O mal do protegido é o protetor

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A natureza não dá saltos, ela segue um rito próprio e sempre em frente, somos nós que queremos, tentamos e, às vezes até conseguimos mudar o seu curso retilíneo.

Mesmo conscientes de que temos alguns obstáculos que inarredavelmente deverão ser transpostos, por nós próprios, sozinhos, com coragem e determinação, sem o auxílio de ninguém, somos facilmente levados à desobediência da ordem natural, saltamos essa parte e, sem entender, às vezes, com essa atitude, enfraquecemos o processo e atraímos severos prejuízos para o porvir .

Esses obstáculos são experimentos, dos quais devemos nos desincumbir dentro do estreito e solitário espaço do próprio eu, sozinho, passo a passo, no natural ritmo do tempo e dentro do ciclo vital da nossa vida, um após o outro, sem sofisma, sem medo, sem temor…

Queimar etapas, receber ajudas, usar da “sabedoria” para transpor essas barreira ou negar esse caminhar natural só resulta em estragos logo pronunciados num futuro que se avizinha.

Esses problemas e entraves que surgem no dia a dia de nossas vidas são, na verdade, os exercícios necessários e úteis ao nosso aprimoramento. Fazer por outro aquilo que ele deveria fazer sozinho é tirar-lhe a grande oportunidade do aprendizado.

Por mais paradoxal que possa parecer, a história do indivíduo se ressente muito, sobretudo, com aqueles que, de alguma forma, se intrometem no seu caminho, fazendo por ele aquilo que ele deveria fazer por si mesmo.

A ajuda, nesses casos, quase sempre se trata de uma boa intenção: eu só queria ajudar; ou, eu pensei que estava contribuindo…

Quem assim age pensa estar colaborando e protegendo, mas, na verdade, está, exatamente ao contrário, subtraindo do protegido a grande e natural oportunidade do realizar, do fazer, do acertar e do errar, do sofrer e do gozar, do aprender e do crescer por si próprio.

Todo o nosso aprendizado deve ser forjado no fogo da experiência, e, como sabemos a experiência só acontece quando de fato cumprimos, nós mesmos, a nossa parte da missão, oportunidades em que acertamos, erramos e aprendemos.

A simples observação, em alguns casos, não é suficiente para formar um referencial do experimentado. Não nego, no entanto, que a estrutura de uma vida, como um todo, é, e deverá ser assim mesmo, construída com a colaboração de muitos: família, escolas, igrejas, amigos, comunidade etc…

No entanto, provas existem pelas quais somente o individuo, solitariamente, pode e deve passar. É nesse rumo que tento esclarecer que quem protege, fazendo por outro aquilo que somente o outro deveria fazer, atrapalha.

Por exemplo, o grande mal da proteção exagerada aos filhos, exercida pelos pais, sempre muito bem intencionados e, às vezes, até compreensível, é que os seus efeitos só aparecem muito tardiamente, quando já fica difícil, e, na maioria dos casos, impossível de serem corrigidos.

Isso porque dificuldades que deveriam ser enfrentadas pelo filho foram de certa forma, suportadas pelos pais. Lembro aqui daquela historieta:

“Conta-se que um homem vendo a dificuldade pela qual passava uma lagarta, durante o seu processo de metamorfose, quando empreendia um desproporcional e, ao que lhe pareceu inútil esforço para se livrar do casulo que a aprisionava, achou por bem ajudá-la e, de posse de uma tesoura, abriu, de uma vez, aquele invólucro que tanto a apresava e, na sua concepção, fazia sofrer aquele frágil inseto, já se transformando em borboleta, que, certamente, sem entender nada, deve ter gostado do auxilio, pois saiu com facilidade. Porém, nunca conseguiu voar, terminou seus dias se arrastando pelo chão, pois para a sua plena formação necessitava passar por todo aquele processo de abertura do casulo, sozinha. Todo aquele sofrimento era, na verdade, um exercício natural para lhe dar tonos musculares e circulação adequada para que finalmente, pudesse renascer e voar como todas as borboletas.

Assim também acontece com os nossos filhos quando nós fazemos por eles aquilo que somente eles deveriam fazer.

Conto aqui outra ilustrativa historinha que, tenho certeza, poderá muito contribuir para a nossa conclusão:

“A águia, por motivos óbvios de proteção e estratégia, faz seu ninho no alto de grandes pedras, locais de difícil acesso. Na construção desse ninho usa gravetos para a estrutura e penas folhas e materiais macios para oferecer calor e conforto aos filhotes.

No entanto, quando a águia mãe percebe que os seus rebentos já estão grandinhos e que devem começar experimentar as asperezas do mundo lá fora, começa a retirar do ninho, tudo aquilo que provoque conforto e aconchego: tira as folhas, as penas…, e, naturalmente, só vão ficando os pontudos gravetos e a dureza da pedra.

Ela faz isso para ver se o filhote cria coragem e disposição para sair daquele ambiente de segurança e conforto e inicie as suas tentativas para cumprir o seu destino que é viver, voar e ser águia.

Todavia, se acaso ele não se manifesta, ela começa a empurrá-lo para fora do ninho e rumo ao despenhadeiro para que ele se arrisque no seu primeiro voo.

Se ele continuar, resistindo e sem coragem para ir em frente, ela o força com mais determinação a ponto de empurrá-lo de vez rumo ao precipício até que ele despenque no vão da incerteza e resolva sobreviver, ou morrer, suas únicas escolhas nesse desesperado momento…

E lá vem ele tentando se equilibrar, tentando, tentando, mas, ainda não possui a destreza necessária, não tem o conhecimento, não tem a experiência, perde o equilíbrio e rodopia rumo ao desconhecido e fatal, ao que lhe parece, tudo terminou…

Porém a mãe águia está a uma distancia segura, ver todo o desespero do filho, sofre com isso, demora um pouquinho mais para que ele realmente perceba o que está acontecendo e, aí, desce em voo rasante, o pega pelo bico e o traz de volta para o cume da pedra de onde, pouco tempo depois o arremessará novamente, tantas vezes quantas sejam necessárias até que ele aprenda a voar”.

Inteligente, não é mesmo? Quem faz isso é um animal, chamado de irracional. E nós, os racionais, como fazemos?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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