terra nossa, para vingar mesmo, tem de ser de ferro; e ferro bruto!

 

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